domingo, 18 de dezembro de 2011

O tesouro musical de Amy Winehouse






Qualidade de “Lioness: Hidden Treasures” supera oportunismo dos produtores do disco póstumo da cantora britânica, lançado na segunda-feira, 5

Um disco póstumo lançado menos de seis meses após a prematura morte de Amy Winehouse e bem no período natalino? Dá para desconfiar da jogada pra lá de comercial. É realmente difícil não conceber o lançamento de “Lioness: Hidden Tre­asures” como um caça-níquel oportunista que aproveita a conveniência do Natal para pegar o boom das vendas de final de ano.

A desculpa dos produtores Salaam Remi e Mark Ronsons, encarregados de recompilar o material desse novo álbum, é que Amy deixou “uma coleção de temas que mereciam ser escutados” e que era um “verdadeiro legado” da cantora. O disco reúne gravações que Amy realizou antes, durante e após os lançamentos de seus dois únicos discos, “Frank” e “Back to Black”.

Independentemente da suposta ganância dos que lançaram o álbum, não dá para menosprezar a capacidade dos produtores envolvidos nesse projeto, simplesmente pelo fato dele ser muito bom. Embora tenha sido lançado em uma época duvidosa, é possível perceber que as intenções ali foram mais que financeiras. Também é compreensível essa “urgência”, já que não se tinha um novo álbum de Amy Winehouse há anos. E mesmo não trazendo Amy em seu auge, a coletânea tem momentos interessantes e contribui ao legado da inglesa, consolidado e que deve ser relembrado sempre.

Não que “Lioness: Hidden Treasures” seja um disco de inéditas. A maioria das faixas já é conhecida do público em versões demo ou gravações avulsas. Bom mesmo é saber que quando gravou as canções — grande parte delas — Amy ainda não tinha prejudicado sua voz com o excesso de bebida e drogas e por isso mesmo o disco destaca a segurança vocal da artista.

É comovente a serenidade que Amy Winehouse emprega, por exemplo, aos versos da versão reggae que faz de “Our Day Will Come”, clássico de Ruby and The Romantics que também fez sucesso na voz melodiosa de Karen Carpenter, do duo Carpenters. O registro que se ouve em “Lioness: Hidden Treasures” é de 2002 e nele Amy disserta com segurança sobre como — ironicamente — tempos melhores estariam por vir.

Outra canção que também fez sucesso na voz dos Carpenters é “A Song For You”, música de Leon Russell gravada pela primeira vez por Donny Hathaway. A voz está completamente diferente da música que abre o disco e isso se justifica pelo fato de Amy tê-la gravado quando estava sob o efeito das drogas em 2009, em um take, com Amy ao violão. Mas a voz ainda soa poderosa.

A dedicação e entrega da artista a homens de caráter duvidoso, presença constante em suas canções está em “Between The Cheats”. Sedutora, Amy canta que o rapaz, depois de muito tempo, “ainda a faz enrubescer”, e o coro masculino no refrão reforça a sensação de que ela parece voar em devaneios apaixonados. Amy registrou a canção em maio de 2008, para seu terceiro álbum, jamais lançado.

Para os brasileiros “Lioness: Hidden Treasures” traz um presente especial: ‘Garota de Ipanema”, maior sucesso comercial da dupla de compositores Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Referência inevitável de música brasileira para artistas estrangeiros, foi a primeira que Amy cantou aos 18 anos quando foi a Miami pela primeira vez para gravar com o produtor Salaam Remi em 2002. A cantora britânica abusa do scat singing — técnica de canto que consiste em se cantar vocalizando tanto sem palavras, quanto com palavras sem sentido e sílabas — no melhor estilo “badabauê”—, e o acompanhamento é sutil, de bateria e violão. Ao fundo, um arranjo de violinos. Mas quem desejava ver Amy cantando em português vai se desapontar. Ela interpreta a versão em inglês, “The Girl From Ipanema”, de Norman Gimbel.

“Will You Still Love Me Tomorrow” e “Valerie” representam as releituras mais conhecidas. Coverizando Carole King, Amy mostra que a letra de “Will You Still Love Me Tomorrow”, embora não seja sua, sempre ganha vida de forma autêntica em sua voz. A música foi gravada para a trilha sonora de “Bridget Jones 2 — A Idade da Razão”. A dúvida sobre o amor que lhe é dispensado traz uma certa ingenuidade: “Isso é um tesouro duradouro/Ou apenas um momento de pra­zer?/Posso acreditar na mágica de seus suspiros?/Você ainda vai me amar amanhã?”, cantou em 2004.

Um dos grandes serviços de Amy Winehouse à música foi alavancar as alturas “Valerie”, canção do grupo The Zuttons, de Liverpool. No CD ela é apresentada em uma versão mais lenta, registrada em dezembro de 2006. Amy gravou essa música de várias formas, mas é impossível achar um registro dessa canção, na voz de Winehouse, que seja apenas razoável. Amy tornou o cover mais interessante do que o original.

“Tears Dry” e “Wake Up Alone” pertencem à categoria de faixas demos. A primeira, uma versão menos “poderosa” de “Tears Dry On Their Own”, surge muito mais lenta, mas não menos honesta que a canção incluída depois no CD “Back to Black”. A gravação é de 2005. Já a segunda teve sua gravação como demo da primeira canção registrada especialmente para “Back to Black”, em março de 2006. Ela soa mais limpa e básica e funciona muito bem, ao transmitir a real angústia de sua criadora.

“Like Smoke”, um dos duetos do disco é a mais fraca da coletânea. Gravada em colaboração com o rapper Nas, em maio de 2008, parece narrar um embate fadado ao fracasso. O outro dueto, “Body and Soul”, que Amy gravou com o cantor americano Tony Bennett para o álbum “Duets II”, lançado em setembro, foi a última gravação oficial da cantora, feita em março de 2011. Um grande encontro de artistas.

“Best friends” é a música com a qual Amy abria os shows do álbum “Frank”, registro de fevereiro de 2003. O ritmo alegre esconde uma mensagem oposta: o descaso com o parceiro não é disfarçado e Amy desdenha, debocha, dizendo que no fim, eles “ainda são melhores amigos, certo?”.

Um dos grandes méritos de Amy Winehouse era conseguir transmitir o que sentia em absolutamente tudo o que cantava, estivesse em seu auge ou nos seus dias menos esperançosos. Esse álbum é a confirmação disso e, portanto, a confirmação de seu talento.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Emmylou Harris rumo ao décimo-terceiro Grammy




"Hard Bargain" resume o pensamento de Emmylou Harris não só sobre si mesma, mas também sobre gerações, mentores, amigos mortos, filhos e netos, mortalidade e fé
Emmylou quem? Você pode não conhecer Emmylou Harris, mas certamente já ouviu a voz desta extraordinária cantora. Afinal são nada menos do que 40 anos de carreira, 12 Grammy nas mais diversas categorias e parcerias musicais lendárias que vão de Gram Parsons, The Band, Linda Ronstadt, Roy Orbison, Dolly Parton, Mark Knopfler, Guy Clark, Donna Summer, Willie Nelson, Bob Dylan, Rodney Crowell, Vince Gil, Sheryl Crown, Lucinda Willians, Nancy Griffith e Neil Young. Sem contar o impressionante conjunto de trabalhos solos de fazer inveja aos colegas do cenário musical.
O décimo-terceiro Grammy pode ser levado para casa graças a Hard Bargain, (Nonesuch Records) indicado no último dia de novembro na categoria Best American Album (Melhor Disco Americano). Os concorrentes de Ms. Harris são fortes: “ Blessed”, de Lucinda Williams (Lost Highway Records); ”Pull Up Some Dust And Sit Down”, de Ry Cooder (Perro Verde Records LLC/Nonesuch); ”Ramble At The Ryman”, de Levon Helm (Vanguard/Dirt Farmer Music) e “Emotional Jukebox”, de Linda Chorney (Dance More Less War Records).
Emmylou Harris sempre pautou sua carreira pela simplicidade, nunca se rendeu às tentações do estrelato e ao longo dessa trajetória não faltaram elogios à sua gentileza de emprestar a voz a pequenos e grandes artistas aparecendo simplesmente como backing vocal. É esta mesma simplicidade que caracteriza “Hard Bargain”, o vigésimo-primeiro disco solo (sem contar as coletâneas de grandes sucessos, edições especiais...). Com o produtor Jay Joyce na guitarra e piano e Reaves Gilles na percussão, “Hard Bargain” tem como foco a voz de Harris, ainda transcendente aos 64 anos de idade. O disco é um dos três álbuns para os quais Harris escreveu a maioria das músicas: "Girl Red Dirt", em 2000, "Stumble into Grace,” em 2003 e agora “Hard Bargain” (ela também escreveu a maior parte do seu álbum de 1985, "The Ballad of Sally Rose", junto com seu marido na época, o compositor Paul Kennerley).
Os anos não diminuíram a pureza de sua voz que canta 11 canções originais e íntimas. Em “The Road”, por exemplo, ela lembra a parceria musical e sentimental com Gram Parsons. Olhando para trás ao longo dos anos ela canta "Ainda me lembro de todas as músicas que você cantou/ há muito tempo, quando éramos jovens / e nos divertíamos a noite toda". O relacionamento com Parsons, vale lembrar, já foi cantado por Emmylou Harris na clássica balada “Boulder to Birmingham".
Outra perda, esta mais recente, é descrita em "Darling Kate" - uma homenagem a uma velha amiga e colaboradora, Kate McGarrigle, cantora e compositora canadense de folk falecida em janeiro do ano passado. McGarrigle, mãe do cantor Rufus Wainwright era amiga de Harris desde os anos 70 e autora de “Lovis Is”, que Emmylou gravou em 1989. “Darling Kate” é um elogio lindo e comovente que evita ser piegas e fortalece a verdade emocional das outras canções do álbum que falam dos muitos desafios e armadilhas da vida.
Outra homenagem é "My Name Is Emmett Till", que conta a história de um rapaz negro de 14 anos brutalmente assassinado no Mississipi em 1955. O relato de Harris lamenta a vida que Till nunca pôde viver e imagina a geração que se lhe seguiria.
Uma balada-lamento, "Goodnight Old World", deposita esperanças num bebê recém-nascido para que ele "suavize a mágoa" deste "mundo triste"; Harris tem agora uma neta pequenina. A canção foi escrita com Will Jennings, conhecido por ter colaborado em canções de Steve Winwood.
O álbum também inclui "The Ship on His Arm", um romance valsante dos tempos da guerra. A história é inspirada nas vidas dos pais de Harris, Walter e Eugenia, que se casaram durante a Segunda Guerra Mundial. Ele era fuzileiro.
Duas das canções mais reveladoras de "Hard Bargain" versam sobre mulheres solitárias: "Nobody", que conta a vida de uma pessoa que nunca encontra "o seu único e grande amor", e "Lonely Girl": "If love can''t find me again/I''ll put it all behind me then/ "I''ll just go and learn to sing another sad love song". ("Se o amor não pode me encontrar de novo / Eu vou colocar tudo atrás de mim, então / Eu vou aprender a cantar outra canção de amor triste."
Apenas duas das 13 músicas do disco são regravações. A faixa título é um sucesso da carreira do canadense Rom Sexsmith e cantanda de forma deliciosamente descontraída por Ms Harris, acompanhada pelo banjo e guitarra. “Cross Yourself”, de Jay Joyce, é outra grande interpretação da artista.
"Hard Bargain" é o primeiro lançamento de Emmylou Harris nos últimos três anos e valeu a pena esperar. Sua voz continua suave e extremamente emotiva, daquelas que torna agradável qualquer canção. As músicas são bem escritas e ouvindo o disco é difícil acreditar que há apenas três pessoas, incluindo Emmylou, fazendo toda aquela música. São longas notas de violino, acordes de pianos equilibrados com a voz melodiosa e um ou outro som de banjo e bandolim. A percussão é sutilmente inteligente. A força e a sinceridade vocal de Emmylou Harris fazem de “Hard Bargain” mais um bom motivo para amar e admirar essa grande artista.
A propósito. O CD pode ser encontrado em versão simples e edição especial, com o CD de áudio e DVD com apresentações ao vivo de seis canções e uma entrevista exclusiva com a artista.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A grandiosidade de Peter Gabriel







Sucesso no festival SWU, o ex-vocalista do Genesis injeta ““New Blood”” (sangue novo) em suas músicas, dispensando guitarra, baixo ou bateria



A primeira vez que ouvi Peter Gabriel foi em uma sala escura de cinema. Era 1990 e eu estava assistindo “A Última Tentação de Cristo”, que Martin Scorsese havia realizado no ano anterior. O filme de Martin Scorsese foi claramente a obra cinematográfica mais controversa da década de 80. Para realizá-la, o diretor baseou-se no polêmico livro do homônimo, do grego Nikos Kazantzakis, publicado em 1953, no qual a vida de Jesus Cristo era descrita de forma bem diferente da habitual, sujeita a diversas tentações como medo, dúvida e até mesmo luxúria. Controvérsias à parte, a produção conseguiu gerar uma unanimidade avassaladora em torno da sua trilha sonora original, um dos mais decisivos marcos da “World Music”, que até então se havia mantido quase inexplorada. E Peter Gabriel, o ex-vocalista do Genesis, um dos mais importantes e vanguardistas artistas da cena musical mundial nos anos 80, foi o homem responsável por este feito.
Convidado por Scorsese para fazer a trilha sonora de “A Última Tentação de Cristo”, Peter Gabriel resolveu dar um passo além. Em vez da simples música de fundo, concebeu um álbum com vida própria, mas respeitando a estética do filme. Gabriel ignorou a fórmula de orquestrações típicas das produções bíblicas e foi atrás do tipo de música que se fazia e ouvia na época em que a ação supostamente teria se passado. Também recrutou músicos turcos, armênios, africanos e árabes, além de buscar tesouros gravados pela Unesco. Sintetizadores e guitarras dão um toque dissonante, mas ao mesmo tempo familiar. O álbum pode ser resumido em uma única palavra: grandioso. Uma grandiosidade que valeu a Gabriel o Grammy de melhor disco de World Music.
A grandiosidade continuou sendo companheira de Peter Gabriel ao longo dos anos, desde quando ele fez o impecável “Us” (1992) até "Scratch my back", álbum lançado ano passado em que interpretava composições de outros artistas. Assim não foi surpresa ver a mesma grandiosidade no show que Peter Gabriel fez no festival de música SWU, apresentado pela TV na noite de domingo. No show, ele, simpaticamente, leu e só falou em português. E provou que o “New Blood” (Sangue Novo), título de seu último disco, está mesmo circulando em suas veias. A ousadia de se apresentar ao ar livre com uma orquestra por si só já mostrava a grandeza que ele queria alcançar. E conseguiu. O show, a exemplo do disco “New Blood”, reuniu canções que dispensavam elementos tradicionais do rock como guitarra e bateria. Com novos arranjos e ideias, as letras ficam ainda mais expostas e reveladoras do quão bom compositor é o ex-integrante do Genesis. O resultado é uma versão grandiosa, embora curta, sob acordes de violinos, violoncelos e afins, do que já era de dimensão inalcançável, a voz de Peter Gabriel. Ouvindo-a, ninguém imagina que quem está cantando é um senhor de 61 anos. Um dos grandes momentos foi a interpretação da música “Biko”, que o artista fez para a trilha sonora de “Um Grito de Liberdade”, realizado por Richard Attenborough em 1987 sobre o ativista pelos direitos dos negros na África do Sul, Steve Biko.
Vendo-o na TV, só sentia vontade de poder vê-lo ao vivo. Mas me contentei em alegrar minha manhã de segunda-feira ouvindo o disco “New Blood”, a trilha sonora de “A Última Tentação de Cristo”e para completar a overdose de Peter Gabriel revi o DVD de “Us”, que mostra os bastidores das gravações dos clips do CD do mesmo nome. Exagero. Sou meio tendente a explorar as coisas que gosto à exaustão (mentira... nunca me canso de ver e ouvir o que é bom).
Ouvir “New Blood” é sempre um prazer. O disco se apresenta como continuação à ideia de "Scratch my back" ao reinterpretar canções de maneira orquestral. Só que agora essas músicas são do próprio Peter Gabriel. “New Blood” traz arranjos reimaginados de muitas canções de Peter, que dispensam as armas tradicionais do arsenal do rock – sem guitarra, baixo ou bateria –, as letras são expostas e descobertas, muitas vezes tomando um novo significado com o passar dos anos. O álbum é aberto com "Downside Up", que Gabriel canta com a filha Melanie. Outra participação feminina é Anne Brun na música “Don’t Give Up”, (veja em http://www.youtube.com/watch?v=vLPlIxV7BrE). Gabriel já cantou a música nos palcos da vida com artistas como Tracy Chapman, Sinnead O’Connor e Kate Bush. Outro grande momento do disco é a faixa bônus Solsbury Hill (introduzida por “A Quiet Moment”, cinco minutos de som ambiente gravado pelo engenheiro, Dickie Chappell, antigo companheiro de Gabriel em outros trabalhos). O disco tem ainda "Digging In The Dirt", "Intruder", "Mercy Street", "The Rhythm of the Heat" e a atmosférica "San Jacinto”. Aliás, as que melhor receberam retoques são "San Jacinto", "Wallflower", "In Your Eyes" e "Red Rain".
Em tempo. O disco não tem uma versão orquestral de “Biko” cantada no SWU. Não faz falta. Mas faz falta uma regravação de “Come Talk To Me”, do disco “Us”. A música, que curiosamente relatava seus problemas com a filha Anna – que o culpava pelo divórcio dos pais - e tinha vocal de apoio por Sinéad O'Connor, atualmente é cantada por pai e filha nos show de Peter Gabriel.










Almodóvar se reinventa sem perder a essência




A força e a emoção sempre vistas nas obras do cineasta espanhol estão exatamente na coragem de escondê-las em “A Pele Que Habito”

Que Almodóvar é um dos cineastas mais criativos e renomados de sua época ninguém duvida e mesmo quando ele faz um filme fraco como “Abraços Partidos”, ainda fica acima da média das produções contemporâneas. “A Pele Que Habito”, a mais recente produção que leva a assinatura do cineasta espanhol é especial. Não somente por marcar a estreia de Almodóvar no gênero suspense, mas principalmente por provar que ele pode ser mais que drogas, travestis, cores fortes e mulheres sempre à beira de um ataque de nervos. “A Pele Que Habito” demonstra que Almodóvar pode mudar de gênero e inovar sua identidade, se reinventar, sem, contudo, perder sua essência.

No começo os admiradores do diretor podem até estranhar, mas com o desenrolar da trama vão perceber que estão diante do Almodóvar de sempre. As referências cinematográficas estão na produção. Almodóvar assumidamente usou influências de Alfred Hitchcock, Dario Argento, Luis Buñel e do horror “Os Olhos Sem Rosto” (1960), do francês Georges Franju e mesmo James Whale e sua produção, “A Noiva de Frankenstein” (no personagem de Robert, há uma paixão necrófila, muito parecida com o protagonista do romance de Mary Shelley). Embora o próprio cineasta tenha afirmado que “A Pele Que Habito” é sua primeira incursão pelo gênero suspense, há certa dificuldade de definir a produção em qualquer gênero pré-existente: terror, suspense, drama, romance. Na verdade o filme tem um pouco de tudo e tudo bem misturado.

Baseado no romance “Tarântula”, de Thierry Jonquet, “A Pele Que Habito” tem uma daquelas tramas sobre as quais não se deve falar em detalhes, sob o risco de estragar a experiência do espectador que gosta de ser surpreendido. Qualquer deslize pode resultar num spoiler. A produção se divide em duas tramas paralelas que aparentemente não tem ligação. Mas tudo se centra em Roberto Ledgard, o cirurgião plástico vivido por Antonio Banderas, que acaba de criar uma pele artificial. Suas pesquisas se tornaram perigosas no quesito da ética devido aos traumas em seu passado. Ledgard perdeu a mulher e a filha, a primeira em consequência de um acidente de carro, a segunda por traumas que se iniciaram com a morte da mãe e culminaram em uma tentativa de estupro. É inegável que Roberto é um homem perturbado e esconde mais segredos do que demonstra, sendo sempre amparado por sua governanta Marília, vivida por Marisa Paredes.

A verdade é que o roteiro, escrito pelo próprio Almodóvar, baseado no livro de Jonquet, começa de forma confusa. Não parece ter um objetivo exato, vai soltando informações na tela e cabe ao cinéfilo ir costurando estas informações para compreender o caminho, da mesma forma que o cirurgião vai costurando a pele de sua cobaia humana a que ele chama de Vera. Tudo é proposital e fará sentido no final, principalmente para quem presta atenção nas pistas deixadas pelo cineasta.

Para explicar a confusão ao espectador o diretor utiliza o velho recurso de flashbacks, recheados de pistas e mensagens subliminares que são interessantes de serem observadas. Quando os flashbacks começam, todo o enredo leva o espectador a uma viagem de abuso sexual sadomasoquista em vários níveis, desde o físico ao sociopata, passando pelo psicológico. As violações almodovarianas nunca são comuns. Almodóvar volta a trabalhar com suas obsessões, seu voyeurismo, sua identidade bifurcada, a ambiguidade sexual e as falhas do passado. E por que não dizer? Com seu humor e o kitsch que lhe são tão caros. De que outra forma explicar o bandido fantasiado de tigre e com sotaque brasileiro?

O bandido fantasiado de tigre é a essência da estética kitsch almodovariana em “A Pele Que Habito”. O cineasta troca os cenários exuberantes e coloridos por ambientes dotados de certa frieza austera que, segundo ele, contrasta com a atmosfera e narrativa absurda que permeia todo o longa. Até mesmo o figurino de Vera, assinado por Jean Paul Gaultier – que também já ficou responsável por criar as roupas de outros filmes do diretor, como “Kika” e ”Má Educação” –, vem mais discreto, mas não menos expressivo: apenas uma segunda-pele bege, tipo macacão, bem ajustada ao corpo, que parece sufocar e esconder o que há por debaixo da superfície. E as cores de Almodóvar, alvo de estudos acadêmicos, são substituídas pelo tom azul que permeia todo o filme. Ele aparece em todas as suas formas e tons. Se o vermelho exprime paixão, fogo e é uma cor quente, como nos longas do diretor, o azul traz frieza, tristeza, o blue que os americanos chamam de melancolia.

E o elenco segue o tom frio da história. As interpretações são contidas, sem emoções exacerbadas, ou paixões avassaladoras. Sem trabalhar com Almodóvar desde “Ata-Me” (1990), Antonio Banderas reencontra o diretor que o colocou em evidência no mundo do cinema e encara um personagem que foge – e muito – dos papéis aos quais foi reduzido por Hollywood. O reencontro de Almodóvar com Antonio Banderas resultou no melhor desempenho do ator desde que abandonou a Espanha e se estabeleceu em Hollywood. A dor e desespero escondidos dentro de sua personalidade impassível são de admirar. Difícil não sentir pena do médico e mesmo não se identificar com sua dor. Não é bom que um cineasta confronte-nos com o nosso lado mais sombrio quando percebemos que sentimos simpatia pelo vilão? Banderas amadureceu.

Por outro lado, a grande Elena Anaya (de “Fale com Ela”) confirma que é uma das grandes atrizes de sua época. Seu minimalismo expressivo, a maneira que Almodóvar explora o seu olhar, seus olhos, é admirável. Além de sua beleza física, há que se destacar a forma com que ela usa o corpo no papel. A personagem Vera é a mais difícil de toda a história em suas nuanças de estranhamento de uma cobaia humana que a gente não sabe exatamente de onde vem, nem para onde vai. Depois de conhecermos sua história admiramos ainda mais a interpretação. Marisa Paredes dispensaria comentários. Com sua naturalidade absoluta, ela dá à Marília um destaque que na pele de outra atriz teria passado despercebido. Menos diva e mais mulher.

Uma recomendação a quem for ver o filme: vá ao cinema de mente aberta.

sábado, 10 de setembro de 2011

A teoria da involução








“Planeta dos Macacos: A Origem” chega às telas honrando a mitologia da série e exibindo atrativos para seduzir uma nova geração de seguidores


O cinéfilo maior de 40 que fica com um pé atrás com os filmes nos quais os protagonistas são os efeitos especiais de última geração pode até pensar duas vezes antes de resolver conferir o blockbuster “O Planeta dos Macacos — A Origem”, de Rupert Wyatt. Mas quando se lembrar da cena final de “O Planeta dos Macacos”, que Franklin J. Schaffner dirigiu em 1968 com Charlton Heston, certamente vai querer saber como e porque chegamos ao ponto em que a Estátua da Liberdade está enterrada na areia, ou Abe Lincoln virou “Ape” Lincoln. A chocante cena final comprova para o incrédulo protagonista, o astronauta George Taylor, que ele está na Terra dominada pelos primatas e não em um planeta misterioso, no qual a Teoria da Evolução teve outro desdobramento.

Em “O Planeta dos Ma¬cacos — A Origem” o diretor Ruppert Wyatt retoma a saga reinventando o argumento do quarto dos cinco filmes da cine série, “A Conquista do Planeta dos Macacos” (1972), que mostra o início da revolta comandada pelo chimpanzé Ceaser e o fim do reinado dos humanos sobre a Terra. Escrito por Amanda Silver e Rick Jaffa (sempre inspirados no livro de Pierre Boulle), o roteiro tem início ilustrando a captura da símia Olhos Brilhantes (numa referência a forma como a Dra. Zira chamava Taylor na obra original). A sequência já estabelece a relação de antagonismo/submissão entre humanos e macacos que dominará a narrativa. Depois o espectador é apresentado ao cientista Will Rodman (James Franco), que está prestes a desenvolver um vírus que poderá curar o mal de alzheimer — doença que afeta seu pai, o músico Charles (John Lithgow). Durante os testes com Olhos Brilhantes, porém, Will percebe que o tratamento aumenta incrivelmente a inteligência da cobaia, que passa esta característica ao filhote Ceaser antes de ser morta num incidente no laboratório. A fim de evitar que o chimpanzé seja sacrificado, o cientista adota-o, percebendo, com o tempo, que suas habilidades cognitivas continuam a crescer exponencialmente, até que um confronto com um vizinho tira o animal de suas mãos e leva Ceaser a abandonar a docilidade habitual.

É claro que uma das grandes responsáveis pelo sucesso do filme é a tecnologia, cujas possibilidades fazem cada expressão dos macacos digitais parecer real e impressionar o público. Com a famosa técnica de motion capture, Wyatt conseguiu escapar das armadilhas que derrubaram o tarimbado Tim Bur¬ton, autor, em 2001, de uma decepcionante refilmagem do seminal filme de Franklin J. Schaffner em que os atores vestem trajes de macacos. Graças aos efeitos especiais da Wetta Digital — a empresa neozelandesa fundada por Peter Jackson e utilizada em massa na trilogia “O Senhor dos Anéis” (2001-2003), “King Kong” (2005) e “Avatar” (2009) —, nunca antes personagens criados em computação gráfica tiveram tanta credibilidade. Aqui, apesar de Ceaser ser uma criação virtual, a base para sua existência são os movimentos do corpo de Andy Serkis, que foram capturados pela câmera e trabalhados em softwares de animação, dando uma verossimilhança inédita e surpreendente. O olhar de Ceaser expressa um descontentamento doloroso frente ao seu criador e ganha ares apocalípticos quando um lancinante e gutural não explode de sua boca. Destaque para a contrariedade de Ceaser ao usar a coleira, o medo que exibe ao ver-se sozinho num ambiente desconhecido ou o espanto que sente diante dos próprios impulsos de violência.

Antes de “O Planeta dos Macacos — A Origem”, um dos maiores obstáculos da Wetta Digital eram os olhos de suas criaturas digitais. Aqui, além de exibirem movimentos repletos de sutilezas e significados (novamente responsabilidade de Serkis e seus companheiros de elenco), os olhos dos símios exibem brilho e vitalidade fundamentais para convencer o público de que há um ser vivo por trás deles. Neste sentido vale ressaltar a decisão certeira dos realizadores de modificar a cor e aumentar o reflexo da íris dos macacos “infectados”, o que serve para diferenciá-los dos parentes normais e para torná-los mais... humanos (?).

Não é exagero dizer que o desempenho do macaco é melhor que o trabalho dos atores de carne e osso. As sequências em que Ceaser e seus companheiros símios estão sozinhos em cena, sem interferência humana, são as melhores do filme. A exceção fica por conta de John Lithgow que encarna com ternura Charles Rodman, pai de Will, que sofre diariamente com o mal de Alzheimer. A emocionante relação desenvolvida entre Ceaser e Charles, levada ao ápice na cena em que o animal o salva da fúria de um vizinho, é a prova incontestável do domínio dos dois intérpretes (o chimpazé Serkis e Lithgow) sobre seus papéis.

O roteiro é bastante focado nesta relação homem-animal. O macaco não é o vilão da história e sim o homem e seu complexo de Deus. Ceaser é apenas vítima de um mundo que não compreende. Ele vive no limiar entre o humano e o animal. Às vezes parece racional, sensível e brincalhão, mas também pode dar vazão aos seus instintos animais, principalmente quando vê “sua família” em perigo. O que ele não entende é porque as mesmas pessoas que lhe dão carinho também subjugam os da sua espécie. O ser humano (?) por sua vez não poderia ser mais bestial. Dodge (Tom Felton), que trata dos macacos dispara jatos de águas com uma mangueira, também em uma referência ao original de 1968, em que os macacos controlavam os humanos com jatos d´água. Outro humano de comportamento bestial é o vizinho do pai de Will, cuja ação acaba por mudar o rumo da história. É dele também a ação que dá gancho a uma possível e provável continuação da saga dos macacos.

É claro que os protagonistas humanos têm seu valor e formam o verdadeiro elo com a moralidade, embora use os animais como cobaia. Ele representa a necessidade que o homem tem de encontrar solução para todos os problemas simplesmente pelo medo que eles têm de sua própria vulnerabilidade, um medo que não é tão real para os macacos, que veem o mundo de uma forma mais básica e primitiva, ainda que sejam dotados de inteligência.

Curiosamente o filme chega às telas nacionais um mês depois de a Academia de Ciências Médicas da Grã-Bretanha ter publicado um pedido ao governo britânico para repensar as leis que regem as pesquisas médicas com animais. Entre as preocupações dos cientistas ingleses está a possível criação de animais com inteligência humana.

O professor Thomas Baldwin, um dos membros da academia, disse à BBC que o grupo teme “que se comece a introduzir um grande número de células cerebrais humanas no cérebro de primatas e que isso faça com os que os primatas adquiram algumas das capacidades que se consideram exclusivamente humanas, como a linguagem”. Apesar de ser uma preocupação em longo prazo, o professor acredita que já devemos começar a pensar em como regular estas pesquisas.

Uma das grandes premissas da cine série original era justamente o tema sobre a exploração de animais, seja para experimentos científicos ou medicinais, seja para exibição. No original, a Dra. Zira questionava o uso de humanos em experimentos. A primeira parte do filme é povoada de cenas de laboratório e discussões sobre os limites éticos do uso de animais em experiências científicas. Pena que o filme acabe relegando essa discussão a segundo plano, preferindo enfatizar os efeitos especiais que criam cenas espetaculosas de Ceasar comandando seus legionários rebelados. O clímax dos efeitos especiais está na batalha na Golden Gate. Táticas militares de ambos os lados, sacrifícios, mortes festejadas (do vilão, naturalmente), cavalos e pólvora para lá e para cá, aquela correria e o imune humano assistindo o inevitável. São sequências de ação brilhante que deixam o público torcendo pela vitória dos símios. Quem prestou atenção no roteiro vai lembrar de uma cena em que aparecem no filme notícias de uma missão tripulada à Marte e de que a nave se perdeu no espaço, uma brecha para uma continuação na qual os astronautas voltarão à Terra e encontrarão macacos inteligentes.

O respeito sutil de Wyatt para a filmografia original será notada pelos fãs da franquia. As cenas de metalinguagem são muitas. Vai de uma homenagem a Charlton Heston, que aparece em um filme antigo que está passando na TV, a Ceasar, ainda pequeno, brincando com uma estátua da liberdade. Outras são ainda mais sutis: O nome do personagem de Tom Felton é Dodge Landon, referência para Dodge (Jeff Burton) e Landon (Robert Gunner), colegas de Taylor em “Planeta dos Macacos”. A melhor referência para mim foi a frase “tire suas mãos de mim, seu macaco sujo”, da mesma maneira que foi falada no filme original, só que em outra situação. Gostei do filme e da homenagem. É verdade que é uma produção no melhor estilo dos blockbusters, mas felizmente repleto de agradáveis referências e com uma trama bem equilibrada e cheia de conteúdo para refletir.

sábado, 27 de agosto de 2011

Poesia, um bom filme para o final de semana





Poesia, filme que ganhou o prêmio de melhor roteiro no festival de Cannes de 2011. Dirigido por dirigido por Lee Chang-dong o filme impressiona por ser simples, mas tratar com grande complexidade as relações humanas. O longa-metragem conta a história de Soon-Mi (Yoon Hee-jeong), uma senhora de 65 anos, moradora do subúrbio de Seul, que tem de conciliar o trabalho e a criação de um neto adolescente e problemático, que foi deixado pela mãe. Para ganhar a vida, Soon-Mi trabalha como doméstica e cuidadora de um idoso doente. Repentinamente, ela decide se matricular em um curso de poesia e é desafiada a escrever e ter um novo olhar sobre a vida, enquanto enfrenta uma realidade dura e a notícia de que está com mal de Alzheimer.

Por que ver? Pela delicadeza com a qual a personagem enfrenta o choque de realidade. Ao mesmo tempo em que a avó começa a se envolver com o mundo poético e parece querer distância dos problemas, ela é surpreendida pela notícia de que seu neto, junto com outros alunos, é acusado de ter violentado uma garota na escola, precisa arrumar dinheiro para uma indenização e conseguir apoio da filha ausente. A protagonistaé uma das atrizes mais famosas da Coreia do Sul.


Adele canta o amor incondicional




“21”, de Adele, é marcado por canções inspiradas em desilusões amorosas que retratam todas as fases do término de um relacionamento

Impossível falar da cantora britânica Adele (Adele Laurie Blue Adkins) sem citar Amy Winehouse. Elas têm muito em comum, a começar pelo fato de terem feito sucesso antes dos 21 anos, passando pelo forte talento vocal e a influência da música negra americana de décadas atrás. Ainda a se destacar o fato das músicas de ambas serem basicamente inspiradas nas desventuras amorosas das artistas, que expressam, em tom confessional, diferentes graus de dor de cotovelo, revelando personalidades fortes e agitadas.

Dúvida? Que tal ouvir “21”, multiplatinado álbum que Adele lançou no início do ano. Se em “19”, lançado quando a cantora tinha 19, a poderosa voz de Adele era a grande estrela em meio a um instrumental minimalista, em “21” a maior arma da cantora divide harmoniosamente o espaço com a produção de Rick Rubin que já assinou produções de trabalhos de artistas de todos os gêneros, de Johnny Cash a Metallica, passando por Beastie Boys e Rage Against The Machine. Rubin dividiu a produção com Paul Epworth, que já fez remixes para artistas como Florence, The Machine e U2. A evolução musical foi importante para salientar o novo caminho trilhado pela cantora.

O que se vê em “21” é que a produção de Paul Epworth e do mago Rick Rubin fez bem às novas músicas de Adele, que parecem mais bem resolvidas do que em seu álbum de estreia, com a artista assumindo com mais segurança o seu lado pop. Parece estranho, mas Rick Rubin fez com Adele o mesmo que fez pelo Linkin Park. A banda, que estava perdida e procurando por uma nova sonoridade, encontrou aquilo que sempre quis ser sob a produção de Rick Rubin, e foi isso que aconteceu com Adele. A cantora encontrou seu rumo e finalmente consegue colocar para fora todo o seu talento.

“21” — o título, como o do álbum anterior, revela a idade — também evidencia que a cantora gosta, tanto quanto Amy, da soul music americana dos anos 1960. Mas é um disco que soa bem menos retrô do que o “Back to Black” que consagrou Amy. A música de Adele parece carregar muito menos o peso dos próprios dramas do que a de Amy, embora Adele cante suas desilusões amorosas e confesse que algumas canções foram escritas depois de algumas doses de álcool, na esteira do fim de um relacionamento com um homem mais velho.

Resultado: “21” é um disco quase conceitual sobre as agruras de crescer e sobre os dolorosos pés na bunda que fazem parte do processo. As canções são entremeadas por refrões cantaroláveis que expõem sentimentos de negação do término da relação (“Rumour has it”), inconformismo (“He won’t go”), supressão do superego (na bela “Don’t you remember” ), onde ela pede ao namorado que se lembre dela mais uma vez e em “I’ll be waiting”, onde, sem orgulho nenhum, pede ao namorado que a deixe ficar mais uma noite. Até mesmo “Lovesong”, cover do The Cure executada em um clima de banquinho e violão, se encaixa perfeitamente no tema do álbum. Adele canta com intensidade tanto as canções mais balançadas (“Rumour Has It” e “I’ll Be Waiting”) quanto as mais dolentes (“Turning Tables” e “Don’t You Remember”).

Além do soul marcante de seu primeiro trabalho, em “21” Adele é claramente influenciada pelo country dos Estados Unidos, país onde foi recebida de braços abertos. Exemplo claro dessa mistura de influências é “Rolling in the deep”, o primeiro — e ótimo — single do disco. Segundo a crítica da revista “Billboard”, “Rolling in the deep” dificilmente será superada como a melhor música de 2011. A canção conta com dezenas de releituras na internet, gravadas por ilustres desconhecidos e até por gente já consagrada no métiers, como o americano John Legend.

“19” era um álbum encantador, é verdade, mas só tem duas músicas realmente memoráveis, “Chasing Pavements” e “Hometown Glory”. Já sobre “21” pode se dizer mais do que isso. Impossível ouvir só uma vez “Rolling In The Deep” (que a artista define como uma música “dark bluesy gospel disco tune”), “Turning Tables”, “Don’t You Remember” e “Lovesong”, o cover do The Cure. “21” é um álbum sobre amor incondicional. As pessoas podem ficar para trás, assim como as histórias, mas as sensações e lembranças permanecem — nem que seja apenas no eco da voz de uma grande artista.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Mike Myers decreta a volta de Austin Powers



O agente secreto Austin Powers vai voltar! O ator Mike Myers, que criou e interpretou o personagem em três longas, assinou contrato para filmar a quarta aventura do espião. Ainda não se sabe qual é a trama, mas um roteiro antigo centralizava a história em Dr. Evil, o vilão interpretado também por Myers, e seu filho, Seth Green. Já que assinou contrato, é bem provável que o roteiro já esteja pronto, ou pelo menos o esboço dele. O diretor Jay Roach, que dirigiu todas as três aventuras, pode retornar.

O personagem Austin Powers foi criado por Mike Myers para homenagear o espião 007. Como seu colega de espionagem britânica, Austin enfrenta o perigo sem medo e exerce um fascínio sobre as mulheres. Os cartazes e muitas fotos de divulgação dos filmes lembram os das aventuras de James Bond. O primeiro filme, Austin Powers – Um Agente Nada Discreto, de 1997, saiu diretamente em vídeo. Lembro que o aluguei em uma “finada” locadora perto de minha casa. Como sou fã de James Bond, a paródia me parecia interessante.

Na primeira aventura, Austin Powers vivia nos anos 60, na Inglaterra, no auge da psicodelia. Ele consegue derrotar o terrível Dr. Evil e se oferece para ser congelado, caso o vilão retorne. Obviamente, ele retorna e Austin é descongelado 30 anos depois. Com sua roupa e gírias divertidas, o espião percebe que muita coisa mudou no mundo durante o período em que esteve congelado. Mike Myers conseguiu criar um personagem adorável e engraçado, e o primeiro filme é divertido na medida certa.

Mesmo saindo diretamente em vídeo no Brasil, o filme fez sucesso em outras partes do mundo e então veio a segunda aventura, com o título infame: Austin Powers – O Agente “Bond” Cama. Aí veio a consagração mundial. O longa estorou nas bilheterias e nas pistas de dança, já que Madonna cantava a animada música tema. Em O Agente “Bond” Cama, Austin Powers deveria impedir Dr. Evil, que planejava disparar um raio laser sobre a Terra. Mas o vilão havia roubado o “mojo” (espécie de hormônio sexual) do personagem, o enfraquecendo. O agente precisava então voltar ao passado para recuperá-la. Apesar do sucesso, esta segunda aventura já não tinha o frescor do primeiro longa.

Como o sucesso sempre leva a uma nova sequência, em 2002, chegou aos cinemas Austin Powers em O Homem do Membro de Ouro. Nesta nova aventura, Mike Myers tem a cantora Byoncé como interesse romântico e deve derrotar Goldmember. Mais uma vez, Dr. Evil se alia ao vilão para conquistar o mundo. Eles planejam sequestrar o pai de Austin Powers, interpretado por Michael Caine.

O terceiro não foi bem nas bilheterias. Isso explica porque só agora, quase 10 anos depois, é que Mike Myers decreta a volta do personagem.

Os vencedores de Gramado





Caio Blat e Lúcia Murat recebem Kikito pelo filme Uma Longa Viagem (Gabriela Di Bella/PressPhoto)




Achei interessante postar a lista dos vencedores do festival de Gramado. Como não conheço os filmes que estavam em competição, não há o que se comentar sobre a premiação.



Longa-metragem Nacional
Melhor filme em longa-metragem brasileiro: Uma Longa Viagem, de Lucia Murat
Melhor montagem: Leonardo Sette, por As Hiper Mulheres.
Melhor fotografia: Roberto Henkin, por O Carteiro.
Melhor roteiro: Gustavo Pizzi e Karine Teles, por Riscado.
Melhor atriz: Karine Teles por Riscado.
Melhor ator: Caio Blat, por Uma Longa Viagem.
Melhor diretor: Gustavo Pizzi, por Riscado.
Especial do júri: As Hiper Mulheres, de Leonardo Sette, Carlos Fausto e Takumã Kuikuro.

Longa-metragem Estrangeiro
Melhor fotografia: Serguei Saldivar Tanaka, por La lección de Pintura.
Melhor roteiro: Sebastián Hiriart, por A Tiro de Piedra.
Melhor atriz: Margarida Rosa de Francisco, por García.
Melhor ator: Gabino Rodríguez, por A Tiro de Piedra.
Melhor diretor: Gustavo Taretto, por Medianeiras, e Sebastián Hiriart, por A Tiro de Piedra.
Especial do júri: Las Malas Intenciones, de Rosario Garcia-Montero.
Melhor filme longa-metragem estrangeiro: Medianeiras, de Gustavo Taretto.

Curta 35mm e Digital
Melhor filme: Carreto, de Claudio Marques e Marilia Hughes e Haruo Ohara, de Rodrigo Grota
Melhor montagem: Mair Tavares e Tina Saphira, por Um Outro Ensaio.
Melhor fotografia: Jacques Dequeker, por Polaroid Circus.
Melhor roteiro: Rodrigo John, por Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo.
Melhor atriz: Dira Paes em Ribeirinhos do Asfalto.
Melhor ator: José Wilker em A Melhor Idade.
Especial do júri: Rivelino, de Marcos Fábio Katudjian.
Melhor diretor: Natara Ney por Um Outro Ensaio.
Melhor filme curta-metragem: Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, de Rodrigo John.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Melancolia exibe conflito existencial de proporções apocalípticas




Filme de Lars Von Trier é uma alegoria da inconformidade do homem com seu inescapável fim

“Melancolia”, filme em cartaz no Cine Lumiere, é apresentado como uma produção sobre o fim do mundo, tema recorrente do cinema mundial. O “mas” da questão é o fato de ser dirigido pelo dinamarquês Lars Von Trier. Isso faz toda a diferença. Claro que o filme tem efeitos especiais impactantes como a da colisão do planeta Melancolia com a Terra. Em sua essência, porém, o filme é um ensaio sobre a catastrófica condição do ser humano em entender sua própria finitude.
Quase obscurecido pela polêmica em torno do suposto nazismo de Lars Von Trier, que ele revelou na coletiva de imprensa do filme, quando de sua exibição no festival de Cannes do ano passado – o que provocou sua expulsão do evento –, Melancolia entra nos cinemas do Brasil em tempo recorde. O filme ainda vai estrear nos Estados Unidos em novembro e até mesmo na Europa só chegou a poucos países. Melhor para os cinéfilos brasileiros, que têm a chance de ver primeiro o excelente filme do diretor dinamarquês, que é um grande cineasta, independentemente de suas polêmicas declarações. E vale lembrar que o cineasta foi expulso de Cannes, mas a produção continuou na competição e acabou arrebatando o prêmio de melhor atriz, entregue a Kirsten Dunst, merecidamente. Não fosse o título de ”persona non grata” conquistado contra sua vontade, Von Trier teria provavelmente levado uma Palma de Ouro no festival francês.
Assim como em “Anticristo” (Antichrist, 2009), filme anterior do diretor, a sequência de abertura traz um prólogo impactante. Lars von Trier hipnotiza o espectador com cenas filmadas em câmera lentíssima, de estética visual de videoarte e trilha sonora feita de excertos do prelúdio da ópera “Tristão e Isolda”, de Wagner. Depois de mostrar a colisão de um planeta gigantesco contra a Terra, ao som de música ultrarromântica, o filme muda bruscamente de ritmo e o cineasta conta o que seriam os últimos dias do mundo através de duas irmãs, Justine e Claire, interpretadas pela americana Kirsten Dunst e pela francesa Charlotte Gainsbourg, vencedora em 2009 do prêmio de melhor atriz em Cannes por “Anticristo”.
Anunciado a princípio como uma versão para o cinema da peça As Criadas, de Jean Genet, Melancolia acabou mantendo da obra do escritor e dramaturgo francês apenas a estrutura calcada na relação de duas irmãs, o nome de uma das personagens (Claire) e o clima de tragédia iminente. Kirsten Dunst é Justine, uma publicitária que entra em crise no dia do casamento. A primeira cena é engraçada e mostra um motorista tentando manobrar uma limusine numa estrada estreita. Tudo é maravilhoso, mas Justine não consegue se entusiasmar. A cerimônia transforma-se numa comédia de erros com a noiva entrando em parafuso. A ilusão esmaece e o desastre se complementa com personagens problemáticos, típicos do universo de Von Trier – mãe niilista (Charlotte Rampling, sempre bem), pai ausente (John Hurt) e o chefe inescrupuloso da noiva (Stellan Skarsgård, pai de Alexander).
A festa de casamento é registrada por uma instável câmera no ombro, o que lembra outra produção dinamarquesa, “Festa de Família”, que Thomas Vinterberg (parceiro de Von Trier no manifesto Dogma 95) dirigiu em 1998. O clima de felicidade artificial, quase histérica, se dilui na medida em que a noiva vai mergulhando num estado de melancolia paralisante. “Quando tento caminhar, sinto um fio de lã, cinza e grosso, enrolado às minhas pernas”, ela confidencia.
A segunda parte da produção leva o nome da outra irmã, Claire. A ação se passa tempos depois do fracassado casamento no mesmo local onde aconteceu a festa: um luxuoso palacete à beira-mar. Ao lado do marido John (Kiefer Sutherland) e do filho, Claire espera a chegada de uma catatônica Justine – que nem consegue pegar um taxi sem a orientação da irmã - para juntos assistirem a passagem do planeta Melancolia, que está cada dia mais próximo da Terra. Justine serve como alter ego do cineasta. Vítima de uma depressão patológica, que o diretor já experimentou mais de uma vez, Justine não tem energia para caminhar, comer ou tomar banho e dá à Dunst a chance de brilhar como atriz.
Nesta segunda parte da produção, a ação se concentra na relação de Claire com a irmã, o marido e o filho. Melancolia, o planeta que no início era apenas uma estrela de brilho avermelhado, agora segue trajetória de colisão com a Terra. Claire teme, por ela e pelo filho, que as profecias pessimistas se concretizem e o fim do mundo esteja próximo. Seu marido, um astrônomo amador, garante que o planeta não está em rota de colisão com a Terra e tenta dissuadi-la ao colocar panos quentes na realidade. E acaba se revelando como um dos tipos hipócritas e covardes da obra de Trier. Claire, no entanto, não está tão segura disso, e se angustia cada vez mais com o possível desastre. Justine, ao contrário, vai saindo aos poucos da depressão profunda à medida que Melancolia está mais próximo. Diante da iminência da catástrofe, caberá à deprimida protagonista se revelar sábia e forte para lidar com a situação. É a única a perceber o inevitável: um dia todo mundo morre.
O mais instigante de Melancolia é a forma com que o cineasta revela as personalidades de suas protagonistas, que, segundo ele, podem ser vista com os dois lados da mesma pessoa. Na primeira parte do filme, dedicado à catatônica Justine, tudo é filmado em um tom amarelo quente. E quando coloca em cena o descontrole da aparentemente autoconfiante irmã mais velha, Von Trier usa o azul frio do que ele chama de a luz de Melancolia. Ela pode ser tanto o azul do ameaçador planeta como o da própria melancolia, já que blue, em inglês, significa tanto azul quanto triste.


Assalto ao Banco Central é uma grande roubada


A mais cinematográfica ação da história de assalto a banco do País ganha versão insignificante e sem emoção


Embora tenha construído minha carreira jornalística usando como matéria-prima o audiovisual, atuando por quase 30 anos como crítica de cinema, nunca gostei de novelas de TV. Admiro o padrão de qualidade global e acho que a TV tem uma linguagem muito especial e cativante, mas, acostumada a ver histórias que se desenrolam com começo, meio e fim em cerca de duas horas, nunca tive muita paciência para esperar o desenrolar das histórias dia após dias. Essa impaciência acabou fazendo com que eu implicasse um pouco com o cinema nacional que utiliza os atores de TV para protagonizarem suas histórias. Vendo os filmes nacionais (não todos, é claro), eu ficava sempre com a impressão de estar assistindo TV em uma tela grande.

Foi justamente essa impressão que tive assistindo “Assalto ao Banco Central”, dirigido por um dos mais bem-sucedidos diretores de televisão no Brasil, Marcos Paulo. Além de usar um elenco global, o diretor imprime características da TV à produção. E a primeira impressão que se tem é de estar assistindo um piloto de uma série policial de TV. O filme conta, com direito a elementos ficcionais, uma história real, que movimentou a cidade de Fortaleza em agosto de 2005. Numa ação por si só cinematográfica, bandidos levaram mais de R$ 160 milhões da filial cearense do Banco Central. Eles cavaram um túnel de 80 metros de extensão e 70 centímetros de largura para chegar ao caixa-forte do prédio. O circuito interno de TV não gravou nada. A edição mescla cenas da preparação com detalhes do que aconteceu depois, como a perseguição que sofreram por parte de um delegado da Polícia Federal e sua assistente, além da extorsão praticada por dois policiais corruptos.

Tinha tudo para ser um grande filme. A começar pelo currículo de seus realizadores e intérpretes. Renê Belmonte, o roteirista, por exemplo, é autor de várias comédias de sucesso (“Sexo, Amor e Traição”, “Se Eu Fosse Você 1 e 2”). Marcos Paulo dispensa comentários. Lima Duarte também, mas aqui merece. Primeiro Belmonte, que se arriscou ao afastar-se da realidade e optar pela criação de um enorme leque de personagens — influência, talvez da produção americana “Onze Homens e Um Segredo”. Resultado: não teve tempo de conferir personalidade a seus personagens, que acabaram sendo apresentados como meros esboços.

O chefe do bando é Barão (Milhem Cortaz, sempre um bom ator). Aqui ele aparece como um manda-chuva bem alinhado e com cara de mau. De origem rica, o bandido planeja e comanda a ação. Ele trabalha apenas como o cérebro do roubo e reúne os comparsas prometendo a cada um deles R$ 2 milhões. E como o roteirista mostra que ele é o cérebro da ação? Colocando para jogar xadrez sozinho. Muito pobre. Ao lado do Barão aparece Carla (Hermila Guedes, maravilhosa em “O Céu de Suely”), sua namorada, uma típica perua com ares de mulher fatal. Aqui ela parece uma atriz de novela da Globo. Mineiro (Eriberto Leão) é o bandido boa pinta que Barão procura para organizar o bando. Mineiro tem fama de trambiqueiro profissional e várias identidades. Difícil de acreditar, principalmente por conta do bom mocinho que o ator interpreta em “Insensato Coração”.

O destaque do elenco, se é que se pode chamar de destaque, é Tonico Pereira no papel de um engenheiro comunista, encarregado de supervisionar a construção do túnel a partir de uma empresa de fachada nas redondezas. Seu recrutamento é ideológico. Tonico rouba a cena sempre que aparece e o faz sendo o Tonico Pereira que a gente conhece e que o transformou em um dos melhores coadjuvante do cinema nacional.

Lima Duarte, um bom e respeitado ator, também é o Lima Duarte que a gente vê na novela das seis, das sete ou das oito. Ele tenta até ser engraçado interpretando um delegado da velha escola da polícia, mas acaba desperdiçando suas cenas porque parece estar atuando no piloto automático.

Giulia Gam, que na época das filmagens não escondia sua empolgação com o treinamento feito na Polícia Federal e com a consultoria da força policial nacional ao filme, deve ter se decepcionado. A começar pelo fato de sua relação amorosa com outra mulher, um tema que deveria ser melhor explorado, ter sido incluído de forma tão grosseira no filme. E a Vinícius de Oliveira, conhecido como o garotinho de “Central do Brasil”, coube o infame alívio cômico: ser um atrapalhado homossexual evangélico.

Não se pode culpar Marcos Paulo pela insignificância do filme. Afinal ele tem 30 anos de experiência na televisão, Marcos Paulo nunca tinha dirigido um filme antes. E deixa isso claro. Ele não deve ter assistindo nenhum filme de assalto a banco feito pelo cinema americano. Podia ter sido até “Trapaceiros”, de Woody Allen (em que o cineasta comanda um grupo de bandidos trapalhões que cavam um túnel para roubar um banco) ou quem sabe “Um Plano Perfeito”, estrelado por Clive Owen e Jodie Foster. Ele teria algumas dicas de como usar o humor em uma produção do gênero ou ainda como fazer um filme de ação e, ao mesmo tempo, explorar as características psicológicas dos personagens.

E a impressão que se tem ao ver “O Assalto do Banco Central” é de se estar diante de uma longa novela, infelizmente sem o padrão global de qualidade. Tudo deixa a desejar: o cenário, a trilha sonora e a narrativa não linear. E para piorar, “Assalto ao Banco Central” tem um final surrealista. O diretor não tinha, de fato, obrigação de ser fiel aos acontecimentos relacionados ao maior assalto da história do Brasil. Mas a sua versão, além de pobre, está longe de produzir bom entretenimento. O único mérito de “Assalto ao Banco Central” é despertar a curiosidade para o que, de fato, ocorreu. E para quem quiser matar essa curiosidade, a recomendação é o livro “Toupeira”, do ex-investigador da Polícia Civil de São Paulo, hoje advogado, Roger Franchini. A fonte para seus escritos são os autos do processo aberto em Fortaleza, os diferentes depoimentos e as informações que recolheu pessoalmente.

Entre a realidade e a ficção

O assalto ao Banco Central de Fortaleza é considerado o maior roubo a banco da história do Brasil. Os ladrões alugaram uma casa próxima à sede do BC na capital cearense e chegaram ao cofre por meio de um túnel. A estrutura contava com sistema de iluminação elétrica e até ventilação. Segundo a Polícia Federal, R$ 164,7 milhões foram roubados. Até hoje, foram recuperados cerca de R$ 50 milhões — R$ 30 milhões em bens. A primeira parte, 50 dias depois do crime, na casa de um dos suspeitos. A investigação levou à prisão de cerca de 120 pessoas, 37 envolvidas diretamente com o roubo. Um dos presos é Antonio Argeu, ex-prefeito de Boa Viagem, no interior cearense, acusado de financiar a execução do roubo com R$ 100 mil.

No filme, o espectador pode ver claramente que os ladrões embarcam em suas vans apenas algumas centenas de quilos de dinheiro, não toneladas. Entre as curiosidades da produção está o fato do túnel ser baixo, o que obriga os atores a se curvarem. No entanto, é alto o suficiente para que a câmera possa filmá-los. No filme os criminosos são apenas 13. Tirando os que apenas administram o processo ou cuidam de sua logística, é pouca gente para quase 80 metros de túnel. E finalmente a investigação é praticamente monopolizada pela Polícia Federal, concentrada praticamente nas mãos de dois investigadores: Chico Amorim (Lima Duarte) e Telma Monteiro (Giulia Gam).


sábado, 23 de julho de 2011

Droga é mesmo um jogo de azar _ Amy Winehouse is dead


Drugs é mesmo um jogo de azar. E para Amy Winehouse game is over. E ela perdeu feio. Apostou alto: a própria vida. RIP.

Amy Winehouse entrou no jogo apostando alto: a própria vida. E perdeu feio. Morreu deixando os fãs instigados pela certeza de que ela tinha uma grande trajetória pela frente. Em uma de suas mais famosas canções, a inglesa Amy Winehouse canta com sua voz única que o amor é um jogo de azar e as chances de se ganhar são mínimas. Os versos da canção poderiam ser trocados por “drug is a losing game”. Um jogo que Amy nunca deveria ter jogado e que, parafraseando a canção, fez um estrago irremediável em sua vida. O estrago teve o lance “lance final” (the final frame) na tarde do sábado, 23, quando a artista foi encontrada morta em seu apartamento de um bairro chique de Londres.

Desgastada pela banda (“played out by the band”), esquecendo as letras das músicas e completamente bêbada (ou drogada), Amy mal deve ter se dado conta do vexame pelo qual estava passando, tampouco percebido que a droga é realmente um jogo de azar muito mais azarado do que ela poderia aguentar (“more than I could stand”).

E certamente esteve longe de perceber que nunca teve um público que a apoiasse tanto e que a amasse tanto, a ponto de, no show em Belgrado, lembrá-la dos versos das canções, na esperança de que ela conseguisse levar seu show até o fim. Amy sempre teve imaginação e suas canções revelavam uma espécie de melancolia única. Só precisava ganhar a luta contra as drogas.

Se Amy era capaz de compor versos que atestam que o amor é um jogo de azar, deveria ser capaz também de perceber que a droga é declaradamente profunda (“self professed...profund”) e fazer esse encanto se quebrar (“tiil the chips were down”).

Pena que Amy estivesse bastante cega (“Though I’m rather blind”) e ter se resignado com seu destino drogado (“Love is a fate resigned”) e deixando que as lembranças denegrissem a sua mente (“Memories Mar my mind”), fazendo com que as drogas definissem seu destino (“a fate resigned”).

As expectativas não tinham de ser inúteis, tampouco ridicularizadas pelos deuses. Bastava abandonar o jogo. Afinal, desde o início ela sabia que a partida estava perdida. E para se achar, deveria, talvez, ter colocado em prática, versos de sua canção mais famosa, “Rehab” (reabilitação). Não aquela em que ela diz que tentaram mandá-la para a reabilitação e ela disse não, mas ( “I don’t ever want to drink again”) “Não quero beber nunca mais. Só preciso de um amigo” (“I Just, ooh, I Just need a friend”). Milhares de fãs deveriam ter bastado. Não bastou. Amy continuou no jogo e apostando alto. Apostou a própria vida. E perdeu feio.

A partida final do jogo, na tarde de sábado, 23, acabou fazendo com que Amy caísse naquele seleto e triste grupo dos artistas ícones de sua geração que morreram aos 27 anos — Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Jim Morrisson, Janis Joplin. O mundo a viu se acabar dia após dia e infelizmente não é nenhuma surpresa sua morte, depois de uma vida de tantos excessos, mas a tristeza de quem realmente é fã é inevitável.

Suas histórias pessoais sempre serviram de mote para promover sua música. Até mesmo sua gravadora usava seus problemas para vender discos e fechar shows. Só recentemente acabaram descobrindo que a superexposição era mais prejudicial que benéfica à carreira da cantora. Quando ela tinha 25 anos, foi alvo de uma reportagem da revista “Rolling Stones”, que expôs em suas páginas a vida desregrada da artista que vivia rodeada de usuários de drogas. Amy não escondeu seus vícios que se transformaram em prato cheio para a imprensa sensacionalista. Dois anos depois do lançamento do segundo disco, a cantora passou a ser um motivo de piada mais do que uma reconhecida cantora.

Entre uma passagem e outra por clínicas de reabilitação, Amy se arriscava no palco onde dava mais vexame do que cantava. No início do mês passado, quando estava em turnê pelo Leste Europeu, protagonizou um episódio desastroso em um show na Sérvia. Apenas murmurando as letras, visivelmente bêbada, cantou músicas fora do tom e abandonou o palco depois de ser vaiada e jogar um dos sapatos na plateia.

Os fãs da cantora passaram os últimos anos esperando que ela conseguisse sair das drogas pelo menos tempo suficiente para lançar outros discos tão bons como o álbum de estreia, “Frank”, lançado em outubro de 2003, produzido por Salaam Remi e o famosíssimo “Back to Black”. Frank tem influências do jazz e todas as canções foram escritas por Winehouse. O álbum foi bem recebido pela crítica e sua voz foi comparada à de Sarah Vaughan e Macy Gray. “Frank” foi indicado para o Mercury Music Prize 2004. E lançado apenas no Reino Unido. “Back to Black”, que recebeu seis indicações para o Grammy 2008, das quais venceu cinco: Canção do Ano, Gravação do Ano, Artista Revelação, Melhor Álbum Vocal Pop, Melhor Performance Vocal Pop Feminina. Também pudera. “Back do Black” foi produzido por Mark Ronson, que tem entre seus créditos a produção de Ol’ Dirty Bastard, Lilly Allen e Christina Aguilera. Ronson recrutou os músicos da banda The Dap-Kings, comandada por Gabriel Roth. O instrumentista colaborou para o sucesso de Amy Winehouse, tocando e atuando como engenheiro de som no CD, e a banda fez uma participação impecável ajudando a cantora a resgatar a magia da soul music, unindo ainda a linguagem do funk e hip hop.

Com o alicerce de uma produção caprichada, um repertório sem falsidade e música extraída das experiências, Amy Winehouse resgatou com o disco as profundezas o bom som, feito com sinceridade e bem trabalhado. Embora fosse uma angustiada e sofrida, ela cantava com a alma, com a amargura de sua alma.

Ainda não se sabe, mas tudo evidencia que Amy perdeu o jogo para as drogas, assim como os artistas citados no começo deste texto. Mas a história bem que poderia ser diferente. Afinal a gente conhece muito velhinho que se entregou às drogas e estão aí vivos e fortes. Que o diga Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, que segue contando histórias e excursionando com sua banda ; Iggy Pop e David Bowie, sem falar dos integrantes do Red Hot Chilli Peppers. E só para lembrar uma mulher, não tão talentosa quanto Amy, mas ainda assim famosa: Courtney Love. A viúva de Kurt Cobain e líder da banda Hole esteve internada diversas vezes por conta de seu vício em heroína e cocaína. Mesmo longe da cena musical nos últimos anos, ela conseguiu papel de destaque no cinema como no filme “O Povo Contra Larry Flynt”.

A própria Amy mostrou sinais de melhora no ano passado quando regravou “It’s My Party”, de Lesley Gore, para o álbum “Q Soul Bossa Nostra”, um tributo ao produtor Quincy Jones. Ainda no ano passado ela lançou seu próprio selo,
Lioness, que lançou a afilhada de Amy, Dionne Bromfield. E em março deste ano ela se juntou a Tony Bennett nos estúdios Abbey Road para gravar um standart do jazz dos anos 30, “Body and Soul”, para o próximo álbum de Bennet, “Duetos II”. Depois da morte de Amy, o cantor disse que a performance da artista na música é comovente e extraordinária.

O legado de Amy Winehouse é a renovação da soul music que a artista resgatou cantando suas dores de amores e dificuldades de se livrar do vício. E principalmente o fato da artista abrir caminho para um time de jovens vozes poderosas da Inglaterra como Adele, nomeada artista revelação em 2008 pelos críticos da BBC e ganhadora de dois Grammy Awards: Artista Revelação e Melhor Vocal Pop Feminino. Seu reconhecimento mundial veio com o álbum “21”, e sua canção “Rolling In The Deep” é tocada com fervor nos Estados Unidos e Reino Unido. Adele disputa com os Beatles no ranking de músicas mais vendidas na internet. Além do também britânico James Blake, 22 anos, que estreou em disco, em fevereiro deste ano, com elogios em sites e revistas do mundo todo; e a cantora Rox, 21 anos, que lançou o disco “Memoirs” e emplacou o single “My Baby Left Me” na trilha da novela global “Araguaia” além de ser bem recebida pelos britânicos, que incluíram a moça nas listas de promessas de 2010. Se não dá para chamar de “seguidoras”, podemos sim afirmar que sem o sucesso de Amy, essas cantoras, assim como Janelle Monaé, Estelle e Joss Stone teriam tido mais dificuldade para mostrar seu trabalho.

E pensando em epígrafe para a carreira e vida de Amy, impossível não pensar em suas próprias palavras. “I wish I could say ‘no regrets’ and no emotional debts, and as we kiss good-bye the sun sets. So we are history, the shadow covers me, the sky above a blaze that only lovers see... My tears dry on their own.” “Gostaria de poder dizer sem arrependimentos ou dívidas emocionais. E em nosso beijo de despedida ao por do sol, entramos para a história. A sombra me cobre. No céu, uma chama que só os amantes podem ver... e minhas lágrimas secam por conta própria.”


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quinta-feira, 14 de julho de 2011

A época de ouro do cinema de Woody Allen




Confesso que relutei em ir assistir Meia noite em Paris, de Woody Allen. Será que valeria a pena rever mais um alter ego do cineasta inseguro, tímido, infeliz com suas escolhas pessoais e de trabalho, cheio de trejeitos e com aquele jeito “cuida de mim” que várias mulheres gostam? Fui. E me deliciei mais uma vez com a certeza de que não existe nada melhor do que uma história bem contada, mesmo quando a gente já a conhece.

Para começar, a produção se vale de um clichê da ficção científica – a viagem no tempo – que Allen usa para reverenciar o romantismo e a pulsão cultural da Paris dos anos 20. Inteligente, leve, encantador, delicioso de se assistir, o filme ainda mostra a capacidade do cineasta de mergulhar na nostalgia para tirar o positivo do presente.

No papel recorrente do próprio Allen, como seu alter ego, agora está Owen Wilson. Ele vive Gil, roteirista de Hollywood que visita Paris com a noiva, Inez (Rachel McAdams), e os sogros. Escritor frustrado preso a um trabalho que considera medíocre, Gil, a exemplo de outros intelectuais americanos, sonha com a Paris dos anos 20, quando a capital francesa era o paraíso de “todos” os artistas. E vê a Cidade Luz como o lugar ideal para sua criatividade desabrochar. Isso acontece quando ele é transportado para os anos 20 por um portal de contos de fadas; o badalar dos sinos de Notre Dame a meia noite. Ele acabara de passar por uma sessão de degustação de vinho, está meio bêbado e acha normal pegar carona em um carro antigo, que literalmente o leva a uma viagem no tempo.

Como a gente conhece as neuroses de Allen e sua maestria, os delírios do protagonista parecem perfeitamente naturais. Ele circula com desenvoltura entre dois núcleos, o real do século 21 e o fantástico dos fervidos anos 20. Em suas escapadas pelas noites de Paris ele é levado ao encontro de figuras como Cole Porter, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Gertrude Stein, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Pablo Picasso e T.S. Eliot, entre outros tantos nomes que ajudaram a escrever a história do século 20 na música, na literatura, nas artes plásticas e no cinema.

Nos anos 20 Gil não somente tem a chance de interagir com a escritora americana Gertrude Stein como o privilégio de tê-la avaliando seu trabalho, recebendo conselhos tão bons quanto os que Stein dava ao jovem Picasso, que, segundo ela, era bom, mas não tão bom quanto Matisse e estava longe de um Miró (nas palavras de Hemingway). Com Ernest Hemingway ele toma absinto e ouve os célebres e impulsivos discursos sobre a inveja que os escritores têm um dos outros. Quando Gil entrega o manuscrito de seu livro para Hemingway, pedindo para que este o leia, o autor de Adeus às Armas responde de forma hilária e genial: “Não vou ler. Se for ruim, vou detestar. Se for bom, vou ficar com inveja e detestarei ainda mais”.

É na casa de Stein que ele conhece uma bela francesa por quem se apaixona: Adriana (Marion Cottilard, Oscar de melhor atriz pelo filme Piaf), seguidora da estilista Coco Chanel e amante de Pablo Picasso, depois de passar pelas mãos de Braque e Modigliani. Como Gil, Adriana acha que nasceu na época errada e nutre obsessão pela Belle Époque, que considera a verdadeira era de ouro de Paris.

Outro grande momento do filme é a divertida conversa de Gil com o fotógrafo Man Ray, o cineasta Luis Buñuel e o pintor Salvador Dalí, figuras conhecidas do surrealismo. Aliás, a cena mais memorável de Meia noite em Paris fica por conta do encontro de Gil com Luis Buñuel em uma festa. Gil sugere que rode um filme sobre um grupo de burgueses que, após o jantar, não consegue abandonar a mansão e, aos poucos, vão perdendo o verniz de civilidade. O coitado só entenderia o conselho de Gil em 1962, quando usou o argumento para filmar o hoje clássico O Anjo Exterminador.

Acostumado a fazer filmes curtos, Allen acaba prejudicando Meia noite em Paris ao usar os personagens célebres dos anos 20 – T. S. Elliot, Cole Porter e mesmo Scott e Zelda Frtizgerard – como meros coadjuvantes. Na maioria das vezes eles entram em cena apenas para ilustrar uma piada rápida de Allen - como quando ele oferece um valium para uma Zelda Scott prestes a cometer suicídio. Allen explora mais a fundo a relação de Gil com Hemingway e Gertrude Stein. Nas conversas dos dois escritores fica a constatação de como a humanidade foi transformada pelo século 20: do falastrão, resolvido e confiante Ernest - na verdade, um beberrão- ao inseguro, frágil e problemático Gil. Hemingway, um ex-combatente de guerra, não entende por que Gil cultiva um constante medo da morte. Ou por que simplesmente não se autodenomina “o melhor escritor do mundo”, ao invés de ter vergonha até mesmo de mostrar seu livro para os outros. E de Stein recebe conselhos que vão nortear sua vida em 2010.

Depois, passeando pelo passado, de braços dados com Adriana Gil tem um insight. Todo mundo acha sua época ruim. Gil sonha com os anos 20, Adriana com a Belle Époque e Paul Gauguin queria ter vivido na era renascentista. Não seria melhor viver o presente? Que tal exaltar o passado, mas sem desqualificar o presente? Por que viver um passado que nunca se teve e esquecer o presente que está passando por nós? Allen mostra ao espectador, de forma carinhosa, as pequenas incoerências do ser humano, que não encontra a felicidade aqui, mas também não encontra lá. É preciso, sugere Allen, para que isso aconteça, dar-se conta de que passado e presente não são, necessariamente, excludentes. O passado nunca vai embora de todo. E no filme isso acontece com a personagem da vendedora de antiguidades com quem Paul finalmente descobre o encanto de caminhar pelas ruas de Paris sob a chuva. Com ela, Gil certamente poderá concluir que todas as épocas são de ouro em Paris.

Saí da sala de cinema com enorme vontade de rever The Moderns, de Alan Rudolph, e de reler Autobiografia de Alice B. Toklas, que curiosamente foi escrita não por Toklas, mas por sua companheira Gertrude Stein. Felizmente tenho os dois. O filme de Rudolph em uma antiga e ainda funcional fita em VHS (não, não me desfiz do antigo videocassete em plena era do blue ray) e o livro em uma edição de bolso lançada pela L&PM Pocket.

O livro Gertrude Stein é um dos mais preciosos documentos sobre os criadores da arte e da literatura moderna. Os elogios não são poucos frente ao cenário grandioso da obra – a Paris do início do século 20 – e à sala de visitas de Gertrude Stein, o lendário número 27 da Rue de Fleurus, onde reunia amigos como Picasso, Matisse, Hemingway, Jean Cocteau e Scott Fitzgerald, todos ainda jovens e desconhecidos, em informais encontros e frequentes festas. Seus convidados podiam também admirar uma das maiores coleções de arte do século passado, que incluía o retrato da anfitriã pintado por Picasso. Aliás, o retrato aparece na sala de Stein no filme de Allen.

Já o filme que Alan Rudolph realizou em 1988 se destaca pelo elenco maravilhoso que inclui Keith Carradine, Linda Fiorentino, Genevieve Bujold, Geraldine Chaplin, Shawn Wallace, Kevin O'Connor e John Lone . A ação do filme se passa justamente na Paris dos anos 20 e conta uma história que tem relevância para o século 21, com sua visão sobre a vida urbana, amoralidade, poder, política, sexo, cobiça, e da arte como mercadoria. Keith Carradine é Nick Hart, um aspirante a artista que falsifica um Matisse, um Cézanne, Modigliani e se envolve com a ex-mulher, vivida por Linda Fiorentino. Hart e seus colegas personagens são retratados como tendo uma conexão de periféricos com círculo interno de Gertrude Stein, um círculo que inclui Ernest Hemingway e tantos outros personagens do filme de Allen.

sábado, 7 de maio de 2011

O Homem de La Mancha


A Versátil, em parceria com a Metro-Goldwyn-Mayer, lança no Brasil em DVD o até hoje inédito O Homem de La Mancha, adaptação cinematográfica do célebre musical da Broadway baseado em Dom Quixote de La Mancha, o clássico de Miguel de Cervantes. O grande Peter O’Toole (de Lawrence da Arábia), como o cavaleiro delirante que combate moinhos de ventos, e Sophia Loren (de Duas Mulheres), no papel da desejada Dulcinéia, têm atuações espetaculares. A cena de O'Toole cantando The Impossible dream é impagável

sexta-feira, 11 de março de 2011

Wagner Moura internacional


O ator Wagner Moura fará sua estreia em Hollywood em um filme de ficção científica dirigido pelo sul-africano Neill Blomkamp, de "Distrito 9". A informação foi divulgada nesta quarta-feira (9), pelo site "The Hollywood Reporter".

Segundo a publicação, o filme terá o título de "Elysium" e terá além do brasileiro, os atores Matt Damon e Jodie Foster. O personagem de Moura é descrito como "vilão poderoso, que tem um senso de humor maluco".

Segundo o site IMDB, especializado em cinema, o longa-metragem deve ser lançado em 2012 e terá locações em Vancouver, no Canadá.

quinta-feira, 10 de março de 2011

No pior estilo hollywoodiano




Retomar o blog depois de tanto tempo poderia ser com um grande filme, como o recentemente premiado com o Oscar de Melhor filme do ano passado, O Discurso do Rei. Que nada, tenho de me contentar com esse Sem Identidade ( Unknown) batizado no circuito comercial nacional como Desconhecido.

Foi o filme de Jaume Collet-Serra e estrelado por Liam Neeson, que assisti no final da tarde de hoje. A primeira impressão que tive no começo da produção é que era um filme decente e interessante, pelo menos em grande parte do tempo. Infelizmente ele acaba se revelando previsível no que poderia ser definido como melhor (ou pior) estilo hollywoodiano.

Na produção Liam Neeson é o doutor Martin Harris. No início do filme ele está chegando em Berlim para uma conferência de biotecnologia, acompanhado da mulher (January Jones). Um esquecimento faz com que ele pegue um taxi de volta ao aeroporto. No caminhoe ele sofre um acidente e acorda quatro dias depois, mais ou menos desmemoriado. De volta ao hotele,ele descobre que sua esposa não o reconhece e que outro homem (Aidan Quinn) assumiu sua identidade. Ignorado por autoridades incrédulas e caçado por assassinos misteriosos, ele se vê sozinho, cansado e sempre em fuga. Auxiliado por uma aliada improvável, a motorista de táxi, Gina (Diane Kruger), Martin mergulha de cabeça em um mistério mortal que vai obrigá-lo a questionar sua sanidade, sua identidade e até onde ele está disposto a ir para descobrir a verdade.

So far so good, como diria os americanos. Até aqui tudo bem. Tudo bem se o espectador tivesse chegado ao cinema ver ser um trailer do filme,que entrega o chamado ¨ouro pro bandido¨ no que se refere a real identidade de Martin Harris. Por que existem dois Martin Harris e por que cargas d'água, ironia das ironias, não é um homem com Amnésia que não reconhece os outros, são os outros que não o reconhecem.

O melhor do filme é a participação de Bruno Ganz (de Asas do Desejo) como o ex-oficial da Stasi ( polícia secreta da Alemanha Oriental) que não se arrepende de suas ações do passado e que acaba desvendando o mistério. Frank Langella também não está dos piores e Liam Neeson, sempre eficiente, parece desconfortável num papel que não exige muito e não rende quase nada.

E as falhas do roteiro!!! Por que o homem que tenta assassinar Harris no hospital simplesmente não o estrangula com um golpe só, da mesma forma que faz com a enfermeira, preferindo amarra-lo em uma maca e aplicar uma dose letal de medicamentos? Não venha dizer que era para paracer acidente? Acidente ao lado de dois corpos visivelmente assassinados? brincadeira né? No final da trama a idiotice do roteiro se repete. Com mortos a torto e a direito pelo caminho, os bandidos tentam matar Harris fazendo com que pareça que ele foi vítima de overdose. Eta falta de imaginação.

E pensar que no começo o espectador tem até a impressão de que vai ver alguma coisa interessante?!