quarta-feira, 12 de junho de 2013

Um grande filme. Só que não




 Baz Luhrman investe tanto no brilho, nas festas e no clima dos chamados "anos loucos'' e esquece as sutilezas literárias de O Grande Gatsby

Não esperava muito da versão do cineasta australiano Baz Luhrman para “O Grande Gatsby”, o romance de F. Scott Fitzgerald que ficou famoso por mostrar como funcionava a vida da “geração perdida”, que dominou em parte a ficção norte-americana entre os anos 20 e 30. Luhrman já tinha exagerado nos maneirismos visuais e narrativos de ”Moulin Rouge - O Amor em Vermelho”. E também porque ele conseguira rasgar a aura sagrada de uma das mais célebres tragédias de William Shakespeare, com sua versão modernosa da história de amor mais conhecida do mundo, em Romeo + Juliet (1996).

Mesmo sem grandes expectativas, assistir a segunda adaptação para o cinema do romance clássico do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald (1896-1940), lançado originalmente em 1925, não é uma experiência das mais fáceis. Principalmente pelo fato de ter assistido a primeira, dirigida por Jack Clayton com o eternamente charmoso Robert Redford no papel-título.

O Gatsby de Luhrman é um grande filme. Só que não. O cineasta investe tanto no brilho, nas festas e no clima dos chamados "anos loucos'', que acaba negligenciando as sutilezas da obra literária em que foi beber. A produção fica há anos luz de distância da forma elegante, ainda que cruel com que Fitzgerald retrata os bastidores da alta sociedade nova-iorquina dos anos 20, na qual pontifica o triunfante e trágico “self made man” Jay Gatsby.

Diferentemente do livro e da conhecida adaptação de 1974 estrelada por Robert Redford e Mia Farrow, a história desta vez é contada em flashback pelo narrador, Nick Carraway (Tobey Maguire). Aspirante a escritor e corretor da bolsa de Nova York, Carraway vai passar o verão de 1922 na opulenta região litorânea de Long Island, onde sua prima, Daisy (Carey Mulligan), vive com o marido milionário, Tom (Joel Edgerton). A casa modesta alugada por Carraway é próxima ao palacete de Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio) figura excêntrica que fez fortuna de forma nebulosa.

 Enquanto a história é contada através do olhar deslumbrado de Nick, e o protagonista não entra em cena, o filme se sustenta, porque, de certa forma, compartilhamos a sua perplexidade, mas na medida em que o foco narrativo se desloca de Nick para se concentrar no amor obsessivo de Gatsby por Daisy, que o desprezou no passado por ser um pobretão, o filme descamba.

Baz Luhrmann banaliza a crise de valores e a crítica que Fitzgerald faz do sonho americano e passa longe de carregar os dramas pessoais de seus protagonistas sempre confrontados diante do estado de coisas do mundo em que vivem. O cineasta troca a força do contundente discurso do escritor por um cinismo que não satiriza criticamente, nem, muito menos, preserva a potência do livro de F. Scott Fitzgerald.

DiCaprio, que estrelou a versão do australiano para o drama de Skakespeare, evolui sensivelmente como ator e, como tal empresta a dignidade que falta ao projeto como um todo.
O ponto alto do filme é a introdução de Gatsby em meio a grande festa em sua mansão ao som de "Rhapsody in Blue", de George Gershwin, a melhor tradução dos loucos anos da década de 1920, a era do jazz. Carey Mulligan é bem mais interessante que Mia Farrow, mas Joel Edgerton fica devendo muito a interpretação de Bruce Dern. Tobey Maguire não decepciona.

Quem decepciona mesmo é o exagerado cineasta que em “O Grande Gatbsy” exagera até mesmo no figurino e na mistura de gêneros musicais na trilha sonora. Só mesmo Luhrman para misturar Beyoncé, will.i.am, Fergie, Lana Del Rey, Florence Welch, Emeli Sandé, The XX com o jazz dos anos 1920 e os irmãos George e Ira Gershwin.  O filme até se dá ao direito de fazer releituras de canções contemporâneas, como “Back to Black”, que ficou famosa na voz de Amy Winehouse. E de melindrosas dançaram na batida de Jay Z e Kanye West. No exagero sonoro, destaque para a música “Young and Beautiful”, da Lana Del Rey, que foi gravada especialmente para o filme e já entrou no topo do ranking da Billboard.

A fotografia - cheia de usos de zoom -, as luzes e a edição são exploradas em ritmo de videoclipe acelerado que não faz nenhum bem à história. Sem contar que as festas regadas a música eletrônica, mais parecem uma grande rave. Quem curte efeitos visuais, vai perder o fôlego em cada cena de “O Grande Gatsby”. A produção não economizou em computação gráfica. Cores explodem por todos os lados. Fogos de artifício, serpentinas, balões, flores, esculturas de jardim… Tudo é intenso, luxuoso e colorido.  F. Scott Fitzgerald merecia mais respeito.

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