terça-feira, 7 de agosto de 2012

Nos bastiores do poder




Luzes, câmera e ação! A indústria do cinema retrata há anos a vida de grandes chefes de estado em suas diferentes obras, tentando ao máximo desvendar os bastidores que cercam o mundo dos poderosos. Em ano eleitoral, nada mais oportuno do que conhecer a trajetória ´política de grandes ( às vezes nem tanto) líderes políticos de todo o mundo. Há cinebiografias imperdíveis, como o recente A Dama de Ferro, sobre a primeira ministra inglesa Margareth Thatcher ou ainda Ganhi, sobre o líder indiano.
A dama de ferro – A vida da primeira ministra inglesa Margareth Thatcher– Filme que deu o Oscar de melhor atriz à Meryl Streep. (realizado no ano passado)

Gandhi – Personagem principal: Mahatma Gandhi.

Danton – O Processo da Revolução, de Andrzej Wajda . Em1791, segundo ano da Revolução Francesa, o líder popular Danton prega o fim do regime de terror que ajudara a instituir.

O Discurso do Rei == Personagem principal: rei George VI, da Inglaterra. Ele sofria de gagueira desde os quatro anos de idade. O problema era considerado sério para um integrante da realeza britânica, que frequentemente precisa fazer discursos.

W. Personagem Principal: George W. Bush. Em W. O diretor Oliver Stone traz a vida do 43º Presidente dos Estados Unidos para as telas de cinema. O filme reproduz aos espectadores a trajetória de George W. Bush.

Frost/Nixon (2008) ==Personagem Principal:- Richard Nixon. O filme retrata a história do ex-presidente dos Estados Unidos Richard Nixon (interpretado por Frank Langella), que permaneceu em silêncio por três anos após renunciar à presidência dos Estados Unidos.Em 1977, Nixon concordou em dar uma entrevista e decidiu responder a perguntas sobre o período em que esteve na Casa Branca, não apenas com o objetivo de esclarecer pontos obscuros sobre o escândalo de Watergate que o levou à renúncia, mas também com o intuito de usá-la para uma possível volta à política.

O Último Rei da Escócia (2006) ==Personagem Principal: Idi Amin. O filme retrata a história do ex-ditador de Uganda, Idi Amin (interpretado por Forest Whitaker), sob a perspectiva e os olhos de Nicholas Garrigan (interpretado por James McAvoy), um jovem escocês que foi médico pessoal do instável líder.

Stalin, de Ivan Passer. A trajetória do ditador russo Joseph Stalin, desde a abdicação do czar, em 1917, até sua morte, em 1953.

Nixon, de Oliver Stone (USA: Buena Vista, 1995), com Anthony.Hopkins, Joan Allen, Powers Boothe, Ed Harris, Bob Hoskins e James Woods. O Filme conta a história do controvertido presidente americano Richard M. Nixon, Da sua vitoriosa campanha eleitoral até o chocante escândalo de Watergate, que selou toda sua maldição.

Ética e política – Entre os filmes que  retratam situações em que as relações entre ética e política frequentemente se colocam em tensão, o que leva os atores políticos a dilemas morais, vale a pena ver.

Jogos do Poder retrata exatamente como os EUA entram numa guerra, gastam bilhões nela, só que quando se mais precisa de dinheiro, eles simplesmente abandonam o país. Há até uma declaração do próprio congressista sobre o assunto ao final do filme. (Com Julia Roberts e Tom Hanks)

Tudo pelo  Poder – O  democrata George Clooney usa a política para falar de moralidade, a linha tênue entre fazer o certo ou o melhor para si mesmo

Segredos do Poder de Mike Nichols John Travolta interpreta um governador bonachão e mulherengo que está envolvido nas primárias do Partido Democrata para as eleições presidenciais. Jovem idealista se junta ao comitê para elegê-lo.

Game Change -- A atriz americana Julianne Moore vive com um impressionante mimetismo a republicana ultraconservadora Sarah Palin no filme para a televisão "Game Change", programado para sábado no canal americano HBO, que mostra como foi a sua campanha à vice-presidência dos Estados Unidos em 2008. ( Está passando esse mês no canal pago HBO)



Todos os Homens do Presidente. Em 1972, sem ter a menor noção da gravidade dos fatos, um repórter (Robert Redford) do Washington Post inicia uma investigação sobre a invasão de cinco homens na sede do Partido Democrata, que dá origem ao escândalo Watergate e que teve como consequência a queda do presidente Richard Nixon.
 Mera Coincidência --Presidente dos Estados Unidos ), a poucos dias antes da eleição, se vê envolvido em um escândalo sexual e, diante deste quadro, não vê muita chance de ser reeleito. Assim, um dos seus assessores entra em contato com um produtor de Hollywood (Dustin Hoffman) para que este "invente" uma guerra na Albânia, na qual o presidente poderia ajudar a terminar, além de desviar a atenção pública para outro fato bem mais apropriado para interesses eleitoreiros.

Nacionais

Entreatos_ Documentário que enfoca os dias finais da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva rumo à Presidência, em 2002. Traz imagens da campanha presidencial, das reuniões de cúpulas, com José Dirceu, José Genuino e Antonio Palocci, além das primeiras imagens de Lula ao saber da vitória.

Os Anos JK - Uma Trajetória Política O filme de Silvio Tendler, aborda a história recente do Brasil: a eleição de JK, o nascimento de Brasília, o polêmico sucessor – Jânio Quadros.

Janio a 24 quadros – Balanço político bem-humorado dos anos 50 aos 80, tendo como grande personagem o ex-presidente Jânio Quadros.

Estilo documentário

-JFK – A pergunta que não quer calar. Três quartos dos americanos - homens e mulheres - continuam duvidando que só um homem tenha sido o responsável pela morte do presidente. "JFK" examina as várias teorias sobre o crime que abalou a estrutura norte-americana.


Comandante (2003)==Personagem Principal:Fidel Castro.Comandante é um documentário político que mostra a entrevista do diretor Oliver Stone com o lider cubano revolucionário Fidel Castro sobre diferentes assuntos.

domingo, 5 de agosto de 2012

O pop anárquico e refinado de Rufus Wainright



Contrariando o que o nome sugere, “Out of the game” mostra que seu criador não está fora do jogo de fazer boas músicas.

No ano passado, quando começaram a surgir as primeiras notícias sobre “Out of The Game”, sétimo álbum de material inédito de Rufus Wainright, o disco do compositor nascido em Nova Iorque e criado no Canadá era anunciado como o álbum mais pop de carreira do artista. A idéia inicial era espelhar o álbum nos trabalhos de Elton John, de quem Wainright nunca escondeu sua admiração. Para tanto Wainwright convocou um time brilhante: Martha Wainwright, irmã de Rufus, que também segue carreira como artista, o guitarrista do “Yeah Yeah Yeahs”, Nick Zinner, Sean Lennon (sim, o filho de John Lennon), Nels Cline, que é guitarrista do “Wilco” e o vocalista Andrew Wyatt da banda sueca “Miike Snow”. As expectativas gerais para “Out of the game”, que foi lançado oficialmente em primeiro de maio passado eram mudanças e revoluções.
Não é isso que nos é entregue em “Out of the game”. O cantor e compositor realmente deu uma levada pop ao disco, mas a melancolia, marca registrada de todas suas produções anteriores, desde a estréia em 1998, continua em destaque. É verdade que o disco espelha-se no Elton John dos anos 70 e que o disco é o mais leve do artista, desde sua estréia em 1998, graças à parceria com Mark Ronson, produtor de discos de Amy Winehouse, Robbie Williams, Lily Allen e Duran Duran, mas família e relações humanas ainda dão o tom das canções de Rufus.

Rufus Wainright se alimenta das melhores influências que a música pop pode oferecer, mas não esquece a essência melancólica do folk


Membro de uma excelente família de músicos e conhecido não apenas por sua ótima produção criativa, como também por suas famosas reinvenções de faixas como Hallelujah, de Leonard Cohen, e Across the Universe, dos Beatles, Rufus Wainwright ganhou destaque nos anos 2000 sem ter que se encaixar em possíveis nichos. Ele já passou pelo som operístico, sem, contudo ser erudito, pelo melhor do estilo gay, passando longe de ser dançante e até mesmo ousando fazer um disco somente com músicas de Judy Garland. Agora adere ao pop, mesclando-o com tons de soul, gospel e até mesmo pelo R& B e faustosos musicais da Broadway.
“Montauk”, uma balada triste, levada pelo som do piano, coloca Rufus versando sobre família e relações humanas. Ele fala especialmente da filha Viva Katherine Wainwright, fruto de seu relacionamento com uma amiga de longa data, Lorca Cohen ( filha de Leonard Cohen). Com ela e o parceiro de longa data, Jorn Weisbrodt, Rufus cria a filha Cohen na cidade canadense que dá nome à canção .

Em “Candle”, ele reafirma que ainda não superou a morte da mãe, ocorrida em 2010.  A balada docemente fúnebre incursiona pelo folk-country, ressalta a tristeza que não sai da voz, letra e olhos do artista. Com sua letra metafórica, ele canta: “But the churches have run out of candles”. Última frase da canção, acompanhada por uma gaita de fole que dá à canção uma discreta e faz-toda-a-diferença pegada escocesa.

Rufus ainda consegue abrir o coração na balada levemente jazzística "A song for you". Aqui ele conta como lidar com as reclamações de seu companheiro, Jorn Weisbrodt, de que nunca havia feito uma canção para ele. "Há muitas letras para escolher/ Mas há uma só para você", devolve ele, numa interpretação ainda mais expressiva por causa do coral gospel que o acompanha ao longo do disco.

O soul "Perfect man", foi composta por Rufus com intenção de fazer um dueto com Neil Tennant, dos Pet Shop Boys, que rejeitou o convite por achar que a música tinha muitos acordes. O disco destaca ainda “Jericho”, que passaria fácil como uma composição de Sir Elton John nos tempos áureos, mas com uma levada gospel, "Barbara" e "Rashida". Todas as canções conjugam inteligentes harmonias, exuberância operística e bom senso pop em embalagem atemporalmente radiofônica. O coral de apoio de “Barbara” merece referência especial.

“Bitter Tears” é  a canção mais pop, mais anos 80, mais “alegre” de todo o alinhamento, e provavelmente de toda a sua discografia. É impossível não viajar ao som dos sintetizadores. A música entra por caminhos mais dançantes, diametralmente opostos aos de “Respectable Dive”, balada em jeito de valsa apoiada na secção vocal. “Sometimes You Need” é calma e um dos mais simples e belos momentos do disco, é só fechar os olhos, deixarmo-nos absorver pelas palavras de Rufus e apreciar sem pressas.



quarta-feira, 20 de junho de 2012

Ridley Scott promete, mas não cumpre


Visualmente espetacular e sem enredo forte, “Prometheus” banaliza os efeitos especiais


Irregular, mas corajoso. Assim pode ser definido “Prometheus”, um dos lançamentos mais aguardados do ano pelos fãs de ficção científica, principalmente pelos fãs do diretor britânico que tiveram a chance de ver na tela grande de “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979) e desde “Blade Runner, o Caçador de Andróides” (1982). A produção não só marca o retorno do Ridley Scott à ficção científica como também o seu reencontro com sua obra-prima “Alien – O Oitavo Passageiro”. E foi anunciado como a obra que tenta explicar a origem da criatura que cresce e se multiplica na produção dirigida por Scott e nas sequências seguintes, cada uma delas assinada por cineasta distinto: James Cameron (“Aliens – O Resgate”), David Fincher (“Alien 3”) e Jean-Pierre Jeunet (“Alien: A Ressurreição”). Assim, quem assistiu aos filmes citados simplesmente não podem deixar de ver Prometheus. Mesmo que ao final da sessão sai do cinema pensando: “É Prometheus, você prometia, mas não cumpriu não”

Até mesmo Scott viu que tinha ido longe demais e no meio da produção do filme, mudou de idéia. O ponto de partida para o novo projeto do filme era revelar quem era uma figura brevemente mostrada em “Alien: O Oitavo Passageiro” o extraterrestre fossilizado (conhecido pelos fãs como Space Jockey) morto pela força misteriosa que posteriormente massacra a tripulação da nave Nostromo. Como “Alien” teve três sequências, o diretor achou mais interessante apresentar o prelúdio da saga. Assim, junto com possíveis respostas, Prometheus lança ainda mais perguntas, que prospectam sobre a origem do homem à luz do debate entre ciência e fé.

Por conta disso,ele acabou realizando um filme que além de irregular e corajoso, o filme também é pretensioso e ambicioso. Em “Prometheus”, Ridley Scott não se limitou ao horror espacial de “Alien”, mas resolveu conjugar o clima angustiante do filme da década de 70 com reflexões filosóficas herdadas de clássicos como “Solaris” (1972) e de “2001 — Uma Odisseia no Espaço” (1968). O resultado, como era de esperar, raramente fica à altura da pretensão de Scott em misturar, ciência, religião e filosofia.

Vale ressaltar, porém, que “Prometheus” não compre o que prometia em termos. De uma forma técnica o filme é impecável. Seus efeitos de som são poderosos, fortes, principalmente nas cenas que retratam a nave que dá título à produção. A trilha sonora está em sintonia fina com a tensão e grandiosidade que pretende provocar. Difícil não se impressionar com as belas sequências, como o prólogo que mostra a criação da vida na Terra ou os minutos em que acompanhamos o dia-a-dia do andróide David. E os cenários e planos aberto mostram com perfeição a pequenez humana diante do universo e da própria natureza humana. A direção de arte cria área que evoca grandeza, como o interior branco e tecnológico da nave, que se choca ao se comprado com o interior estéril e seco da pirâmide alienígena. Nestes quesitos, o filme é impecável.

“Prometheus” se passa no mesmo universo de “Alien, O Oitavo Passageiro”, mas a ação se desenrola três décadas antes, e em um planeta diferente onde existe uma nova geração de alienígenas, capazes de assumir até quatro formas – todas concebidas pelo designer H. R. Giger, responsável pela criatura original. O título Prometheus se refere a uma nave espacial que se desloca em direção a um planeta distante, seguindo uma rota que tem como referência mapas pré-históricos recém-descobertos na Terra. Nessas cartas, há a indicação de um local onde a raça humana teria sido concebida, o que, se comprovado, poderá lançar por terra toda a Teoria Evolucionista de Charles Darwin e pelo menos problematizar a do Criacionismo, defendida por setores mais conservadores do Cristianismo, por exemplo.

Quem lidera a missão de cientistas é a destemida Elizabeth (Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da versão sueca de “O Homem Que Não Amava as Mulheres”). Suas razões transcendem a ciência: ela ansia ver de perto o Criador. Acredita que, nesse planeta, travará contato com seres superiores, que ela chama de engenheiros, responsáveis pela criação da Terra e nossos ancestrais mais remotos. Também estariam na origem dos monstros extraterrestres que cresceram e se multiplicaram na série Alien.

“Não dá para assistir “Prometheus” sem lembrar os filmes da cinessérie, principalmente ”Alien, O Oitavo Passageiro” e “Aliens, o Resgate”. Noomi Rapace é a dublê de Ellen Ripley que vira uma guerreira ao longo da projeção e não dá para imaginar quais são as verdadeiras intenções do andróide David, da mesma forma que o Ash de Ian Holm escondia as suas em “O Oitavo Passageiro”. Alguém se lembra do burocrata que não pensa duas vezes antes de disparar contra um companheiro a fim de garantir a própria segurança… E que tal um afro-americano altruísta que em determinado momento do filme resolve se sacrificar para salvar os amigos?

Uma pena que Ridley Scott tenha perdido o jeito de contar história. E contou a de “Prometheus” de qualquer jeito, sem nenhum cuidado em explicar os fatos com clareza… Os engenheiros nos criaram, bacana… Mas e o composto orgânico? Que evoluiu rapidamente para uma espécie de réptil, que transformou um cidadão numa espécie de zumbi alienígena e se desenvolveu numa humana numa espécie de cefalópode… Deixa pra lá. Não dá mesmo para falar de Prometheus e de suas pretensas falhas sem revelar detalhes (spoilers) do filme. Assim resta dizer que a produção contém furos e lacunas gritantes e novamente, que o visual do filme é muito bom e a parte da ação, toda centrada na Naomi Rompace, tem um bom suspense. O conjunto do filme, no entanto, decepciona. E muito.







Prometheus (EUA, 2012)

Direção: Ridley Scott

Roteiro: Jon Spaihts e Damon Lindelof

Elenco: Noomi Rapace, Logan Marshall-Green, Michael Fassbender, Charlize Theron, Idris Elba e Guy Pearce

Duração: 124 min.




segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A dama de ouro do cinema




Filme: O Artista

Direção: Michel Hazanavicius (O Artista)

Ator Jean Dujardin (O Artista)

Atriz: Meryl Streep (A Dama de Ferro)

Ator coadjuvante: Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)

Atriz coadjuvante: Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)

Roteiro adaptado: Os Descendentes

Roteiro original: Meia-Noite em Paris

Filme em língua estrangeira: A Separação (Irã)

Animação: Rango

Maquiagem :A Dama de Ferro

Edição: Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Trilha sonora O Artista

Direção de arte: A Invenção de Hugo Cabret

Fotografia A Invenção de Hugo Cabret

Figurino : O Artista

Canção original: Os Muppets

Edição de som: A Invenção de Hugo Cabret

Som: A Invenção de Hugo Cabret

Efeitos visuais: A Invenção de Hugo Cabret

Curta-metragem de animação: The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore

Curta-metragem: The Shore

Documentário: Undefeated

Documentário em curta-metragem: Saving Face

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O lado sombrio do ser humano



A mostra “O Amor, a Morte e As Paixões” que prossegue até quinta-feira, 9, nas salas do Cine Lumière não tem somente dois filmes franceses em sua programação. Mas duas produções despertaram minha curiosidade. Afinal não dá para ver todos os filmes em cartaz. A escolha do que ver veio do currículo dos cineastas. A falta de pudor de Bertrand Bonello em “O Pornógrafo” me levou a ver “L’Apollonide — Os Amores da Casa de Tolerância”, assim como a delicadeza de “Lírios D’Água”, em que Céline Sciamma explora o tema da sexualidade em adolescentes, me fez decidir por “Tomboy”. Difícil e imperfeito. Essa poderia ser a definição do filme de Bertrand Bonello. O filme de Céline Sciamma, por sua vez, é discreto, mas cheio de atitude e delicadeza.

Vamos por parte. “L’Apollonide — Os Amores da Casa de Tolerância” narra o dia a dia do decadente bordel L’Apollonide, frequentado por burgueses parisienses no início do século 20. Mas os burgueses estão longe de ser o foco da trama. A Bonello interessa pintar o retrato da árdua batalha cotidiana das prostitutas que vivem naquele casarão. O espectador vê as acompanhantes fazendo seus programas, discutindo entre si as relações com a clientela e procurando distração em ambiente movido a álcool e perversões. E haja perversões.

Afirmar que a Bonello interessa pintar o retrato da árdua batalha das prostitutas se justifica. O que mais chama a atenção do espectador (a partir do cartaz do filme) é a beleza plástica tanto da reconstituição de época quanto dos enquadramentos com os quais o realizador nos apresenta as suas mulheres. Parecem pinturas delicadas em seus tons sóbrios, detalhistas no exame de suas vaidades e inquietações. O olhar de cada garota tem uma tristeza comovente, acentuada por um conformismo daqueles que traz incômodo ao espectador. A fotografia do filme é linda, com um colorido que retrata perfeitamente as particularidades de cada personagem. Os quartos são repletos de tecidos e móveis de época. A reconstrução da casa de tolerância é impecável.

Se existe falha ela fica por conta da forma com que Bonello foca o mundo da prostituição. Parece chover no molhado colocar em cena uma cafetina que abriga as profissionais em troca delas trabalharem e pagarem suas dívidas, que acabam se acumulando devido à necessidade da compra de perfumes, cremes, sabonetes e ópio. As histórias das meninas também não apresentam novidade. Há aquela que sai do interior para tentar a vida na casa de tolerância, a de uma mulher apaixonada por seu cliente, e de uma mulher que carrega uma cicatriz no rosto feita por um cliente. As mulheres parecem bonecas, sempre arrumadas e maquiadas, usadas como brinquedos pelos homens, muitas vezes de forma perversa. Uma das vítimas da perversão masculina é Madeleine (Alice Barnole). Após ser amarrada na cama por um cliente, tem seus lábios cortados por uma navalha e fica com um sorriso que lembra o coringa de Jack Nicholson no filme da franquia “Batman”. Ninguém tem vida própria fora da casa. As garotas não têm permissão para sair e a câmera sempre fica com as garotas, do lado de dentro. Para as mulheres, a casa é uma prisão — um diálogo expõe a saída do casarão como um grande evento. Para os clientes, é o passe livre, a autorização para fazer o que quiser. O espectador nada fica sabendo sobre os homens quando eles deixam a mansão. Bertrand Bonello não julga suas prostitutas nem seus clientes. Não é paternalista nem autor de conto de fadas. Apenas um cronista do mundo das cortesãs.

Há que se destacar ainda a trilha sonora que aparece como um dos componentes mais importantes, senão o mais, para dar aura de modernidade ao filme. Usando uma combinação de estilos, Bonello coloca Mozart e Debussy ao lado de Lee Moses e o blues “She’s a Bad Girl”. A primeira vista parece estranho, mas funciona perfeitamente. Impossível não pensar em uma conexão emocional entre a música soul e a vida das garotas. E a música de Mozart na cena do Salon Bourgeois dá uma ideia de carga profunda, mas sem cair para uma atmosfera de romantismo. E a sequência final, que faz uma ponte com o exercício da profissão no presente, garante atualidade ao longa à medida que a regulamentação da prostituição é uma das questões da hora na França.

Uma curiosidade: existe luz elétrica no salão de L'Apollonide, mas nos quartos a iluminação é de velas. É, em parte, um recurso estético que define o visual do filme.

Um pequeno grande filme
"Tomboy”", a sexualidade na medida da delicadeza de Céline Sciamma




No ano passado a diretora e roteirista francesa Céline Sciamma saiu do Festival de Berlim com o prêmio Teddy, destinado às produções de temática homossexual pelo filme “Tomboy”. O fato poderia ter confinado o filme ao gueto das produções GLS, que ainda sofrem preconceito. Felizmente não é o que vem ocorrendo. Em todo o mundo, e não apenas na Alemanha ou na França, “Tomboy” vem seduzindo público e críticos.

A própria Céline afirma que, embora o tema da identidade sexual lhe seja caro, ela nunca viu o prêmio da Berlinale como uma coisa restritiva, e nem poderia. “Pedro Almodóvar recebeu este prêmio no começo da carreira. Se eu tiver 10% do respeito que ele usufrui hoje em dia, junto ao público e aos críticos, já estarei feliz.”

Com abordagem original e atuação sensacional da pequena protagonista Zoé Héran, Céline Sciamma supera os clichês usados em seu filme “Lírios d’Água”, de 2007, para contar a história de Laura, uma menina moleque (tradução literal do título do filme) de 10 anos que se muda com os pais (Mathieu Demy e Sophie Cattani) e a irmã caçula (Malonn Lévana, adorável) para um subúrbio de Paris. É verão, Laura só veste bermudão e regata. De cabelos curtinhos, acaba confundida pela vizinha Lisa (Jeanne Disson) com um menino. Apresenta-se, então, como Mickäel e, a partir daí, decide assumir a farsa para os demais amiguinhos. O mais interessante de “Tomboy” é a forma com que a cineasta testa o espectador ao introduzir a temática da sexualidade. A discrição e o cuidado são invejáveis. O roteiro constrói a personalidade de sua protagonista como uma pessoa já consciente de sua condição “diferenciada”, mas que jamais busca mudar ou moldar-se à estética padrão. A sociedade em que a história se insere garante a simplicidade da produção. A família de Laura a aceita como ela é. A deixa se vestir como deseja. E não a julga. A relação com os pais é carinhosa. Laura é uma criança que ainda gosta do colo do pai e da mãe e divide com a irmã menor as brincadeiras pertinentes a idade da caçula. É com a irmã - cúmplice que ela compartilha os momentos mais divertidos, em uma relação bonita e de grande química entre as talentosas Zoé Héran e Mallon Lévanna.

“Tomboy” é um longa ousado de temática importante, mas que aborda sem exageros ou dramatizações melodramáticas situações corriqueiras em filmes sobre o assunto, as quais não resistem à delicadeza da cineasta, que fala como poucos sobre sexualidade. A cena mais delicada é a que desvenda o sexo do “garoto”. Laura e a irmãzinha estão no banho. Tudo é feito com uma delicadeza e naturalidade surpreendentes. Nada é gratuito.

A força do filme está na primorosa interpretação de Zoé Héran. Ela é sensacional. Céline sabia que, se não encontrasse a intérprete certa, seria melhor desistir do projeto. Ela não queria transformar a personagem numa caricatura nem numa aberração. Zoé superou sua expectativa.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A força social do cinema iraniano









“A Separação”, de Asghar Farhadi, e ”Isto Não é Um Filme”, de Mojtaba Mirtahmasb e Jafar Panahi, são destaques na mostra “O Amor, a Morte e as Paixões”


Qual o papel do cinema na atual sociedade iraniana? Como é possível o florescimento da arte cinematográfica num país islâmico com um governo altamente repressor comandado pelo ditador Mah­moud Ahmadinejad? Respos­tas para estas perguntas podem ser encontradas em “A Separação”, de Asghar Farhadi, “Isto Não é Um Filme”, de Mo­jtaba Mirtahmasb e Jafar Panahi, representantes do cinema iraniano na mostra “O Amor, a Morte e as Paixões”, em cartaz no Cine Lumière Bou­gainville até o dia 9 de fevereiro.

Os filmes em questão são prova da efervescência política e cultural em andamento no Irã desde o fim da Guerra Irã-Iraque e a transição de governos. A sociedade iraniana, amordaçada por tantos anos, quer mostrar que seu país não pode ser reduzido a notícias de estereótipos divulgados pelas grandes redes de comunicação, tampouco moldada àquela imagem veiculada na propaganda política.

O universo iraniano é muito mais complexo e rico e o cinema, mais do que um produto cultural, é uma prática social, valioso tanto por si mesmo quanto pelo que pode revelar dos sistemas e processos culturais do país. Não se pode esquecer que artistas e intelectuais iranianos estão constantemente sob censura. Opositores são perseguidos e mortos e jornais reformistas são fechados. Todo o sistema de comunicação é controlado pelo governo e até mesmo a censura aos meios de comunicação é garantida pela constituição. O cinema torna-se assim uma importante ferramenta de expressão dos iranianos fora do país.

“A Separação”, de Asghar Farhadi, é o mais badalado da mostra “O Amor, a Morte e as Paixões”. O filme saiu do Festival de Berlim 2011 com o Urso de Ouro e o Urso de Prata para os quatro protagonistas (Leila Ha­tami, Sareh Bayat, Peyman Moadi e Shahab Hosseini). No início do ano recebeu o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Na terça-feira, 25, foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e ao Oscar melhor roteiro original, além de ter sido a produção internacional preferida das associações de críticos de Nova York, Toronto e Chicago.

Todos os prêmios são justificáveis. Asghar Farhadi usa o tema do divórcio e as regras do rígido mundo islâmico como detonadores de tramas que possuem apelos irresistivelmente fascinantes e universais. Farhadi, que tem 39 anos e que já conhecemos por seu filme “Procurando Elly”, de 2009, (ganhador do Urso de Prata na categoria melhor diretor em Berlim), foi criticado pelas autoridades de seu país por mostrar o que acharam que eram as misérias do povo iraniano e não seus feitos notáveis. O diretor Farhadi, ao receber o Globo de Ouro, disse lacônico: “Meu povo é um povo que ama a paz”. Mas, fiel aos costumes muçulmanos, não apertou a mão de Madona que lhe entregou o prêmio.

Na primeira cena de “A Se­paração”, Simim (Leila Hatami) quer sair do Irã e, com isso, deixar para trás o ranço de uma sociedade que limita as liberdades da mulher. Nader (Peyman Moadi) até cogita a possibilidade de se mudar com a mulher e a filha para o exterior, mas não naquele momento. Ele tem de ficar no país para cuidar do pai que sofre de Alzheimer. Num gesto desesperado, ela pede a separação: quem sabe a ausência não faça o marido mudar de ideia? Eles estão diante do juiz e ela precisa que o marido autorize a viagem da filha. O divórcio se faz necessário porque no Irã uma mulher só pode viajar sozinha se for solteira. O marido aceita o divórcio, mas se recusa a permitir que filha viaje.

Na sequência seguinte, Simin faz as malas e volta a morar com sua família e Nader contrata Razieh (Sareh Bayat) para cuidar do velho doente. Sem nenhuma experiência como enfermeira, Razieh, que é uma muçulmana muito devota, tenta ajudar o marido desempregado (Shahab Hos­seini) nas despesas, mas não conta para ele que está trabalhando na casa de um homem recém-separado para cuidar de outro homem, mesmo que este seja um velho doente. Ultra devota, Razieh entra em conflito com suas tarefas cotidianas, que incluem trocar e banhar o patrão idoso. Outros problemas familiares afloram, como a necessidade de levar a filha para o serviço. Um descuido dela vai desencadear uma série de segredos, mentiras e mal-entendidos, que culminam em calorosas discussões na justiça. Assim, boa parte do filme se desenvolve em uma salinha improvisada dentro do fórum onde funciona um tribunal.

É aí que a trama se torna mais interessante. A estratégia de armação narrativa pela qual “A Se­paração” opera é uma fábula cinematográfica típica: há um acontecimento repentino e de causa indiscernível que fomentará e contraporá uma quantidade infinda de pontos-de-vista, versões e opiniões sobre não somente o possível culpado, mas todos os envolvidos. As histórias de Razieh e Nader esbarram num sistema judicial que evidencia a existência de um Estado autoritário, teocrático e machista, num contexto em que o poder de decisão dos personagens parece a cada momento escapar-lhe das mãos. Ao contarem as suas versões dos fatos que os levaram ao tribunal, os envolvidos lembram os personagens de “Rashomon”, filme do japonês Akira Kurosawa que ganhou o Leão de Ouro em 1951. Nele as impressões sobre um crime variavam ao sabor dos relatos de cada um dos implicados, inclusive com a versão do fantasma da vítima. A mesma volatilidade sobre a verdade emerge no drama iraniano. Aqui os conflitos se amontoam e embaralham cada vez mais, a partir do acontecimento que leva ao tribunal e sobre o qual ninguém parece ter certeza. Porém, nenhum deles está disposto a descer de sua altivez, baixar seu orgulho e deixar de lado o conflito cuja razão-de-ser passa a importar menos do que como resolver o impasse.

No ringue jurídico, cada round resulta em uma discussão meticulosa sobre a elaboração da verdade. E ao espectador cabe acompanhar as oscilações das próprias emoções ao sabor do que cada um sabe e diz. E “A Separação” em si se transforma em uma trama metafórica que retrata uma microssituação que remete ao universo macro dos conflitos da cultura islâmica e mais precisamente do Irã, onde obstinação e o orgulho, travestidos de honra cultural ou religiosidade, estão acima de tudo, e onde a resolução pacífica parece um tanto quanto distante. O emaranhado de problemas só crescerá exponencialmente a cada tentativa de solucioná-lo. Vale destacar como o diretor encaminha a história e cria diversas tramas e subtramas a partir de um detalhe que parece absolutamente simples para nós, ocidentais: uma separação. O filme que começa de cara com a questão da separação, vai além do entendimento afetivo do casal, e de repente se amplia. Logo se converte num painel que parte do privado para o público, sem, no entanto perder o foco da separação. Tudo que acontece tem como ponto de partida as dificuldades de entendimento que leva a decisão de um divórcio. As questões subjacentes dão densidade a tudo que se vê em uma separação: e a verdade? E a ética? E a mentira? E a fidelidade? E o pecado? E a abnegação? Os testemunhos e os falsos testemunhos? O papel dos vizinhos? E não é a falta de diálogo que leva à separação?

A opção por filmar a maior parte da produção com uma câmara na mão é um trunfo do cinema de Asghar Farhadi. A câmara trêmula adquire uma única conotação, um único sentido e função — que se tornaram um tanto quanto predominantes no cinema contemporâneo: aproximar-se do drama de personagens condenados, para melhor enxergarmos suas dores e suas lágrimas. Numa discussão fervorosa entre dois personagens, o diretor prefere dar ênfase ao rosto de um terceiro que lhes observa, passivo e açoitado. Este rosto pede que a briga cesse, que o orgulho cesse. É assim que Asghar Farhadi ajuda o público ocidental a lidar com a diferença de valores islâmicos, uma cultura em que para o homem é mais importante que sua mulher não tenha contato com outro homem do que ser agredida.

Se tivesse focado seu filme na questão pura e simples da separação de um casal esclarecido e bem formado na sociedade iraniana de hoje, cerceada e censurada pelo autoritário Mahmoud Ahma­dinejad, Asghar Farhadi já teria feito um filme e tanto. Mas o cineasta extrapola as diferenças culturais, sociais e econômicas e expõe a alma humana na sua fragilidade mais íntima de forma intensa e perturbadora. Im­pos­sível não se emocionar na se­quência final em que o diretor recoloca o espectador diante do mesmo problema do plano inicial: “um casal se separou — com quem fica a filha”? Espan­to­samente perfeito, com o diretor dividindo esteticamente num plano, duas posições, dois afetos, duas difíceis escolhas.

Isto é um grande filme de guerrilha



“Isto Não é Um Filme” retrata o cotidiano solitário e claustrofóbico do diretor de "O Balão Branco”, "O Círculo" e "Ouro Carmim"

No Festival de Cannes deste ano, quando a atriz Juliette Binoche dava entrevista coletiva para falar do filme “Cópia Fiel”, do diretor iraniano Abbas Kiarostami, ela caiu em prantos. Emocionou-se ao fazer um apelo internacional pela libertação dos cineastas iranianos perseguidos, mais especificamente por Jafar Panahi. Preso em dezembro de 2010 sob acusação de estar envolvido em atividades que atentam contra a segurança nacional e de fazer propaganda contra a Revolução Islâmica, mobilizou em sua defesa diversas comunidades ocidentais, incluindo os festivais de Cannes, Berlim, Locarno, Rot­terdam e Kar­lovy Vary; associações internacionais de cinema e até ci­neastas de Holywood, como Martin Scorsese, Steven Spiel­berg e Francis Ford Cop­pola. Ainda assim, foi libertado somente depois de uma semana de greve de fome e o pagamento de fi­ança, passando a cumprir prisão domiciliar enquanto aguardava uma apelação do recurso à sua sentença.

Festejado ou premiado nos principais festivais internacionais, Jafar Panahi, o realizador de “O Balão Branco”, “O Círculo” e “Ouro Carmim”, não cumpriu a pena imposta pelo governo de Mahmoud Ahmadinejad. Assim, entre a proibição do governo e a vontade do diretor de expressar suas opiniões, ele resolveu fazer esse não filme batizado de “Isto Não é Um Filme”, espécie de interpretação corajosa de seu veredito: mesmo se o diretor não pode filmar nem escrever roteiros, nada o impede de ser filmado por um amigo, e de ler o seu próprio roteiro já escrito.

O ponto de partida da realização é explicado pelo cineasta ao contar uma piada em “Isto Não é Um Filme”. “O que fazem as cabeleireiras quando não trabalham? Cortam os cabelos umas das outras”, diz o cineasta. Assim, o que faz um cineasta quando é proibido de filmar? Filma outro cineasta. Assim “Isto Não é Um Filme” foi realizado com a cumplicidade indispensável de um colega e compatriota, o codiretor Mojtaba Mirtahmasb, também preso e acusado de “espionagem” no Irã.

Assim “Isto Não é Um Filme” é assinado pelo amigo e colega de profissão de Panahi, Mojtaba Mirtahmasb. O nome do filme remete ao famoso quadro “Isto Não é um Cachimbo”, em que o pintor surrealista belga René Magritte expõe a imagem de um cachimbo ao mesmo tempo em que insere um texto sob o objeto afirmando não se tratar de um cachimbo. Assim como Magritte, que provoca o observador indicando que a obra não contém o objeto em si e somente uma representação do objeto, a obra de Panahi foi concebida para representar um filme que não existe, já que, calado pela censura, não pôde de fato fazê-lo.

O documentário foi enviado ao Festival de Cannes gravado em um pen drive, dentro de um bolo, onde foi exibido pela primeira vez. Depois disso, foi mostrado em importantes festivais do mundo, dando força ao protesto internacional contra esse tipo de repressão. Quando o filme foi exibido em Cannes, Panahi se encontrava em prisão domiciliar, aguardando novo apelo às autoridades iranianas.






No filme vemos um dia na vida do cineasta, ao telefone, encenando as filmagens de um novo trabalho. É tocante sua aflição. Se não pode sair de casa, recebe visitas. Parece uma vida confortável, mas não é. Uma câmera de vídeo digital flagra-o tomando café da manhã, conversando com a advogada, alimentando sua iguana de estimação, revendo suas obras. Com uma fita crepe, ele delimita os espaços do cenário num tapete e narra sua próxima história: a da moça prestes a entrar na faculdade que fica trancafiada em casa pelos pais fundamentalistas. Para dar uma ideia da imagem e dos planos que gostaria de fazer, Panahi mostra referências de outros filmes, em DVD, mas de vez em quando ele não consegue continuar sua encenação, se levanta e vai chorar fora do alcance da câmera. “Isto Não é Um Filme” é memorável não apenas por seu engajamento político (o “fazer arte a qualquer preço”), mas acima de tudo pela exposição sem concessões que Panahi faz de sua intimidade, de sua tristeza, de sua vontade frustrada de trabalhar com o que gosta. O projeto é um reflexo da frustração deste homem, que passa seus dias pensando em como filmar, e que decide se aventurar nesta espécie de terapia rudimentar, destinada a apaziguar seus desejos de cinema. Próximo ao desfecho, um rapaz aparece para pegar o lixo e, numa conversa de elevador, esse estudante de arte revela seus dissabores com o regime de Ahmadinejad. Mero acaso ou uma encenação planejada? Pouco importa.

O que o filme não narra são os fatos ocorridos após a produção de “Isto Não é Um Filme”. A despeito de todos os protestos internacionais, Jafar Panahi foi condenado publicamente a seis anos de prisão e 20 anos sem filmar, escrever roteiros, dar entrevistas ou sair do país. As notícias sobre o diretor de cinema cessaram desde então. Enquanto Jafar Panahi está preso, outros diretores também sofrem com a ditadura islâmica, como Mohsen Makhmalbaf (de “A Caminho de Kandahar”), que vive no exílio com a família e o próprio Mojtaba Mirtahmasb (codiretor deste documentário), que teve seu passaporte confiscado e impedido de divulgar “Isto Não é Um Filme” no exterior.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O tesouro musical de Amy Winehouse






Qualidade de “Lioness: Hidden Treasures” supera oportunismo dos produtores do disco póstumo da cantora britânica, lançado na segunda-feira, 5

Um disco póstumo lançado menos de seis meses após a prematura morte de Amy Winehouse e bem no período natalino? Dá para desconfiar da jogada pra lá de comercial. É realmente difícil não conceber o lançamento de “Lioness: Hidden Tre­asures” como um caça-níquel oportunista que aproveita a conveniência do Natal para pegar o boom das vendas de final de ano.

A desculpa dos produtores Salaam Remi e Mark Ronsons, encarregados de recompilar o material desse novo álbum, é que Amy deixou “uma coleção de temas que mereciam ser escutados” e que era um “verdadeiro legado” da cantora. O disco reúne gravações que Amy realizou antes, durante e após os lançamentos de seus dois únicos discos, “Frank” e “Back to Black”.

Independentemente da suposta ganância dos que lançaram o álbum, não dá para menosprezar a capacidade dos produtores envolvidos nesse projeto, simplesmente pelo fato dele ser muito bom. Embora tenha sido lançado em uma época duvidosa, é possível perceber que as intenções ali foram mais que financeiras. Também é compreensível essa “urgência”, já que não se tinha um novo álbum de Amy Winehouse há anos. E mesmo não trazendo Amy em seu auge, a coletânea tem momentos interessantes e contribui ao legado da inglesa, consolidado e que deve ser relembrado sempre.

Não que “Lioness: Hidden Treasures” seja um disco de inéditas. A maioria das faixas já é conhecida do público em versões demo ou gravações avulsas. Bom mesmo é saber que quando gravou as canções — grande parte delas — Amy ainda não tinha prejudicado sua voz com o excesso de bebida e drogas e por isso mesmo o disco destaca a segurança vocal da artista.

É comovente a serenidade que Amy Winehouse emprega, por exemplo, aos versos da versão reggae que faz de “Our Day Will Come”, clássico de Ruby and The Romantics que também fez sucesso na voz melodiosa de Karen Carpenter, do duo Carpenters. O registro que se ouve em “Lioness: Hidden Treasures” é de 2002 e nele Amy disserta com segurança sobre como — ironicamente — tempos melhores estariam por vir.

Outra canção que também fez sucesso na voz dos Carpenters é “A Song For You”, música de Leon Russell gravada pela primeira vez por Donny Hathaway. A voz está completamente diferente da música que abre o disco e isso se justifica pelo fato de Amy tê-la gravado quando estava sob o efeito das drogas em 2009, em um take, com Amy ao violão. Mas a voz ainda soa poderosa.

A dedicação e entrega da artista a homens de caráter duvidoso, presença constante em suas canções está em “Between The Cheats”. Sedutora, Amy canta que o rapaz, depois de muito tempo, “ainda a faz enrubescer”, e o coro masculino no refrão reforça a sensação de que ela parece voar em devaneios apaixonados. Amy registrou a canção em maio de 2008, para seu terceiro álbum, jamais lançado.

Para os brasileiros “Lioness: Hidden Treasures” traz um presente especial: ‘Garota de Ipanema”, maior sucesso comercial da dupla de compositores Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Referência inevitável de música brasileira para artistas estrangeiros, foi a primeira que Amy cantou aos 18 anos quando foi a Miami pela primeira vez para gravar com o produtor Salaam Remi em 2002. A cantora britânica abusa do scat singing — técnica de canto que consiste em se cantar vocalizando tanto sem palavras, quanto com palavras sem sentido e sílabas — no melhor estilo “badabauê”—, e o acompanhamento é sutil, de bateria e violão. Ao fundo, um arranjo de violinos. Mas quem desejava ver Amy cantando em português vai se desapontar. Ela interpreta a versão em inglês, “The Girl From Ipanema”, de Norman Gimbel.

“Will You Still Love Me Tomorrow” e “Valerie” representam as releituras mais conhecidas. Coverizando Carole King, Amy mostra que a letra de “Will You Still Love Me Tomorrow”, embora não seja sua, sempre ganha vida de forma autêntica em sua voz. A música foi gravada para a trilha sonora de “Bridget Jones 2 — A Idade da Razão”. A dúvida sobre o amor que lhe é dispensado traz uma certa ingenuidade: “Isso é um tesouro duradouro/Ou apenas um momento de pra­zer?/Posso acreditar na mágica de seus suspiros?/Você ainda vai me amar amanhã?”, cantou em 2004.

Um dos grandes serviços de Amy Winehouse à música foi alavancar as alturas “Valerie”, canção do grupo The Zuttons, de Liverpool. No CD ela é apresentada em uma versão mais lenta, registrada em dezembro de 2006. Amy gravou essa música de várias formas, mas é impossível achar um registro dessa canção, na voz de Winehouse, que seja apenas razoável. Amy tornou o cover mais interessante do que o original.

“Tears Dry” e “Wake Up Alone” pertencem à categoria de faixas demos. A primeira, uma versão menos “poderosa” de “Tears Dry On Their Own”, surge muito mais lenta, mas não menos honesta que a canção incluída depois no CD “Back to Black”. A gravação é de 2005. Já a segunda teve sua gravação como demo da primeira canção registrada especialmente para “Back to Black”, em março de 2006. Ela soa mais limpa e básica e funciona muito bem, ao transmitir a real angústia de sua criadora.

“Like Smoke”, um dos duetos do disco é a mais fraca da coletânea. Gravada em colaboração com o rapper Nas, em maio de 2008, parece narrar um embate fadado ao fracasso. O outro dueto, “Body and Soul”, que Amy gravou com o cantor americano Tony Bennett para o álbum “Duets II”, lançado em setembro, foi a última gravação oficial da cantora, feita em março de 2011. Um grande encontro de artistas.

“Best friends” é a música com a qual Amy abria os shows do álbum “Frank”, registro de fevereiro de 2003. O ritmo alegre esconde uma mensagem oposta: o descaso com o parceiro não é disfarçado e Amy desdenha, debocha, dizendo que no fim, eles “ainda são melhores amigos, certo?”.

Um dos grandes méritos de Amy Winehouse era conseguir transmitir o que sentia em absolutamente tudo o que cantava, estivesse em seu auge ou nos seus dias menos esperançosos. Esse álbum é a confirmação disso e, portanto, a confirmação de seu talento.