terça-feira, 11 de setembro de 2012

A vida pode ser leve, apesar de tudo


Baseado em fatos reais “Intocáveis” é, muito bem costurado, tem atuações de primeira e um notável equilíbrio entre emoção e humor


"Intocáveis" (Intouchables), de Olivier Nakache e Éric Toledano foi o fenômeno absoluto de bilheteria na França em 2011, um dos filmes mais vistos na história do cinema francês, levando às salas de exibição mais de 20 milhões de pessoas. Garantia se sucesso no resto do mundo? Não necessariamente.  Fenômenos comerciais, como “A Riviera Não É Aqui” (2008) e “Os Visitantes” (1993), passaram quase batidos em outros países. Os americanos, por exemplo, preferiram assistir ao horrível remake hollywoodiano de “Os Visitantes” do que ver o original.

Com “Intocáveis”, a história é outra. Talvez por conta do gênero cinematográfico. Comédias francesas sempre foram melhores do que filmes de ação. “Intocáveis” é uma comédia? A julgar apenas pela sinopse do filme a resposta é não. Afinal, no centro da história – baseada em fatos reais – está um tetraplégico. Vitimado por um acidente com parapente, ele se vê obrigado a contratar um cuidador, que vem a ser um vigarista de primeira. Digamos então que o filme está mais para uma tragicomédia do que comédia. A verdade é que “Intocáveis” apresenta uma versão otimista sobre as limitações e desafios vividos pelos dois personagens principais e é, ao mesmo tempo, humanista, tocante e muito engraçado. Tudo bem que a produção tenha uma vocação para o politicamente incorreto, mas tem o mérito de ser conduzida num tom surpreendentemente justo.

Não conheço ninguém que tenha assistido ao filme e feito um comentário negativo sobre o mesmo. Elogios não faltam e foi essa propaganda boca-a-boca que levou a produção a se transformar em campeã de bilheteria. Todos se encantam com a história de Philippe (François Cluzet, excelente). Ele é o aristocrata parisiense que fica tetraplégico depois de um acidente. Sua condição exige que ele tenha um cuidador quase em tempo integral, mas, por conta de seu temperamento explosivo, os contratados duram muito pouco tempo na posição. Até que entra em cena Driss (Omar Sy, vencedor do César de melhor ator por seu desempenho), um jovem de origem senegalesa que vive na periferia da capital francesa. Driss, na realidade quer apenas um atestado para solicitar auxílio desemprego do governo. O jovem é recém-saído da prisão, e tem uma conduta no mínimo suspeita. Mesmo assim, Philippe o contrata e os dois passam a desenvolver um vínculo forte, marcado pela soma de valores e descobertas valiosas mediante conflitos de dois mundos distintos.

Logo na primeira cena os espectadores são levados à adrenalina com a dupla. Driss está dirigindo um automóvel de luxo velozmente e no banco ao lado está Philippe. Os amigos são perseguidos pela polícia e nesta cena percebe-se a profundidade da amizade entre os dois. A cena apenas é um quadro introdutório que será explicado à medida do desenrolar da história.

A falta de experiência de Driss no trato de pessoas com deficiência é compensada pela alegria de viver, a espontaneidade e a rebeldia do cuidador. Assim ele faz com que seu patrão saia da posição de vítima e repense sua vida. O encontro também acaba mexendo com os valores de Driss, que passa a prestar mais atenção a sua família e a assumir responsabilidades antes desimportantes para ele.

O que mais chama a atenção no filme é a ênfase dada a superação das fraquezas de cada um através da amizade. No gênero de drama, o filme poderia enfatizar o sofrimento de um homem condenado à cadeira de rodas e de um pobre sem teto. Ao invés disso, Philippe proporciona um lar, trabalho, família e condições para uma vida mais digna a Driss, enquanto este auxilia com bom humor no resgate de sonhos e da autoconfiança que o Philippe perdeu após seu acidente.

As cenas cheias de humor e diversão servem para abordar o lado humano dos dois protagonistas. Philippe escreva cartas de amor platônicas para uma correspondente e é encorajado por Driss a ligar e tornar seu amor real. Driss leva o milionário para passear ao redor da orla da cidade de madrugada, um gesto altruísta para com alguém que tem seus movimentos e dias limitados a quatro paredes de sua mansão. Esses e outros fatos emocionam e dão uma lição de como pequenas atitudes e trocas sinceras de experiências podem fortalecer e desenvolver grandes amizades.

O filme tem ainda o mérito de funcionar como uma excelentre crônica parisiense. Um retrato da França contemporânea, multicultural e em processo de transformação por conta da forte presença de imigrantes no país. Tudo bem que os personagens do filme não saiam da esfera da caricatura, que a empatia entre os dois extremos que o filme desperta não resista a um choque de realidade. E que ele desfile as melhores caricaturas de anedotas e personagens que a gente vê e escuta todos os dias. Quando a piada é boa, é possível rir toda vez que é contada. O fato, na verdade não diminui a força do filme que está mais para a diversão do que para análises sociológicas. E como diversão, funciona bem à beça.

 

 

 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Produtora executiva de "Dexter", Sara Colleton disse em entrevista ao site TV Guide, que a oitava temporada da série deve ser a última. A sétima temporada da trama protagonizada por Michael C. Hall começa  no dia 30 de setembro nos Estados Unidos.
"Queríamos que a série terminasse neste ano, mas o Showtime nos convenceu de que seria melhor fazermos isso em dois anos. De uma certa forma, este é um final em duas temporadas. Estamos trabalhando nisso, e já sabemos como vai terminar. O próximo ano, definitivamente, será o último de 'Dexter'", disse Colleton.

Vontade de rever

E O vento levou

Alien, o Oitavo Passageiro
Avatar




segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Bob Dylan em primeira audição


Tempest, que tem lançamento marcado para o dia 11 é o 35º disco de Bob Dylan e a obra com a qual ele celebra 50 anos de música

Sempre acreditei que Bob Dylan deveria ser indicado para receber o Prêmio Nobel de Literatura. E sempre fui alvo de curtição de amigos, que alegavam que eu era (sou) mais do que fã de Dylan, uma verdadeira groupie (fanática). Em 2008, quando Dylan recebeu o Prêmio Pulitzer especial por "seu profundo impacto na música popular e na cultura americana através de canções de extraordinário poder lírico e poético", me senti vingada das brincadeiras dos amigos. Lavei a alma. Para completar, esse ano, a importância cultural da obra de Bob Dylan foi reconhecida pelo governo americano. Ele recebeu a "Medalha da Liberdade", maior honraria do país concedida a um civil.

Na semana passada, último dia de agosto, integrei a lista da legião de fãs que entraram no site www.listentobobdylan.com e encontraram um mapa com lugares estratégicos nos EUA e em outros nove países (Austrália, Bélgica, Canadá, França, Alemanha, Holanda, Suécia, Reino Unido e Brasil) para ouvir uma seleção de canções de "Tempest", o 35º álbum de estúdio de Bob Dylan que tem lançamento oficial marcado para 11 de setembro nos Estados Unidos.  A seleção podia ser ouvida em streaming por meio de dispositivos móveis. Não resisti e comprei o disco antecipadamente no iTunes.

O disco serve para reforçar minha admiração por esse senhor de 71 anos que não dá nenhum sinal de pensar em aposentadoria. A lenda do folk americano não somente lança o disco de inéditas, o primeiro desde "Together Through Life", de 2009, como anunciou 32 shows em grandes arenas, entre outubro e novembro, com a participação especial do ex-Dire Straits Mark Knopfler. Vale lembrar que Dylan e Knopfler já trabalharam juntos em dois discos de Dylan, “Slow train coming”, de 1979, e “Infidels”, de 1983. 

Voltando a “Tempest”. O disco foi produzido por Jack Frost, um dos muitos pseudônimos usados por Robert Allen Zimmerman. Dylan usa o nome como produtor de seus próprios álbuns desde "Love and theft", de 2001. Coincidentemente também lançado no dia 11 de setembro. E Antes mesmo de ouvir as músicas em streaming no site listentobobdylan.com, já conhecia algumas canções do disco.  No começo de agosto a Columbia Records tinha liberado “Early Roman Kings”, para trilha sonora do comercial da segunda temporada da série americana “Strike back” da HBO (no Brasil, a série faz parte da programação do canal Maxprime, do grupo HBO). A música tem o tom irônico de algumas canções de Dylan e uma abordagem pra lá de bluseira.

A nova temporada do seriado estreou no dia 17 de agosto nos Estados Unidos, e nesta mesma noite o canal a cabo trouxe ao mundo um trecho de “Scarlet Town”, segunda canção revelada de “Tempest”. “Scarlet Town” lembra vagamente o clima sombrio de “Nettie Moore”, de Modern Times e canções de Leonard Cohen.

É interessante lembrar que a parceria de Dylan com séries e filmes é cada vez mais recorrente. Em 2005, Dylan gravou “Tell’ O’ Bill” para o filme “Terra Fria”, de Charlize Theron. Dois anos depois, lançou “Lucky You” para a trilha sonora de “Bem Vindo ao Jogo”, estrelado por Drew Barrymore. Em 2003, a música “Cross the Green Mountain” apareceu na trilha sonora do filme de guerra “Deuses e Generais”.

Outra amostra grátis de “Tempest” foi apresentada em forma de videoclipe e chama-se "Duquesne Whistle", A canção é um Folk-blues nostálgico que ganhou uma versão cinematográfica violenta, no melhor estilo “Cães de Aluguel”, de Quentin Tarantino. No clip um rapaz com ares de stalker, tenta flertar com uma moça que ele sempre espera sair do escritório. E paga o preço desta ousadia - além do desprezo da garota.

Duquesne Whistle", ou "o apito do Duquesne", remete ao nome de um trem de passageiros da Pensilvânia (a canção tem de fato um balanço ferroviário), e a referência à localidade Carbondale (Illinois) molda uma trajetória pela memória do Meio Oeste americano. A canção foi escrita em parceria com Robert Hunter, um conhecido letrista de "bluegrass" e ex-integrante da banda Grateful Dead. Hunter também participou do álbum “Down in the Groove” (1988) e “Together Through Life” (2009). E o videoclipe foi dirigido por Nash Edgerton (que dirigiu antes "Beyond Here Lies Nothin?", também de Dylan). A guitarra que faz contraponto à voz cada vez mais enfumaçada de Dylan é a de Mark Knopfler.

No site criado pela Columbia Records foi possível ouvir as 10 músicas do disco que totalizam pouco mais de 70 minutos de canções. O álbum parece temático e fala basicamente de amor e morte. Além da comentada "Duquesne Whistle", a faixa-título é uma representação de quase 14 minutos do desastre do Titanic, com direito a citar Leonardo Di Capprio, que protagonizou a versão de James Cameron para o desastre naval. Esta não é a primeira vez que o cantor faz referência a uma estrela em suas letras. Em "I shall be free", ele cita nomes como Brigitte Bardot, Anita Ekberg e Sophia Loren. E em "Motorpsycho Nightmare", Dylan fala de Tony Perkins e do filme "La Dolce Vita".

Em “Roll On John”, ela fala sobre o assassinato de John Lennon. Dylan relata o que imagina ter sido os momentos finais de Lennon, inclusive sua experiência física de morrer, “até o último suspiro”. Triste e comovente, principalmente para quem considera Lennon e Dylan ícones do rock and roll. Na música ainda há memória de Dylan de dois jovens amigos muito chapados em uma limusine.

“Long and Wasted Years” também chama a atenção por mostrar um Dylan falando de anos destilando uma balada linda em que o protagonista pede desculpas a seu amor para ferir seus sentimentos. Ele admite que usa máscaras para esconder seus olhos, porque "Há segredos em que eles não podem disfarçar". A música é o oposto de Pay In Blood, que Dylan encarna o demônio, aparece arrogante e ameaçador, prometendo pagar com sangue, mas não o dele.

É preciso escutar mais, fazer novas e longas leituras, mas a princípio pode se dizer que “Tempest” éimpressionante, mesmo falando de temas que estao eternamente na obra do cantador: perda, catástrofe, assassinato. Aos 71 anos, ele mantém a esperança nas graças salvadoras de coragem, amor e amizade são notavelmente familiar neste século. No comando da linguagem, o bardo americano continua inegualável. E se “Tempest” for mesmo o último registro musical de Dylan (afinal ele tem a voz de um senhor de 71 anos), deixa como legado sua empatia ímpar, sua capacidade de habitar seus personagens, entender suas motivações e fazê-los de carne e osso através da música.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Nos bastiores do poder




Luzes, câmera e ação! A indústria do cinema retrata há anos a vida de grandes chefes de estado em suas diferentes obras, tentando ao máximo desvendar os bastidores que cercam o mundo dos poderosos. Em ano eleitoral, nada mais oportuno do que conhecer a trajetória ´política de grandes ( às vezes nem tanto) líderes políticos de todo o mundo. Há cinebiografias imperdíveis, como o recente A Dama de Ferro, sobre a primeira ministra inglesa Margareth Thatcher ou ainda Ganhi, sobre o líder indiano.
A dama de ferro – A vida da primeira ministra inglesa Margareth Thatcher– Filme que deu o Oscar de melhor atriz à Meryl Streep. (realizado no ano passado)

Gandhi – Personagem principal: Mahatma Gandhi.

Danton – O Processo da Revolução, de Andrzej Wajda . Em1791, segundo ano da Revolução Francesa, o líder popular Danton prega o fim do regime de terror que ajudara a instituir.

O Discurso do Rei == Personagem principal: rei George VI, da Inglaterra. Ele sofria de gagueira desde os quatro anos de idade. O problema era considerado sério para um integrante da realeza britânica, que frequentemente precisa fazer discursos.

W. Personagem Principal: George W. Bush. Em W. O diretor Oliver Stone traz a vida do 43º Presidente dos Estados Unidos para as telas de cinema. O filme reproduz aos espectadores a trajetória de George W. Bush.

Frost/Nixon (2008) ==Personagem Principal:- Richard Nixon. O filme retrata a história do ex-presidente dos Estados Unidos Richard Nixon (interpretado por Frank Langella), que permaneceu em silêncio por três anos após renunciar à presidência dos Estados Unidos.Em 1977, Nixon concordou em dar uma entrevista e decidiu responder a perguntas sobre o período em que esteve na Casa Branca, não apenas com o objetivo de esclarecer pontos obscuros sobre o escândalo de Watergate que o levou à renúncia, mas também com o intuito de usá-la para uma possível volta à política.

O Último Rei da Escócia (2006) ==Personagem Principal: Idi Amin. O filme retrata a história do ex-ditador de Uganda, Idi Amin (interpretado por Forest Whitaker), sob a perspectiva e os olhos de Nicholas Garrigan (interpretado por James McAvoy), um jovem escocês que foi médico pessoal do instável líder.

Stalin, de Ivan Passer. A trajetória do ditador russo Joseph Stalin, desde a abdicação do czar, em 1917, até sua morte, em 1953.

Nixon, de Oliver Stone (USA: Buena Vista, 1995), com Anthony.Hopkins, Joan Allen, Powers Boothe, Ed Harris, Bob Hoskins e James Woods. O Filme conta a história do controvertido presidente americano Richard M. Nixon, Da sua vitoriosa campanha eleitoral até o chocante escândalo de Watergate, que selou toda sua maldição.

Ética e política – Entre os filmes que  retratam situações em que as relações entre ética e política frequentemente se colocam em tensão, o que leva os atores políticos a dilemas morais, vale a pena ver.

Jogos do Poder retrata exatamente como os EUA entram numa guerra, gastam bilhões nela, só que quando se mais precisa de dinheiro, eles simplesmente abandonam o país. Há até uma declaração do próprio congressista sobre o assunto ao final do filme. (Com Julia Roberts e Tom Hanks)

Tudo pelo  Poder – O  democrata George Clooney usa a política para falar de moralidade, a linha tênue entre fazer o certo ou o melhor para si mesmo

Segredos do Poder de Mike Nichols John Travolta interpreta um governador bonachão e mulherengo que está envolvido nas primárias do Partido Democrata para as eleições presidenciais. Jovem idealista se junta ao comitê para elegê-lo.

Game Change -- A atriz americana Julianne Moore vive com um impressionante mimetismo a republicana ultraconservadora Sarah Palin no filme para a televisão "Game Change", programado para sábado no canal americano HBO, que mostra como foi a sua campanha à vice-presidência dos Estados Unidos em 2008. ( Está passando esse mês no canal pago HBO)



Todos os Homens do Presidente. Em 1972, sem ter a menor noção da gravidade dos fatos, um repórter (Robert Redford) do Washington Post inicia uma investigação sobre a invasão de cinco homens na sede do Partido Democrata, que dá origem ao escândalo Watergate e que teve como consequência a queda do presidente Richard Nixon.
 Mera Coincidência --Presidente dos Estados Unidos ), a poucos dias antes da eleição, se vê envolvido em um escândalo sexual e, diante deste quadro, não vê muita chance de ser reeleito. Assim, um dos seus assessores entra em contato com um produtor de Hollywood (Dustin Hoffman) para que este "invente" uma guerra na Albânia, na qual o presidente poderia ajudar a terminar, além de desviar a atenção pública para outro fato bem mais apropriado para interesses eleitoreiros.

Nacionais

Entreatos_ Documentário que enfoca os dias finais da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva rumo à Presidência, em 2002. Traz imagens da campanha presidencial, das reuniões de cúpulas, com José Dirceu, José Genuino e Antonio Palocci, além das primeiras imagens de Lula ao saber da vitória.

Os Anos JK - Uma Trajetória Política O filme de Silvio Tendler, aborda a história recente do Brasil: a eleição de JK, o nascimento de Brasília, o polêmico sucessor – Jânio Quadros.

Janio a 24 quadros – Balanço político bem-humorado dos anos 50 aos 80, tendo como grande personagem o ex-presidente Jânio Quadros.

Estilo documentário

-JFK – A pergunta que não quer calar. Três quartos dos americanos - homens e mulheres - continuam duvidando que só um homem tenha sido o responsável pela morte do presidente. "JFK" examina as várias teorias sobre o crime que abalou a estrutura norte-americana.


Comandante (2003)==Personagem Principal:Fidel Castro.Comandante é um documentário político que mostra a entrevista do diretor Oliver Stone com o lider cubano revolucionário Fidel Castro sobre diferentes assuntos.

domingo, 5 de agosto de 2012

O pop anárquico e refinado de Rufus Wainright



Contrariando o que o nome sugere, “Out of the game” mostra que seu criador não está fora do jogo de fazer boas músicas.

No ano passado, quando começaram a surgir as primeiras notícias sobre “Out of The Game”, sétimo álbum de material inédito de Rufus Wainright, o disco do compositor nascido em Nova Iorque e criado no Canadá era anunciado como o álbum mais pop de carreira do artista. A idéia inicial era espelhar o álbum nos trabalhos de Elton John, de quem Wainright nunca escondeu sua admiração. Para tanto Wainwright convocou um time brilhante: Martha Wainwright, irmã de Rufus, que também segue carreira como artista, o guitarrista do “Yeah Yeah Yeahs”, Nick Zinner, Sean Lennon (sim, o filho de John Lennon), Nels Cline, que é guitarrista do “Wilco” e o vocalista Andrew Wyatt da banda sueca “Miike Snow”. As expectativas gerais para “Out of the game”, que foi lançado oficialmente em primeiro de maio passado eram mudanças e revoluções.
Não é isso que nos é entregue em “Out of the game”. O cantor e compositor realmente deu uma levada pop ao disco, mas a melancolia, marca registrada de todas suas produções anteriores, desde a estréia em 1998, continua em destaque. É verdade que o disco espelha-se no Elton John dos anos 70 e que o disco é o mais leve do artista, desde sua estréia em 1998, graças à parceria com Mark Ronson, produtor de discos de Amy Winehouse, Robbie Williams, Lily Allen e Duran Duran, mas família e relações humanas ainda dão o tom das canções de Rufus.

Rufus Wainright se alimenta das melhores influências que a música pop pode oferecer, mas não esquece a essência melancólica do folk


Membro de uma excelente família de músicos e conhecido não apenas por sua ótima produção criativa, como também por suas famosas reinvenções de faixas como Hallelujah, de Leonard Cohen, e Across the Universe, dos Beatles, Rufus Wainwright ganhou destaque nos anos 2000 sem ter que se encaixar em possíveis nichos. Ele já passou pelo som operístico, sem, contudo ser erudito, pelo melhor do estilo gay, passando longe de ser dançante e até mesmo ousando fazer um disco somente com músicas de Judy Garland. Agora adere ao pop, mesclando-o com tons de soul, gospel e até mesmo pelo R& B e faustosos musicais da Broadway.
“Montauk”, uma balada triste, levada pelo som do piano, coloca Rufus versando sobre família e relações humanas. Ele fala especialmente da filha Viva Katherine Wainwright, fruto de seu relacionamento com uma amiga de longa data, Lorca Cohen ( filha de Leonard Cohen). Com ela e o parceiro de longa data, Jorn Weisbrodt, Rufus cria a filha Cohen na cidade canadense que dá nome à canção .

Em “Candle”, ele reafirma que ainda não superou a morte da mãe, ocorrida em 2010.  A balada docemente fúnebre incursiona pelo folk-country, ressalta a tristeza que não sai da voz, letra e olhos do artista. Com sua letra metafórica, ele canta: “But the churches have run out of candles”. Última frase da canção, acompanhada por uma gaita de fole que dá à canção uma discreta e faz-toda-a-diferença pegada escocesa.

Rufus ainda consegue abrir o coração na balada levemente jazzística "A song for you". Aqui ele conta como lidar com as reclamações de seu companheiro, Jorn Weisbrodt, de que nunca havia feito uma canção para ele. "Há muitas letras para escolher/ Mas há uma só para você", devolve ele, numa interpretação ainda mais expressiva por causa do coral gospel que o acompanha ao longo do disco.

O soul "Perfect man", foi composta por Rufus com intenção de fazer um dueto com Neil Tennant, dos Pet Shop Boys, que rejeitou o convite por achar que a música tinha muitos acordes. O disco destaca ainda “Jericho”, que passaria fácil como uma composição de Sir Elton John nos tempos áureos, mas com uma levada gospel, "Barbara" e "Rashida". Todas as canções conjugam inteligentes harmonias, exuberância operística e bom senso pop em embalagem atemporalmente radiofônica. O coral de apoio de “Barbara” merece referência especial.

“Bitter Tears” é  a canção mais pop, mais anos 80, mais “alegre” de todo o alinhamento, e provavelmente de toda a sua discografia. É impossível não viajar ao som dos sintetizadores. A música entra por caminhos mais dançantes, diametralmente opostos aos de “Respectable Dive”, balada em jeito de valsa apoiada na secção vocal. “Sometimes You Need” é calma e um dos mais simples e belos momentos do disco, é só fechar os olhos, deixarmo-nos absorver pelas palavras de Rufus e apreciar sem pressas.



quarta-feira, 20 de junho de 2012

Ridley Scott promete, mas não cumpre


Visualmente espetacular e sem enredo forte, “Prometheus” banaliza os efeitos especiais


Irregular, mas corajoso. Assim pode ser definido “Prometheus”, um dos lançamentos mais aguardados do ano pelos fãs de ficção científica, principalmente pelos fãs do diretor britânico que tiveram a chance de ver na tela grande de “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979) e desde “Blade Runner, o Caçador de Andróides” (1982). A produção não só marca o retorno do Ridley Scott à ficção científica como também o seu reencontro com sua obra-prima “Alien – O Oitavo Passageiro”. E foi anunciado como a obra que tenta explicar a origem da criatura que cresce e se multiplica na produção dirigida por Scott e nas sequências seguintes, cada uma delas assinada por cineasta distinto: James Cameron (“Aliens – O Resgate”), David Fincher (“Alien 3”) e Jean-Pierre Jeunet (“Alien: A Ressurreição”). Assim, quem assistiu aos filmes citados simplesmente não podem deixar de ver Prometheus. Mesmo que ao final da sessão sai do cinema pensando: “É Prometheus, você prometia, mas não cumpriu não”

Até mesmo Scott viu que tinha ido longe demais e no meio da produção do filme, mudou de idéia. O ponto de partida para o novo projeto do filme era revelar quem era uma figura brevemente mostrada em “Alien: O Oitavo Passageiro” o extraterrestre fossilizado (conhecido pelos fãs como Space Jockey) morto pela força misteriosa que posteriormente massacra a tripulação da nave Nostromo. Como “Alien” teve três sequências, o diretor achou mais interessante apresentar o prelúdio da saga. Assim, junto com possíveis respostas, Prometheus lança ainda mais perguntas, que prospectam sobre a origem do homem à luz do debate entre ciência e fé.

Por conta disso,ele acabou realizando um filme que além de irregular e corajoso, o filme também é pretensioso e ambicioso. Em “Prometheus”, Ridley Scott não se limitou ao horror espacial de “Alien”, mas resolveu conjugar o clima angustiante do filme da década de 70 com reflexões filosóficas herdadas de clássicos como “Solaris” (1972) e de “2001 — Uma Odisseia no Espaço” (1968). O resultado, como era de esperar, raramente fica à altura da pretensão de Scott em misturar, ciência, religião e filosofia.

Vale ressaltar, porém, que “Prometheus” não compre o que prometia em termos. De uma forma técnica o filme é impecável. Seus efeitos de som são poderosos, fortes, principalmente nas cenas que retratam a nave que dá título à produção. A trilha sonora está em sintonia fina com a tensão e grandiosidade que pretende provocar. Difícil não se impressionar com as belas sequências, como o prólogo que mostra a criação da vida na Terra ou os minutos em que acompanhamos o dia-a-dia do andróide David. E os cenários e planos aberto mostram com perfeição a pequenez humana diante do universo e da própria natureza humana. A direção de arte cria área que evoca grandeza, como o interior branco e tecnológico da nave, que se choca ao se comprado com o interior estéril e seco da pirâmide alienígena. Nestes quesitos, o filme é impecável.

“Prometheus” se passa no mesmo universo de “Alien, O Oitavo Passageiro”, mas a ação se desenrola três décadas antes, e em um planeta diferente onde existe uma nova geração de alienígenas, capazes de assumir até quatro formas – todas concebidas pelo designer H. R. Giger, responsável pela criatura original. O título Prometheus se refere a uma nave espacial que se desloca em direção a um planeta distante, seguindo uma rota que tem como referência mapas pré-históricos recém-descobertos na Terra. Nessas cartas, há a indicação de um local onde a raça humana teria sido concebida, o que, se comprovado, poderá lançar por terra toda a Teoria Evolucionista de Charles Darwin e pelo menos problematizar a do Criacionismo, defendida por setores mais conservadores do Cristianismo, por exemplo.

Quem lidera a missão de cientistas é a destemida Elizabeth (Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da versão sueca de “O Homem Que Não Amava as Mulheres”). Suas razões transcendem a ciência: ela ansia ver de perto o Criador. Acredita que, nesse planeta, travará contato com seres superiores, que ela chama de engenheiros, responsáveis pela criação da Terra e nossos ancestrais mais remotos. Também estariam na origem dos monstros extraterrestres que cresceram e se multiplicaram na série Alien.

“Não dá para assistir “Prometheus” sem lembrar os filmes da cinessérie, principalmente ”Alien, O Oitavo Passageiro” e “Aliens, o Resgate”. Noomi Rapace é a dublê de Ellen Ripley que vira uma guerreira ao longo da projeção e não dá para imaginar quais são as verdadeiras intenções do andróide David, da mesma forma que o Ash de Ian Holm escondia as suas em “O Oitavo Passageiro”. Alguém se lembra do burocrata que não pensa duas vezes antes de disparar contra um companheiro a fim de garantir a própria segurança… E que tal um afro-americano altruísta que em determinado momento do filme resolve se sacrificar para salvar os amigos?

Uma pena que Ridley Scott tenha perdido o jeito de contar história. E contou a de “Prometheus” de qualquer jeito, sem nenhum cuidado em explicar os fatos com clareza… Os engenheiros nos criaram, bacana… Mas e o composto orgânico? Que evoluiu rapidamente para uma espécie de réptil, que transformou um cidadão numa espécie de zumbi alienígena e se desenvolveu numa humana numa espécie de cefalópode… Deixa pra lá. Não dá mesmo para falar de Prometheus e de suas pretensas falhas sem revelar detalhes (spoilers) do filme. Assim resta dizer que a produção contém furos e lacunas gritantes e novamente, que o visual do filme é muito bom e a parte da ação, toda centrada na Naomi Rompace, tem um bom suspense. O conjunto do filme, no entanto, decepciona. E muito.







Prometheus (EUA, 2012)

Direção: Ridley Scott

Roteiro: Jon Spaihts e Damon Lindelof

Elenco: Noomi Rapace, Logan Marshall-Green, Michael Fassbender, Charlize Theron, Idris Elba e Guy Pearce

Duração: 124 min.