segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A dama de ouro do cinema




Filme: O Artista

Direção: Michel Hazanavicius (O Artista)

Ator Jean Dujardin (O Artista)

Atriz: Meryl Streep (A Dama de Ferro)

Ator coadjuvante: Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)

Atriz coadjuvante: Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)

Roteiro adaptado: Os Descendentes

Roteiro original: Meia-Noite em Paris

Filme em língua estrangeira: A Separação (Irã)

Animação: Rango

Maquiagem :A Dama de Ferro

Edição: Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Trilha sonora O Artista

Direção de arte: A Invenção de Hugo Cabret

Fotografia A Invenção de Hugo Cabret

Figurino : O Artista

Canção original: Os Muppets

Edição de som: A Invenção de Hugo Cabret

Som: A Invenção de Hugo Cabret

Efeitos visuais: A Invenção de Hugo Cabret

Curta-metragem de animação: The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore

Curta-metragem: The Shore

Documentário: Undefeated

Documentário em curta-metragem: Saving Face

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O lado sombrio do ser humano



A mostra “O Amor, a Morte e As Paixões” que prossegue até quinta-feira, 9, nas salas do Cine Lumière não tem somente dois filmes franceses em sua programação. Mas duas produções despertaram minha curiosidade. Afinal não dá para ver todos os filmes em cartaz. A escolha do que ver veio do currículo dos cineastas. A falta de pudor de Bertrand Bonello em “O Pornógrafo” me levou a ver “L’Apollonide — Os Amores da Casa de Tolerância”, assim como a delicadeza de “Lírios D’Água”, em que Céline Sciamma explora o tema da sexualidade em adolescentes, me fez decidir por “Tomboy”. Difícil e imperfeito. Essa poderia ser a definição do filme de Bertrand Bonello. O filme de Céline Sciamma, por sua vez, é discreto, mas cheio de atitude e delicadeza.

Vamos por parte. “L’Apollonide — Os Amores da Casa de Tolerância” narra o dia a dia do decadente bordel L’Apollonide, frequentado por burgueses parisienses no início do século 20. Mas os burgueses estão longe de ser o foco da trama. A Bonello interessa pintar o retrato da árdua batalha cotidiana das prostitutas que vivem naquele casarão. O espectador vê as acompanhantes fazendo seus programas, discutindo entre si as relações com a clientela e procurando distração em ambiente movido a álcool e perversões. E haja perversões.

Afirmar que a Bonello interessa pintar o retrato da árdua batalha das prostitutas se justifica. O que mais chama a atenção do espectador (a partir do cartaz do filme) é a beleza plástica tanto da reconstituição de época quanto dos enquadramentos com os quais o realizador nos apresenta as suas mulheres. Parecem pinturas delicadas em seus tons sóbrios, detalhistas no exame de suas vaidades e inquietações. O olhar de cada garota tem uma tristeza comovente, acentuada por um conformismo daqueles que traz incômodo ao espectador. A fotografia do filme é linda, com um colorido que retrata perfeitamente as particularidades de cada personagem. Os quartos são repletos de tecidos e móveis de época. A reconstrução da casa de tolerância é impecável.

Se existe falha ela fica por conta da forma com que Bonello foca o mundo da prostituição. Parece chover no molhado colocar em cena uma cafetina que abriga as profissionais em troca delas trabalharem e pagarem suas dívidas, que acabam se acumulando devido à necessidade da compra de perfumes, cremes, sabonetes e ópio. As histórias das meninas também não apresentam novidade. Há aquela que sai do interior para tentar a vida na casa de tolerância, a de uma mulher apaixonada por seu cliente, e de uma mulher que carrega uma cicatriz no rosto feita por um cliente. As mulheres parecem bonecas, sempre arrumadas e maquiadas, usadas como brinquedos pelos homens, muitas vezes de forma perversa. Uma das vítimas da perversão masculina é Madeleine (Alice Barnole). Após ser amarrada na cama por um cliente, tem seus lábios cortados por uma navalha e fica com um sorriso que lembra o coringa de Jack Nicholson no filme da franquia “Batman”. Ninguém tem vida própria fora da casa. As garotas não têm permissão para sair e a câmera sempre fica com as garotas, do lado de dentro. Para as mulheres, a casa é uma prisão — um diálogo expõe a saída do casarão como um grande evento. Para os clientes, é o passe livre, a autorização para fazer o que quiser. O espectador nada fica sabendo sobre os homens quando eles deixam a mansão. Bertrand Bonello não julga suas prostitutas nem seus clientes. Não é paternalista nem autor de conto de fadas. Apenas um cronista do mundo das cortesãs.

Há que se destacar ainda a trilha sonora que aparece como um dos componentes mais importantes, senão o mais, para dar aura de modernidade ao filme. Usando uma combinação de estilos, Bonello coloca Mozart e Debussy ao lado de Lee Moses e o blues “She’s a Bad Girl”. A primeira vista parece estranho, mas funciona perfeitamente. Impossível não pensar em uma conexão emocional entre a música soul e a vida das garotas. E a música de Mozart na cena do Salon Bourgeois dá uma ideia de carga profunda, mas sem cair para uma atmosfera de romantismo. E a sequência final, que faz uma ponte com o exercício da profissão no presente, garante atualidade ao longa à medida que a regulamentação da prostituição é uma das questões da hora na França.

Uma curiosidade: existe luz elétrica no salão de L'Apollonide, mas nos quartos a iluminação é de velas. É, em parte, um recurso estético que define o visual do filme.

Um pequeno grande filme
"Tomboy”", a sexualidade na medida da delicadeza de Céline Sciamma




No ano passado a diretora e roteirista francesa Céline Sciamma saiu do Festival de Berlim com o prêmio Teddy, destinado às produções de temática homossexual pelo filme “Tomboy”. O fato poderia ter confinado o filme ao gueto das produções GLS, que ainda sofrem preconceito. Felizmente não é o que vem ocorrendo. Em todo o mundo, e não apenas na Alemanha ou na França, “Tomboy” vem seduzindo público e críticos.

A própria Céline afirma que, embora o tema da identidade sexual lhe seja caro, ela nunca viu o prêmio da Berlinale como uma coisa restritiva, e nem poderia. “Pedro Almodóvar recebeu este prêmio no começo da carreira. Se eu tiver 10% do respeito que ele usufrui hoje em dia, junto ao público e aos críticos, já estarei feliz.”

Com abordagem original e atuação sensacional da pequena protagonista Zoé Héran, Céline Sciamma supera os clichês usados em seu filme “Lírios d’Água”, de 2007, para contar a história de Laura, uma menina moleque (tradução literal do título do filme) de 10 anos que se muda com os pais (Mathieu Demy e Sophie Cattani) e a irmã caçula (Malonn Lévana, adorável) para um subúrbio de Paris. É verão, Laura só veste bermudão e regata. De cabelos curtinhos, acaba confundida pela vizinha Lisa (Jeanne Disson) com um menino. Apresenta-se, então, como Mickäel e, a partir daí, decide assumir a farsa para os demais amiguinhos. O mais interessante de “Tomboy” é a forma com que a cineasta testa o espectador ao introduzir a temática da sexualidade. A discrição e o cuidado são invejáveis. O roteiro constrói a personalidade de sua protagonista como uma pessoa já consciente de sua condição “diferenciada”, mas que jamais busca mudar ou moldar-se à estética padrão. A sociedade em que a história se insere garante a simplicidade da produção. A família de Laura a aceita como ela é. A deixa se vestir como deseja. E não a julga. A relação com os pais é carinhosa. Laura é uma criança que ainda gosta do colo do pai e da mãe e divide com a irmã menor as brincadeiras pertinentes a idade da caçula. É com a irmã - cúmplice que ela compartilha os momentos mais divertidos, em uma relação bonita e de grande química entre as talentosas Zoé Héran e Mallon Lévanna.

“Tomboy” é um longa ousado de temática importante, mas que aborda sem exageros ou dramatizações melodramáticas situações corriqueiras em filmes sobre o assunto, as quais não resistem à delicadeza da cineasta, que fala como poucos sobre sexualidade. A cena mais delicada é a que desvenda o sexo do “garoto”. Laura e a irmãzinha estão no banho. Tudo é feito com uma delicadeza e naturalidade surpreendentes. Nada é gratuito.

A força do filme está na primorosa interpretação de Zoé Héran. Ela é sensacional. Céline sabia que, se não encontrasse a intérprete certa, seria melhor desistir do projeto. Ela não queria transformar a personagem numa caricatura nem numa aberração. Zoé superou sua expectativa.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A força social do cinema iraniano









“A Separação”, de Asghar Farhadi, e ”Isto Não é Um Filme”, de Mojtaba Mirtahmasb e Jafar Panahi, são destaques na mostra “O Amor, a Morte e as Paixões”


Qual o papel do cinema na atual sociedade iraniana? Como é possível o florescimento da arte cinematográfica num país islâmico com um governo altamente repressor comandado pelo ditador Mah­moud Ahmadinejad? Respos­tas para estas perguntas podem ser encontradas em “A Separação”, de Asghar Farhadi, “Isto Não é Um Filme”, de Mo­jtaba Mirtahmasb e Jafar Panahi, representantes do cinema iraniano na mostra “O Amor, a Morte e as Paixões”, em cartaz no Cine Lumière Bou­gainville até o dia 9 de fevereiro.

Os filmes em questão são prova da efervescência política e cultural em andamento no Irã desde o fim da Guerra Irã-Iraque e a transição de governos. A sociedade iraniana, amordaçada por tantos anos, quer mostrar que seu país não pode ser reduzido a notícias de estereótipos divulgados pelas grandes redes de comunicação, tampouco moldada àquela imagem veiculada na propaganda política.

O universo iraniano é muito mais complexo e rico e o cinema, mais do que um produto cultural, é uma prática social, valioso tanto por si mesmo quanto pelo que pode revelar dos sistemas e processos culturais do país. Não se pode esquecer que artistas e intelectuais iranianos estão constantemente sob censura. Opositores são perseguidos e mortos e jornais reformistas são fechados. Todo o sistema de comunicação é controlado pelo governo e até mesmo a censura aos meios de comunicação é garantida pela constituição. O cinema torna-se assim uma importante ferramenta de expressão dos iranianos fora do país.

“A Separação”, de Asghar Farhadi, é o mais badalado da mostra “O Amor, a Morte e as Paixões”. O filme saiu do Festival de Berlim 2011 com o Urso de Ouro e o Urso de Prata para os quatro protagonistas (Leila Ha­tami, Sareh Bayat, Peyman Moadi e Shahab Hosseini). No início do ano recebeu o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Na terça-feira, 25, foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e ao Oscar melhor roteiro original, além de ter sido a produção internacional preferida das associações de críticos de Nova York, Toronto e Chicago.

Todos os prêmios são justificáveis. Asghar Farhadi usa o tema do divórcio e as regras do rígido mundo islâmico como detonadores de tramas que possuem apelos irresistivelmente fascinantes e universais. Farhadi, que tem 39 anos e que já conhecemos por seu filme “Procurando Elly”, de 2009, (ganhador do Urso de Prata na categoria melhor diretor em Berlim), foi criticado pelas autoridades de seu país por mostrar o que acharam que eram as misérias do povo iraniano e não seus feitos notáveis. O diretor Farhadi, ao receber o Globo de Ouro, disse lacônico: “Meu povo é um povo que ama a paz”. Mas, fiel aos costumes muçulmanos, não apertou a mão de Madona que lhe entregou o prêmio.

Na primeira cena de “A Se­paração”, Simim (Leila Hatami) quer sair do Irã e, com isso, deixar para trás o ranço de uma sociedade que limita as liberdades da mulher. Nader (Peyman Moadi) até cogita a possibilidade de se mudar com a mulher e a filha para o exterior, mas não naquele momento. Ele tem de ficar no país para cuidar do pai que sofre de Alzheimer. Num gesto desesperado, ela pede a separação: quem sabe a ausência não faça o marido mudar de ideia? Eles estão diante do juiz e ela precisa que o marido autorize a viagem da filha. O divórcio se faz necessário porque no Irã uma mulher só pode viajar sozinha se for solteira. O marido aceita o divórcio, mas se recusa a permitir que filha viaje.

Na sequência seguinte, Simin faz as malas e volta a morar com sua família e Nader contrata Razieh (Sareh Bayat) para cuidar do velho doente. Sem nenhuma experiência como enfermeira, Razieh, que é uma muçulmana muito devota, tenta ajudar o marido desempregado (Shahab Hos­seini) nas despesas, mas não conta para ele que está trabalhando na casa de um homem recém-separado para cuidar de outro homem, mesmo que este seja um velho doente. Ultra devota, Razieh entra em conflito com suas tarefas cotidianas, que incluem trocar e banhar o patrão idoso. Outros problemas familiares afloram, como a necessidade de levar a filha para o serviço. Um descuido dela vai desencadear uma série de segredos, mentiras e mal-entendidos, que culminam em calorosas discussões na justiça. Assim, boa parte do filme se desenvolve em uma salinha improvisada dentro do fórum onde funciona um tribunal.

É aí que a trama se torna mais interessante. A estratégia de armação narrativa pela qual “A Se­paração” opera é uma fábula cinematográfica típica: há um acontecimento repentino e de causa indiscernível que fomentará e contraporá uma quantidade infinda de pontos-de-vista, versões e opiniões sobre não somente o possível culpado, mas todos os envolvidos. As histórias de Razieh e Nader esbarram num sistema judicial que evidencia a existência de um Estado autoritário, teocrático e machista, num contexto em que o poder de decisão dos personagens parece a cada momento escapar-lhe das mãos. Ao contarem as suas versões dos fatos que os levaram ao tribunal, os envolvidos lembram os personagens de “Rashomon”, filme do japonês Akira Kurosawa que ganhou o Leão de Ouro em 1951. Nele as impressões sobre um crime variavam ao sabor dos relatos de cada um dos implicados, inclusive com a versão do fantasma da vítima. A mesma volatilidade sobre a verdade emerge no drama iraniano. Aqui os conflitos se amontoam e embaralham cada vez mais, a partir do acontecimento que leva ao tribunal e sobre o qual ninguém parece ter certeza. Porém, nenhum deles está disposto a descer de sua altivez, baixar seu orgulho e deixar de lado o conflito cuja razão-de-ser passa a importar menos do que como resolver o impasse.

No ringue jurídico, cada round resulta em uma discussão meticulosa sobre a elaboração da verdade. E ao espectador cabe acompanhar as oscilações das próprias emoções ao sabor do que cada um sabe e diz. E “A Separação” em si se transforma em uma trama metafórica que retrata uma microssituação que remete ao universo macro dos conflitos da cultura islâmica e mais precisamente do Irã, onde obstinação e o orgulho, travestidos de honra cultural ou religiosidade, estão acima de tudo, e onde a resolução pacífica parece um tanto quanto distante. O emaranhado de problemas só crescerá exponencialmente a cada tentativa de solucioná-lo. Vale destacar como o diretor encaminha a história e cria diversas tramas e subtramas a partir de um detalhe que parece absolutamente simples para nós, ocidentais: uma separação. O filme que começa de cara com a questão da separação, vai além do entendimento afetivo do casal, e de repente se amplia. Logo se converte num painel que parte do privado para o público, sem, no entanto perder o foco da separação. Tudo que acontece tem como ponto de partida as dificuldades de entendimento que leva a decisão de um divórcio. As questões subjacentes dão densidade a tudo que se vê em uma separação: e a verdade? E a ética? E a mentira? E a fidelidade? E o pecado? E a abnegação? Os testemunhos e os falsos testemunhos? O papel dos vizinhos? E não é a falta de diálogo que leva à separação?

A opção por filmar a maior parte da produção com uma câmara na mão é um trunfo do cinema de Asghar Farhadi. A câmara trêmula adquire uma única conotação, um único sentido e função — que se tornaram um tanto quanto predominantes no cinema contemporâneo: aproximar-se do drama de personagens condenados, para melhor enxergarmos suas dores e suas lágrimas. Numa discussão fervorosa entre dois personagens, o diretor prefere dar ênfase ao rosto de um terceiro que lhes observa, passivo e açoitado. Este rosto pede que a briga cesse, que o orgulho cesse. É assim que Asghar Farhadi ajuda o público ocidental a lidar com a diferença de valores islâmicos, uma cultura em que para o homem é mais importante que sua mulher não tenha contato com outro homem do que ser agredida.

Se tivesse focado seu filme na questão pura e simples da separação de um casal esclarecido e bem formado na sociedade iraniana de hoje, cerceada e censurada pelo autoritário Mahmoud Ahma­dinejad, Asghar Farhadi já teria feito um filme e tanto. Mas o cineasta extrapola as diferenças culturais, sociais e econômicas e expõe a alma humana na sua fragilidade mais íntima de forma intensa e perturbadora. Im­pos­sível não se emocionar na se­quência final em que o diretor recoloca o espectador diante do mesmo problema do plano inicial: “um casal se separou — com quem fica a filha”? Espan­to­samente perfeito, com o diretor dividindo esteticamente num plano, duas posições, dois afetos, duas difíceis escolhas.

Isto é um grande filme de guerrilha



“Isto Não é Um Filme” retrata o cotidiano solitário e claustrofóbico do diretor de "O Balão Branco”, "O Círculo" e "Ouro Carmim"

No Festival de Cannes deste ano, quando a atriz Juliette Binoche dava entrevista coletiva para falar do filme “Cópia Fiel”, do diretor iraniano Abbas Kiarostami, ela caiu em prantos. Emocionou-se ao fazer um apelo internacional pela libertação dos cineastas iranianos perseguidos, mais especificamente por Jafar Panahi. Preso em dezembro de 2010 sob acusação de estar envolvido em atividades que atentam contra a segurança nacional e de fazer propaganda contra a Revolução Islâmica, mobilizou em sua defesa diversas comunidades ocidentais, incluindo os festivais de Cannes, Berlim, Locarno, Rot­terdam e Kar­lovy Vary; associações internacionais de cinema e até ci­neastas de Holywood, como Martin Scorsese, Steven Spiel­berg e Francis Ford Cop­pola. Ainda assim, foi libertado somente depois de uma semana de greve de fome e o pagamento de fi­ança, passando a cumprir prisão domiciliar enquanto aguardava uma apelação do recurso à sua sentença.

Festejado ou premiado nos principais festivais internacionais, Jafar Panahi, o realizador de “O Balão Branco”, “O Círculo” e “Ouro Carmim”, não cumpriu a pena imposta pelo governo de Mahmoud Ahmadinejad. Assim, entre a proibição do governo e a vontade do diretor de expressar suas opiniões, ele resolveu fazer esse não filme batizado de “Isto Não é Um Filme”, espécie de interpretação corajosa de seu veredito: mesmo se o diretor não pode filmar nem escrever roteiros, nada o impede de ser filmado por um amigo, e de ler o seu próprio roteiro já escrito.

O ponto de partida da realização é explicado pelo cineasta ao contar uma piada em “Isto Não é Um Filme”. “O que fazem as cabeleireiras quando não trabalham? Cortam os cabelos umas das outras”, diz o cineasta. Assim, o que faz um cineasta quando é proibido de filmar? Filma outro cineasta. Assim “Isto Não é Um Filme” foi realizado com a cumplicidade indispensável de um colega e compatriota, o codiretor Mojtaba Mirtahmasb, também preso e acusado de “espionagem” no Irã.

Assim “Isto Não é Um Filme” é assinado pelo amigo e colega de profissão de Panahi, Mojtaba Mirtahmasb. O nome do filme remete ao famoso quadro “Isto Não é um Cachimbo”, em que o pintor surrealista belga René Magritte expõe a imagem de um cachimbo ao mesmo tempo em que insere um texto sob o objeto afirmando não se tratar de um cachimbo. Assim como Magritte, que provoca o observador indicando que a obra não contém o objeto em si e somente uma representação do objeto, a obra de Panahi foi concebida para representar um filme que não existe, já que, calado pela censura, não pôde de fato fazê-lo.

O documentário foi enviado ao Festival de Cannes gravado em um pen drive, dentro de um bolo, onde foi exibido pela primeira vez. Depois disso, foi mostrado em importantes festivais do mundo, dando força ao protesto internacional contra esse tipo de repressão. Quando o filme foi exibido em Cannes, Panahi se encontrava em prisão domiciliar, aguardando novo apelo às autoridades iranianas.






No filme vemos um dia na vida do cineasta, ao telefone, encenando as filmagens de um novo trabalho. É tocante sua aflição. Se não pode sair de casa, recebe visitas. Parece uma vida confortável, mas não é. Uma câmera de vídeo digital flagra-o tomando café da manhã, conversando com a advogada, alimentando sua iguana de estimação, revendo suas obras. Com uma fita crepe, ele delimita os espaços do cenário num tapete e narra sua próxima história: a da moça prestes a entrar na faculdade que fica trancafiada em casa pelos pais fundamentalistas. Para dar uma ideia da imagem e dos planos que gostaria de fazer, Panahi mostra referências de outros filmes, em DVD, mas de vez em quando ele não consegue continuar sua encenação, se levanta e vai chorar fora do alcance da câmera. “Isto Não é Um Filme” é memorável não apenas por seu engajamento político (o “fazer arte a qualquer preço”), mas acima de tudo pela exposição sem concessões que Panahi faz de sua intimidade, de sua tristeza, de sua vontade frustrada de trabalhar com o que gosta. O projeto é um reflexo da frustração deste homem, que passa seus dias pensando em como filmar, e que decide se aventurar nesta espécie de terapia rudimentar, destinada a apaziguar seus desejos de cinema. Próximo ao desfecho, um rapaz aparece para pegar o lixo e, numa conversa de elevador, esse estudante de arte revela seus dissabores com o regime de Ahmadinejad. Mero acaso ou uma encenação planejada? Pouco importa.

O que o filme não narra são os fatos ocorridos após a produção de “Isto Não é Um Filme”. A despeito de todos os protestos internacionais, Jafar Panahi foi condenado publicamente a seis anos de prisão e 20 anos sem filmar, escrever roteiros, dar entrevistas ou sair do país. As notícias sobre o diretor de cinema cessaram desde então. Enquanto Jafar Panahi está preso, outros diretores também sofrem com a ditadura islâmica, como Mohsen Makhmalbaf (de “A Caminho de Kandahar”), que vive no exílio com a família e o próprio Mojtaba Mirtahmasb (codiretor deste documentário), que teve seu passaporte confiscado e impedido de divulgar “Isto Não é Um Filme” no exterior.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O tesouro musical de Amy Winehouse






Qualidade de “Lioness: Hidden Treasures” supera oportunismo dos produtores do disco póstumo da cantora britânica, lançado na segunda-feira, 5

Um disco póstumo lançado menos de seis meses após a prematura morte de Amy Winehouse e bem no período natalino? Dá para desconfiar da jogada pra lá de comercial. É realmente difícil não conceber o lançamento de “Lioness: Hidden Tre­asures” como um caça-níquel oportunista que aproveita a conveniência do Natal para pegar o boom das vendas de final de ano.

A desculpa dos produtores Salaam Remi e Mark Ronsons, encarregados de recompilar o material desse novo álbum, é que Amy deixou “uma coleção de temas que mereciam ser escutados” e que era um “verdadeiro legado” da cantora. O disco reúne gravações que Amy realizou antes, durante e após os lançamentos de seus dois únicos discos, “Frank” e “Back to Black”.

Independentemente da suposta ganância dos que lançaram o álbum, não dá para menosprezar a capacidade dos produtores envolvidos nesse projeto, simplesmente pelo fato dele ser muito bom. Embora tenha sido lançado em uma época duvidosa, é possível perceber que as intenções ali foram mais que financeiras. Também é compreensível essa “urgência”, já que não se tinha um novo álbum de Amy Winehouse há anos. E mesmo não trazendo Amy em seu auge, a coletânea tem momentos interessantes e contribui ao legado da inglesa, consolidado e que deve ser relembrado sempre.

Não que “Lioness: Hidden Treasures” seja um disco de inéditas. A maioria das faixas já é conhecida do público em versões demo ou gravações avulsas. Bom mesmo é saber que quando gravou as canções — grande parte delas — Amy ainda não tinha prejudicado sua voz com o excesso de bebida e drogas e por isso mesmo o disco destaca a segurança vocal da artista.

É comovente a serenidade que Amy Winehouse emprega, por exemplo, aos versos da versão reggae que faz de “Our Day Will Come”, clássico de Ruby and The Romantics que também fez sucesso na voz melodiosa de Karen Carpenter, do duo Carpenters. O registro que se ouve em “Lioness: Hidden Treasures” é de 2002 e nele Amy disserta com segurança sobre como — ironicamente — tempos melhores estariam por vir.

Outra canção que também fez sucesso na voz dos Carpenters é “A Song For You”, música de Leon Russell gravada pela primeira vez por Donny Hathaway. A voz está completamente diferente da música que abre o disco e isso se justifica pelo fato de Amy tê-la gravado quando estava sob o efeito das drogas em 2009, em um take, com Amy ao violão. Mas a voz ainda soa poderosa.

A dedicação e entrega da artista a homens de caráter duvidoso, presença constante em suas canções está em “Between The Cheats”. Sedutora, Amy canta que o rapaz, depois de muito tempo, “ainda a faz enrubescer”, e o coro masculino no refrão reforça a sensação de que ela parece voar em devaneios apaixonados. Amy registrou a canção em maio de 2008, para seu terceiro álbum, jamais lançado.

Para os brasileiros “Lioness: Hidden Treasures” traz um presente especial: ‘Garota de Ipanema”, maior sucesso comercial da dupla de compositores Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Referência inevitável de música brasileira para artistas estrangeiros, foi a primeira que Amy cantou aos 18 anos quando foi a Miami pela primeira vez para gravar com o produtor Salaam Remi em 2002. A cantora britânica abusa do scat singing — técnica de canto que consiste em se cantar vocalizando tanto sem palavras, quanto com palavras sem sentido e sílabas — no melhor estilo “badabauê”—, e o acompanhamento é sutil, de bateria e violão. Ao fundo, um arranjo de violinos. Mas quem desejava ver Amy cantando em português vai se desapontar. Ela interpreta a versão em inglês, “The Girl From Ipanema”, de Norman Gimbel.

“Will You Still Love Me Tomorrow” e “Valerie” representam as releituras mais conhecidas. Coverizando Carole King, Amy mostra que a letra de “Will You Still Love Me Tomorrow”, embora não seja sua, sempre ganha vida de forma autêntica em sua voz. A música foi gravada para a trilha sonora de “Bridget Jones 2 — A Idade da Razão”. A dúvida sobre o amor que lhe é dispensado traz uma certa ingenuidade: “Isso é um tesouro duradouro/Ou apenas um momento de pra­zer?/Posso acreditar na mágica de seus suspiros?/Você ainda vai me amar amanhã?”, cantou em 2004.

Um dos grandes serviços de Amy Winehouse à música foi alavancar as alturas “Valerie”, canção do grupo The Zuttons, de Liverpool. No CD ela é apresentada em uma versão mais lenta, registrada em dezembro de 2006. Amy gravou essa música de várias formas, mas é impossível achar um registro dessa canção, na voz de Winehouse, que seja apenas razoável. Amy tornou o cover mais interessante do que o original.

“Tears Dry” e “Wake Up Alone” pertencem à categoria de faixas demos. A primeira, uma versão menos “poderosa” de “Tears Dry On Their Own”, surge muito mais lenta, mas não menos honesta que a canção incluída depois no CD “Back to Black”. A gravação é de 2005. Já a segunda teve sua gravação como demo da primeira canção registrada especialmente para “Back to Black”, em março de 2006. Ela soa mais limpa e básica e funciona muito bem, ao transmitir a real angústia de sua criadora.

“Like Smoke”, um dos duetos do disco é a mais fraca da coletânea. Gravada em colaboração com o rapper Nas, em maio de 2008, parece narrar um embate fadado ao fracasso. O outro dueto, “Body and Soul”, que Amy gravou com o cantor americano Tony Bennett para o álbum “Duets II”, lançado em setembro, foi a última gravação oficial da cantora, feita em março de 2011. Um grande encontro de artistas.

“Best friends” é a música com a qual Amy abria os shows do álbum “Frank”, registro de fevereiro de 2003. O ritmo alegre esconde uma mensagem oposta: o descaso com o parceiro não é disfarçado e Amy desdenha, debocha, dizendo que no fim, eles “ainda são melhores amigos, certo?”.

Um dos grandes méritos de Amy Winehouse era conseguir transmitir o que sentia em absolutamente tudo o que cantava, estivesse em seu auge ou nos seus dias menos esperançosos. Esse álbum é a confirmação disso e, portanto, a confirmação de seu talento.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Emmylou Harris rumo ao décimo-terceiro Grammy




"Hard Bargain" resume o pensamento de Emmylou Harris não só sobre si mesma, mas também sobre gerações, mentores, amigos mortos, filhos e netos, mortalidade e fé
Emmylou quem? Você pode não conhecer Emmylou Harris, mas certamente já ouviu a voz desta extraordinária cantora. Afinal são nada menos do que 40 anos de carreira, 12 Grammy nas mais diversas categorias e parcerias musicais lendárias que vão de Gram Parsons, The Band, Linda Ronstadt, Roy Orbison, Dolly Parton, Mark Knopfler, Guy Clark, Donna Summer, Willie Nelson, Bob Dylan, Rodney Crowell, Vince Gil, Sheryl Crown, Lucinda Willians, Nancy Griffith e Neil Young. Sem contar o impressionante conjunto de trabalhos solos de fazer inveja aos colegas do cenário musical.
O décimo-terceiro Grammy pode ser levado para casa graças a Hard Bargain, (Nonesuch Records) indicado no último dia de novembro na categoria Best American Album (Melhor Disco Americano). Os concorrentes de Ms. Harris são fortes: “ Blessed”, de Lucinda Williams (Lost Highway Records); ”Pull Up Some Dust And Sit Down”, de Ry Cooder (Perro Verde Records LLC/Nonesuch); ”Ramble At The Ryman”, de Levon Helm (Vanguard/Dirt Farmer Music) e “Emotional Jukebox”, de Linda Chorney (Dance More Less War Records).
Emmylou Harris sempre pautou sua carreira pela simplicidade, nunca se rendeu às tentações do estrelato e ao longo dessa trajetória não faltaram elogios à sua gentileza de emprestar a voz a pequenos e grandes artistas aparecendo simplesmente como backing vocal. É esta mesma simplicidade que caracteriza “Hard Bargain”, o vigésimo-primeiro disco solo (sem contar as coletâneas de grandes sucessos, edições especiais...). Com o produtor Jay Joyce na guitarra e piano e Reaves Gilles na percussão, “Hard Bargain” tem como foco a voz de Harris, ainda transcendente aos 64 anos de idade. O disco é um dos três álbuns para os quais Harris escreveu a maioria das músicas: "Girl Red Dirt", em 2000, "Stumble into Grace,” em 2003 e agora “Hard Bargain” (ela também escreveu a maior parte do seu álbum de 1985, "The Ballad of Sally Rose", junto com seu marido na época, o compositor Paul Kennerley).
Os anos não diminuíram a pureza de sua voz que canta 11 canções originais e íntimas. Em “The Road”, por exemplo, ela lembra a parceria musical e sentimental com Gram Parsons. Olhando para trás ao longo dos anos ela canta "Ainda me lembro de todas as músicas que você cantou/ há muito tempo, quando éramos jovens / e nos divertíamos a noite toda". O relacionamento com Parsons, vale lembrar, já foi cantado por Emmylou Harris na clássica balada “Boulder to Birmingham".
Outra perda, esta mais recente, é descrita em "Darling Kate" - uma homenagem a uma velha amiga e colaboradora, Kate McGarrigle, cantora e compositora canadense de folk falecida em janeiro do ano passado. McGarrigle, mãe do cantor Rufus Wainwright era amiga de Harris desde os anos 70 e autora de “Lovis Is”, que Emmylou gravou em 1989. “Darling Kate” é um elogio lindo e comovente que evita ser piegas e fortalece a verdade emocional das outras canções do álbum que falam dos muitos desafios e armadilhas da vida.
Outra homenagem é "My Name Is Emmett Till", que conta a história de um rapaz negro de 14 anos brutalmente assassinado no Mississipi em 1955. O relato de Harris lamenta a vida que Till nunca pôde viver e imagina a geração que se lhe seguiria.
Uma balada-lamento, "Goodnight Old World", deposita esperanças num bebê recém-nascido para que ele "suavize a mágoa" deste "mundo triste"; Harris tem agora uma neta pequenina. A canção foi escrita com Will Jennings, conhecido por ter colaborado em canções de Steve Winwood.
O álbum também inclui "The Ship on His Arm", um romance valsante dos tempos da guerra. A história é inspirada nas vidas dos pais de Harris, Walter e Eugenia, que se casaram durante a Segunda Guerra Mundial. Ele era fuzileiro.
Duas das canções mais reveladoras de "Hard Bargain" versam sobre mulheres solitárias: "Nobody", que conta a vida de uma pessoa que nunca encontra "o seu único e grande amor", e "Lonely Girl": "If love can''t find me again/I''ll put it all behind me then/ "I''ll just go and learn to sing another sad love song". ("Se o amor não pode me encontrar de novo / Eu vou colocar tudo atrás de mim, então / Eu vou aprender a cantar outra canção de amor triste."
Apenas duas das 13 músicas do disco são regravações. A faixa título é um sucesso da carreira do canadense Rom Sexsmith e cantanda de forma deliciosamente descontraída por Ms Harris, acompanhada pelo banjo e guitarra. “Cross Yourself”, de Jay Joyce, é outra grande interpretação da artista.
"Hard Bargain" é o primeiro lançamento de Emmylou Harris nos últimos três anos e valeu a pena esperar. Sua voz continua suave e extremamente emotiva, daquelas que torna agradável qualquer canção. As músicas são bem escritas e ouvindo o disco é difícil acreditar que há apenas três pessoas, incluindo Emmylou, fazendo toda aquela música. São longas notas de violino, acordes de pianos equilibrados com a voz melodiosa e um ou outro som de banjo e bandolim. A percussão é sutilmente inteligente. A força e a sinceridade vocal de Emmylou Harris fazem de “Hard Bargain” mais um bom motivo para amar e admirar essa grande artista.
A propósito. O CD pode ser encontrado em versão simples e edição especial, com o CD de áudio e DVD com apresentações ao vivo de seis canções e uma entrevista exclusiva com a artista.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A grandiosidade de Peter Gabriel







Sucesso no festival SWU, o ex-vocalista do Genesis injeta ““New Blood”” (sangue novo) em suas músicas, dispensando guitarra, baixo ou bateria



A primeira vez que ouvi Peter Gabriel foi em uma sala escura de cinema. Era 1990 e eu estava assistindo “A Última Tentação de Cristo”, que Martin Scorsese havia realizado no ano anterior. O filme de Martin Scorsese foi claramente a obra cinematográfica mais controversa da década de 80. Para realizá-la, o diretor baseou-se no polêmico livro do homônimo, do grego Nikos Kazantzakis, publicado em 1953, no qual a vida de Jesus Cristo era descrita de forma bem diferente da habitual, sujeita a diversas tentações como medo, dúvida e até mesmo luxúria. Controvérsias à parte, a produção conseguiu gerar uma unanimidade avassaladora em torno da sua trilha sonora original, um dos mais decisivos marcos da “World Music”, que até então se havia mantido quase inexplorada. E Peter Gabriel, o ex-vocalista do Genesis, um dos mais importantes e vanguardistas artistas da cena musical mundial nos anos 80, foi o homem responsável por este feito.
Convidado por Scorsese para fazer a trilha sonora de “A Última Tentação de Cristo”, Peter Gabriel resolveu dar um passo além. Em vez da simples música de fundo, concebeu um álbum com vida própria, mas respeitando a estética do filme. Gabriel ignorou a fórmula de orquestrações típicas das produções bíblicas e foi atrás do tipo de música que se fazia e ouvia na época em que a ação supostamente teria se passado. Também recrutou músicos turcos, armênios, africanos e árabes, além de buscar tesouros gravados pela Unesco. Sintetizadores e guitarras dão um toque dissonante, mas ao mesmo tempo familiar. O álbum pode ser resumido em uma única palavra: grandioso. Uma grandiosidade que valeu a Gabriel o Grammy de melhor disco de World Music.
A grandiosidade continuou sendo companheira de Peter Gabriel ao longo dos anos, desde quando ele fez o impecável “Us” (1992) até "Scratch my back", álbum lançado ano passado em que interpretava composições de outros artistas. Assim não foi surpresa ver a mesma grandiosidade no show que Peter Gabriel fez no festival de música SWU, apresentado pela TV na noite de domingo. No show, ele, simpaticamente, leu e só falou em português. E provou que o “New Blood” (Sangue Novo), título de seu último disco, está mesmo circulando em suas veias. A ousadia de se apresentar ao ar livre com uma orquestra por si só já mostrava a grandeza que ele queria alcançar. E conseguiu. O show, a exemplo do disco “New Blood”, reuniu canções que dispensavam elementos tradicionais do rock como guitarra e bateria. Com novos arranjos e ideias, as letras ficam ainda mais expostas e reveladoras do quão bom compositor é o ex-integrante do Genesis. O resultado é uma versão grandiosa, embora curta, sob acordes de violinos, violoncelos e afins, do que já era de dimensão inalcançável, a voz de Peter Gabriel. Ouvindo-a, ninguém imagina que quem está cantando é um senhor de 61 anos. Um dos grandes momentos foi a interpretação da música “Biko”, que o artista fez para a trilha sonora de “Um Grito de Liberdade”, realizado por Richard Attenborough em 1987 sobre o ativista pelos direitos dos negros na África do Sul, Steve Biko.
Vendo-o na TV, só sentia vontade de poder vê-lo ao vivo. Mas me contentei em alegrar minha manhã de segunda-feira ouvindo o disco “New Blood”, a trilha sonora de “A Última Tentação de Cristo”e para completar a overdose de Peter Gabriel revi o DVD de “Us”, que mostra os bastidores das gravações dos clips do CD do mesmo nome. Exagero. Sou meio tendente a explorar as coisas que gosto à exaustão (mentira... nunca me canso de ver e ouvir o que é bom).
Ouvir “New Blood” é sempre um prazer. O disco se apresenta como continuação à ideia de "Scratch my back" ao reinterpretar canções de maneira orquestral. Só que agora essas músicas são do próprio Peter Gabriel. “New Blood” traz arranjos reimaginados de muitas canções de Peter, que dispensam as armas tradicionais do arsenal do rock – sem guitarra, baixo ou bateria –, as letras são expostas e descobertas, muitas vezes tomando um novo significado com o passar dos anos. O álbum é aberto com "Downside Up", que Gabriel canta com a filha Melanie. Outra participação feminina é Anne Brun na música “Don’t Give Up”, (veja em http://www.youtube.com/watch?v=vLPlIxV7BrE). Gabriel já cantou a música nos palcos da vida com artistas como Tracy Chapman, Sinnead O’Connor e Kate Bush. Outro grande momento do disco é a faixa bônus Solsbury Hill (introduzida por “A Quiet Moment”, cinco minutos de som ambiente gravado pelo engenheiro, Dickie Chappell, antigo companheiro de Gabriel em outros trabalhos). O disco tem ainda "Digging In The Dirt", "Intruder", "Mercy Street", "The Rhythm of the Heat" e a atmosférica "San Jacinto”. Aliás, as que melhor receberam retoques são "San Jacinto", "Wallflower", "In Your Eyes" e "Red Rain".
Em tempo. O disco não tem uma versão orquestral de “Biko” cantada no SWU. Não faz falta. Mas faz falta uma regravação de “Come Talk To Me”, do disco “Us”. A música, que curiosamente relatava seus problemas com a filha Anna – que o culpava pelo divórcio dos pais - e tinha vocal de apoio por Sinéad O'Connor, atualmente é cantada por pai e filha nos show de Peter Gabriel.










Almodóvar se reinventa sem perder a essência




A força e a emoção sempre vistas nas obras do cineasta espanhol estão exatamente na coragem de escondê-las em “A Pele Que Habito”

Que Almodóvar é um dos cineastas mais criativos e renomados de sua época ninguém duvida e mesmo quando ele faz um filme fraco como “Abraços Partidos”, ainda fica acima da média das produções contemporâneas. “A Pele Que Habito”, a mais recente produção que leva a assinatura do cineasta espanhol é especial. Não somente por marcar a estreia de Almodóvar no gênero suspense, mas principalmente por provar que ele pode ser mais que drogas, travestis, cores fortes e mulheres sempre à beira de um ataque de nervos. “A Pele Que Habito” demonstra que Almodóvar pode mudar de gênero e inovar sua identidade, se reinventar, sem, contudo, perder sua essência.

No começo os admiradores do diretor podem até estranhar, mas com o desenrolar da trama vão perceber que estão diante do Almodóvar de sempre. As referências cinematográficas estão na produção. Almodóvar assumidamente usou influências de Alfred Hitchcock, Dario Argento, Luis Buñel e do horror “Os Olhos Sem Rosto” (1960), do francês Georges Franju e mesmo James Whale e sua produção, “A Noiva de Frankenstein” (no personagem de Robert, há uma paixão necrófila, muito parecida com o protagonista do romance de Mary Shelley). Embora o próprio cineasta tenha afirmado que “A Pele Que Habito” é sua primeira incursão pelo gênero suspense, há certa dificuldade de definir a produção em qualquer gênero pré-existente: terror, suspense, drama, romance. Na verdade o filme tem um pouco de tudo e tudo bem misturado.

Baseado no romance “Tarântula”, de Thierry Jonquet, “A Pele Que Habito” tem uma daquelas tramas sobre as quais não se deve falar em detalhes, sob o risco de estragar a experiência do espectador que gosta de ser surpreendido. Qualquer deslize pode resultar num spoiler. A produção se divide em duas tramas paralelas que aparentemente não tem ligação. Mas tudo se centra em Roberto Ledgard, o cirurgião plástico vivido por Antonio Banderas, que acaba de criar uma pele artificial. Suas pesquisas se tornaram perigosas no quesito da ética devido aos traumas em seu passado. Ledgard perdeu a mulher e a filha, a primeira em consequência de um acidente de carro, a segunda por traumas que se iniciaram com a morte da mãe e culminaram em uma tentativa de estupro. É inegável que Roberto é um homem perturbado e esconde mais segredos do que demonstra, sendo sempre amparado por sua governanta Marília, vivida por Marisa Paredes.

A verdade é que o roteiro, escrito pelo próprio Almodóvar, baseado no livro de Jonquet, começa de forma confusa. Não parece ter um objetivo exato, vai soltando informações na tela e cabe ao cinéfilo ir costurando estas informações para compreender o caminho, da mesma forma que o cirurgião vai costurando a pele de sua cobaia humana a que ele chama de Vera. Tudo é proposital e fará sentido no final, principalmente para quem presta atenção nas pistas deixadas pelo cineasta.

Para explicar a confusão ao espectador o diretor utiliza o velho recurso de flashbacks, recheados de pistas e mensagens subliminares que são interessantes de serem observadas. Quando os flashbacks começam, todo o enredo leva o espectador a uma viagem de abuso sexual sadomasoquista em vários níveis, desde o físico ao sociopata, passando pelo psicológico. As violações almodovarianas nunca são comuns. Almodóvar volta a trabalhar com suas obsessões, seu voyeurismo, sua identidade bifurcada, a ambiguidade sexual e as falhas do passado. E por que não dizer? Com seu humor e o kitsch que lhe são tão caros. De que outra forma explicar o bandido fantasiado de tigre e com sotaque brasileiro?

O bandido fantasiado de tigre é a essência da estética kitsch almodovariana em “A Pele Que Habito”. O cineasta troca os cenários exuberantes e coloridos por ambientes dotados de certa frieza austera que, segundo ele, contrasta com a atmosfera e narrativa absurda que permeia todo o longa. Até mesmo o figurino de Vera, assinado por Jean Paul Gaultier – que também já ficou responsável por criar as roupas de outros filmes do diretor, como “Kika” e ”Má Educação” –, vem mais discreto, mas não menos expressivo: apenas uma segunda-pele bege, tipo macacão, bem ajustada ao corpo, que parece sufocar e esconder o que há por debaixo da superfície. E as cores de Almodóvar, alvo de estudos acadêmicos, são substituídas pelo tom azul que permeia todo o filme. Ele aparece em todas as suas formas e tons. Se o vermelho exprime paixão, fogo e é uma cor quente, como nos longas do diretor, o azul traz frieza, tristeza, o blue que os americanos chamam de melancolia.

E o elenco segue o tom frio da história. As interpretações são contidas, sem emoções exacerbadas, ou paixões avassaladoras. Sem trabalhar com Almodóvar desde “Ata-Me” (1990), Antonio Banderas reencontra o diretor que o colocou em evidência no mundo do cinema e encara um personagem que foge – e muito – dos papéis aos quais foi reduzido por Hollywood. O reencontro de Almodóvar com Antonio Banderas resultou no melhor desempenho do ator desde que abandonou a Espanha e se estabeleceu em Hollywood. A dor e desespero escondidos dentro de sua personalidade impassível são de admirar. Difícil não sentir pena do médico e mesmo não se identificar com sua dor. Não é bom que um cineasta confronte-nos com o nosso lado mais sombrio quando percebemos que sentimos simpatia pelo vilão? Banderas amadureceu.

Por outro lado, a grande Elena Anaya (de “Fale com Ela”) confirma que é uma das grandes atrizes de sua época. Seu minimalismo expressivo, a maneira que Almodóvar explora o seu olhar, seus olhos, é admirável. Além de sua beleza física, há que se destacar a forma com que ela usa o corpo no papel. A personagem Vera é a mais difícil de toda a história em suas nuanças de estranhamento de uma cobaia humana que a gente não sabe exatamente de onde vem, nem para onde vai. Depois de conhecermos sua história admiramos ainda mais a interpretação. Marisa Paredes dispensaria comentários. Com sua naturalidade absoluta, ela dá à Marília um destaque que na pele de outra atriz teria passado despercebido. Menos diva e mais mulher.

Uma recomendação a quem for ver o filme: vá ao cinema de mente aberta.