domingo, 18 de dezembro de 2011

O tesouro musical de Amy Winehouse






Qualidade de “Lioness: Hidden Treasures” supera oportunismo dos produtores do disco póstumo da cantora britânica, lançado na segunda-feira, 5

Um disco póstumo lançado menos de seis meses após a prematura morte de Amy Winehouse e bem no período natalino? Dá para desconfiar da jogada pra lá de comercial. É realmente difícil não conceber o lançamento de “Lioness: Hidden Tre­asures” como um caça-níquel oportunista que aproveita a conveniência do Natal para pegar o boom das vendas de final de ano.

A desculpa dos produtores Salaam Remi e Mark Ronsons, encarregados de recompilar o material desse novo álbum, é que Amy deixou “uma coleção de temas que mereciam ser escutados” e que era um “verdadeiro legado” da cantora. O disco reúne gravações que Amy realizou antes, durante e após os lançamentos de seus dois únicos discos, “Frank” e “Back to Black”.

Independentemente da suposta ganância dos que lançaram o álbum, não dá para menosprezar a capacidade dos produtores envolvidos nesse projeto, simplesmente pelo fato dele ser muito bom. Embora tenha sido lançado em uma época duvidosa, é possível perceber que as intenções ali foram mais que financeiras. Também é compreensível essa “urgência”, já que não se tinha um novo álbum de Amy Winehouse há anos. E mesmo não trazendo Amy em seu auge, a coletânea tem momentos interessantes e contribui ao legado da inglesa, consolidado e que deve ser relembrado sempre.

Não que “Lioness: Hidden Treasures” seja um disco de inéditas. A maioria das faixas já é conhecida do público em versões demo ou gravações avulsas. Bom mesmo é saber que quando gravou as canções — grande parte delas — Amy ainda não tinha prejudicado sua voz com o excesso de bebida e drogas e por isso mesmo o disco destaca a segurança vocal da artista.

É comovente a serenidade que Amy Winehouse emprega, por exemplo, aos versos da versão reggae que faz de “Our Day Will Come”, clássico de Ruby and The Romantics que também fez sucesso na voz melodiosa de Karen Carpenter, do duo Carpenters. O registro que se ouve em “Lioness: Hidden Treasures” é de 2002 e nele Amy disserta com segurança sobre como — ironicamente — tempos melhores estariam por vir.

Outra canção que também fez sucesso na voz dos Carpenters é “A Song For You”, música de Leon Russell gravada pela primeira vez por Donny Hathaway. A voz está completamente diferente da música que abre o disco e isso se justifica pelo fato de Amy tê-la gravado quando estava sob o efeito das drogas em 2009, em um take, com Amy ao violão. Mas a voz ainda soa poderosa.

A dedicação e entrega da artista a homens de caráter duvidoso, presença constante em suas canções está em “Between The Cheats”. Sedutora, Amy canta que o rapaz, depois de muito tempo, “ainda a faz enrubescer”, e o coro masculino no refrão reforça a sensação de que ela parece voar em devaneios apaixonados. Amy registrou a canção em maio de 2008, para seu terceiro álbum, jamais lançado.

Para os brasileiros “Lioness: Hidden Treasures” traz um presente especial: ‘Garota de Ipanema”, maior sucesso comercial da dupla de compositores Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Referência inevitável de música brasileira para artistas estrangeiros, foi a primeira que Amy cantou aos 18 anos quando foi a Miami pela primeira vez para gravar com o produtor Salaam Remi em 2002. A cantora britânica abusa do scat singing — técnica de canto que consiste em se cantar vocalizando tanto sem palavras, quanto com palavras sem sentido e sílabas — no melhor estilo “badabauê”—, e o acompanhamento é sutil, de bateria e violão. Ao fundo, um arranjo de violinos. Mas quem desejava ver Amy cantando em português vai se desapontar. Ela interpreta a versão em inglês, “The Girl From Ipanema”, de Norman Gimbel.

“Will You Still Love Me Tomorrow” e “Valerie” representam as releituras mais conhecidas. Coverizando Carole King, Amy mostra que a letra de “Will You Still Love Me Tomorrow”, embora não seja sua, sempre ganha vida de forma autêntica em sua voz. A música foi gravada para a trilha sonora de “Bridget Jones 2 — A Idade da Razão”. A dúvida sobre o amor que lhe é dispensado traz uma certa ingenuidade: “Isso é um tesouro duradouro/Ou apenas um momento de pra­zer?/Posso acreditar na mágica de seus suspiros?/Você ainda vai me amar amanhã?”, cantou em 2004.

Um dos grandes serviços de Amy Winehouse à música foi alavancar as alturas “Valerie”, canção do grupo The Zuttons, de Liverpool. No CD ela é apresentada em uma versão mais lenta, registrada em dezembro de 2006. Amy gravou essa música de várias formas, mas é impossível achar um registro dessa canção, na voz de Winehouse, que seja apenas razoável. Amy tornou o cover mais interessante do que o original.

“Tears Dry” e “Wake Up Alone” pertencem à categoria de faixas demos. A primeira, uma versão menos “poderosa” de “Tears Dry On Their Own”, surge muito mais lenta, mas não menos honesta que a canção incluída depois no CD “Back to Black”. A gravação é de 2005. Já a segunda teve sua gravação como demo da primeira canção registrada especialmente para “Back to Black”, em março de 2006. Ela soa mais limpa e básica e funciona muito bem, ao transmitir a real angústia de sua criadora.

“Like Smoke”, um dos duetos do disco é a mais fraca da coletânea. Gravada em colaboração com o rapper Nas, em maio de 2008, parece narrar um embate fadado ao fracasso. O outro dueto, “Body and Soul”, que Amy gravou com o cantor americano Tony Bennett para o álbum “Duets II”, lançado em setembro, foi a última gravação oficial da cantora, feita em março de 2011. Um grande encontro de artistas.

“Best friends” é a música com a qual Amy abria os shows do álbum “Frank”, registro de fevereiro de 2003. O ritmo alegre esconde uma mensagem oposta: o descaso com o parceiro não é disfarçado e Amy desdenha, debocha, dizendo que no fim, eles “ainda são melhores amigos, certo?”.

Um dos grandes méritos de Amy Winehouse era conseguir transmitir o que sentia em absolutamente tudo o que cantava, estivesse em seu auge ou nos seus dias menos esperançosos. Esse álbum é a confirmação disso e, portanto, a confirmação de seu talento.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Emmylou Harris rumo ao décimo-terceiro Grammy




"Hard Bargain" resume o pensamento de Emmylou Harris não só sobre si mesma, mas também sobre gerações, mentores, amigos mortos, filhos e netos, mortalidade e fé
Emmylou quem? Você pode não conhecer Emmylou Harris, mas certamente já ouviu a voz desta extraordinária cantora. Afinal são nada menos do que 40 anos de carreira, 12 Grammy nas mais diversas categorias e parcerias musicais lendárias que vão de Gram Parsons, The Band, Linda Ronstadt, Roy Orbison, Dolly Parton, Mark Knopfler, Guy Clark, Donna Summer, Willie Nelson, Bob Dylan, Rodney Crowell, Vince Gil, Sheryl Crown, Lucinda Willians, Nancy Griffith e Neil Young. Sem contar o impressionante conjunto de trabalhos solos de fazer inveja aos colegas do cenário musical.
O décimo-terceiro Grammy pode ser levado para casa graças a Hard Bargain, (Nonesuch Records) indicado no último dia de novembro na categoria Best American Album (Melhor Disco Americano). Os concorrentes de Ms. Harris são fortes: “ Blessed”, de Lucinda Williams (Lost Highway Records); ”Pull Up Some Dust And Sit Down”, de Ry Cooder (Perro Verde Records LLC/Nonesuch); ”Ramble At The Ryman”, de Levon Helm (Vanguard/Dirt Farmer Music) e “Emotional Jukebox”, de Linda Chorney (Dance More Less War Records).
Emmylou Harris sempre pautou sua carreira pela simplicidade, nunca se rendeu às tentações do estrelato e ao longo dessa trajetória não faltaram elogios à sua gentileza de emprestar a voz a pequenos e grandes artistas aparecendo simplesmente como backing vocal. É esta mesma simplicidade que caracteriza “Hard Bargain”, o vigésimo-primeiro disco solo (sem contar as coletâneas de grandes sucessos, edições especiais...). Com o produtor Jay Joyce na guitarra e piano e Reaves Gilles na percussão, “Hard Bargain” tem como foco a voz de Harris, ainda transcendente aos 64 anos de idade. O disco é um dos três álbuns para os quais Harris escreveu a maioria das músicas: "Girl Red Dirt", em 2000, "Stumble into Grace,” em 2003 e agora “Hard Bargain” (ela também escreveu a maior parte do seu álbum de 1985, "The Ballad of Sally Rose", junto com seu marido na época, o compositor Paul Kennerley).
Os anos não diminuíram a pureza de sua voz que canta 11 canções originais e íntimas. Em “The Road”, por exemplo, ela lembra a parceria musical e sentimental com Gram Parsons. Olhando para trás ao longo dos anos ela canta "Ainda me lembro de todas as músicas que você cantou/ há muito tempo, quando éramos jovens / e nos divertíamos a noite toda". O relacionamento com Parsons, vale lembrar, já foi cantado por Emmylou Harris na clássica balada “Boulder to Birmingham".
Outra perda, esta mais recente, é descrita em "Darling Kate" - uma homenagem a uma velha amiga e colaboradora, Kate McGarrigle, cantora e compositora canadense de folk falecida em janeiro do ano passado. McGarrigle, mãe do cantor Rufus Wainwright era amiga de Harris desde os anos 70 e autora de “Lovis Is”, que Emmylou gravou em 1989. “Darling Kate” é um elogio lindo e comovente que evita ser piegas e fortalece a verdade emocional das outras canções do álbum que falam dos muitos desafios e armadilhas da vida.
Outra homenagem é "My Name Is Emmett Till", que conta a história de um rapaz negro de 14 anos brutalmente assassinado no Mississipi em 1955. O relato de Harris lamenta a vida que Till nunca pôde viver e imagina a geração que se lhe seguiria.
Uma balada-lamento, "Goodnight Old World", deposita esperanças num bebê recém-nascido para que ele "suavize a mágoa" deste "mundo triste"; Harris tem agora uma neta pequenina. A canção foi escrita com Will Jennings, conhecido por ter colaborado em canções de Steve Winwood.
O álbum também inclui "The Ship on His Arm", um romance valsante dos tempos da guerra. A história é inspirada nas vidas dos pais de Harris, Walter e Eugenia, que se casaram durante a Segunda Guerra Mundial. Ele era fuzileiro.
Duas das canções mais reveladoras de "Hard Bargain" versam sobre mulheres solitárias: "Nobody", que conta a vida de uma pessoa que nunca encontra "o seu único e grande amor", e "Lonely Girl": "If love can''t find me again/I''ll put it all behind me then/ "I''ll just go and learn to sing another sad love song". ("Se o amor não pode me encontrar de novo / Eu vou colocar tudo atrás de mim, então / Eu vou aprender a cantar outra canção de amor triste."
Apenas duas das 13 músicas do disco são regravações. A faixa título é um sucesso da carreira do canadense Rom Sexsmith e cantanda de forma deliciosamente descontraída por Ms Harris, acompanhada pelo banjo e guitarra. “Cross Yourself”, de Jay Joyce, é outra grande interpretação da artista.
"Hard Bargain" é o primeiro lançamento de Emmylou Harris nos últimos três anos e valeu a pena esperar. Sua voz continua suave e extremamente emotiva, daquelas que torna agradável qualquer canção. As músicas são bem escritas e ouvindo o disco é difícil acreditar que há apenas três pessoas, incluindo Emmylou, fazendo toda aquela música. São longas notas de violino, acordes de pianos equilibrados com a voz melodiosa e um ou outro som de banjo e bandolim. A percussão é sutilmente inteligente. A força e a sinceridade vocal de Emmylou Harris fazem de “Hard Bargain” mais um bom motivo para amar e admirar essa grande artista.
A propósito. O CD pode ser encontrado em versão simples e edição especial, com o CD de áudio e DVD com apresentações ao vivo de seis canções e uma entrevista exclusiva com a artista.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A grandiosidade de Peter Gabriel







Sucesso no festival SWU, o ex-vocalista do Genesis injeta ““New Blood”” (sangue novo) em suas músicas, dispensando guitarra, baixo ou bateria



A primeira vez que ouvi Peter Gabriel foi em uma sala escura de cinema. Era 1990 e eu estava assistindo “A Última Tentação de Cristo”, que Martin Scorsese havia realizado no ano anterior. O filme de Martin Scorsese foi claramente a obra cinematográfica mais controversa da década de 80. Para realizá-la, o diretor baseou-se no polêmico livro do homônimo, do grego Nikos Kazantzakis, publicado em 1953, no qual a vida de Jesus Cristo era descrita de forma bem diferente da habitual, sujeita a diversas tentações como medo, dúvida e até mesmo luxúria. Controvérsias à parte, a produção conseguiu gerar uma unanimidade avassaladora em torno da sua trilha sonora original, um dos mais decisivos marcos da “World Music”, que até então se havia mantido quase inexplorada. E Peter Gabriel, o ex-vocalista do Genesis, um dos mais importantes e vanguardistas artistas da cena musical mundial nos anos 80, foi o homem responsável por este feito.
Convidado por Scorsese para fazer a trilha sonora de “A Última Tentação de Cristo”, Peter Gabriel resolveu dar um passo além. Em vez da simples música de fundo, concebeu um álbum com vida própria, mas respeitando a estética do filme. Gabriel ignorou a fórmula de orquestrações típicas das produções bíblicas e foi atrás do tipo de música que se fazia e ouvia na época em que a ação supostamente teria se passado. Também recrutou músicos turcos, armênios, africanos e árabes, além de buscar tesouros gravados pela Unesco. Sintetizadores e guitarras dão um toque dissonante, mas ao mesmo tempo familiar. O álbum pode ser resumido em uma única palavra: grandioso. Uma grandiosidade que valeu a Gabriel o Grammy de melhor disco de World Music.
A grandiosidade continuou sendo companheira de Peter Gabriel ao longo dos anos, desde quando ele fez o impecável “Us” (1992) até "Scratch my back", álbum lançado ano passado em que interpretava composições de outros artistas. Assim não foi surpresa ver a mesma grandiosidade no show que Peter Gabriel fez no festival de música SWU, apresentado pela TV na noite de domingo. No show, ele, simpaticamente, leu e só falou em português. E provou que o “New Blood” (Sangue Novo), título de seu último disco, está mesmo circulando em suas veias. A ousadia de se apresentar ao ar livre com uma orquestra por si só já mostrava a grandeza que ele queria alcançar. E conseguiu. O show, a exemplo do disco “New Blood”, reuniu canções que dispensavam elementos tradicionais do rock como guitarra e bateria. Com novos arranjos e ideias, as letras ficam ainda mais expostas e reveladoras do quão bom compositor é o ex-integrante do Genesis. O resultado é uma versão grandiosa, embora curta, sob acordes de violinos, violoncelos e afins, do que já era de dimensão inalcançável, a voz de Peter Gabriel. Ouvindo-a, ninguém imagina que quem está cantando é um senhor de 61 anos. Um dos grandes momentos foi a interpretação da música “Biko”, que o artista fez para a trilha sonora de “Um Grito de Liberdade”, realizado por Richard Attenborough em 1987 sobre o ativista pelos direitos dos negros na África do Sul, Steve Biko.
Vendo-o na TV, só sentia vontade de poder vê-lo ao vivo. Mas me contentei em alegrar minha manhã de segunda-feira ouvindo o disco “New Blood”, a trilha sonora de “A Última Tentação de Cristo”e para completar a overdose de Peter Gabriel revi o DVD de “Us”, que mostra os bastidores das gravações dos clips do CD do mesmo nome. Exagero. Sou meio tendente a explorar as coisas que gosto à exaustão (mentira... nunca me canso de ver e ouvir o que é bom).
Ouvir “New Blood” é sempre um prazer. O disco se apresenta como continuação à ideia de "Scratch my back" ao reinterpretar canções de maneira orquestral. Só que agora essas músicas são do próprio Peter Gabriel. “New Blood” traz arranjos reimaginados de muitas canções de Peter, que dispensam as armas tradicionais do arsenal do rock – sem guitarra, baixo ou bateria –, as letras são expostas e descobertas, muitas vezes tomando um novo significado com o passar dos anos. O álbum é aberto com "Downside Up", que Gabriel canta com a filha Melanie. Outra participação feminina é Anne Brun na música “Don’t Give Up”, (veja em http://www.youtube.com/watch?v=vLPlIxV7BrE). Gabriel já cantou a música nos palcos da vida com artistas como Tracy Chapman, Sinnead O’Connor e Kate Bush. Outro grande momento do disco é a faixa bônus Solsbury Hill (introduzida por “A Quiet Moment”, cinco minutos de som ambiente gravado pelo engenheiro, Dickie Chappell, antigo companheiro de Gabriel em outros trabalhos). O disco tem ainda "Digging In The Dirt", "Intruder", "Mercy Street", "The Rhythm of the Heat" e a atmosférica "San Jacinto”. Aliás, as que melhor receberam retoques são "San Jacinto", "Wallflower", "In Your Eyes" e "Red Rain".
Em tempo. O disco não tem uma versão orquestral de “Biko” cantada no SWU. Não faz falta. Mas faz falta uma regravação de “Come Talk To Me”, do disco “Us”. A música, que curiosamente relatava seus problemas com a filha Anna – que o culpava pelo divórcio dos pais - e tinha vocal de apoio por Sinéad O'Connor, atualmente é cantada por pai e filha nos show de Peter Gabriel.










Almodóvar se reinventa sem perder a essência




A força e a emoção sempre vistas nas obras do cineasta espanhol estão exatamente na coragem de escondê-las em “A Pele Que Habito”

Que Almodóvar é um dos cineastas mais criativos e renomados de sua época ninguém duvida e mesmo quando ele faz um filme fraco como “Abraços Partidos”, ainda fica acima da média das produções contemporâneas. “A Pele Que Habito”, a mais recente produção que leva a assinatura do cineasta espanhol é especial. Não somente por marcar a estreia de Almodóvar no gênero suspense, mas principalmente por provar que ele pode ser mais que drogas, travestis, cores fortes e mulheres sempre à beira de um ataque de nervos. “A Pele Que Habito” demonstra que Almodóvar pode mudar de gênero e inovar sua identidade, se reinventar, sem, contudo, perder sua essência.

No começo os admiradores do diretor podem até estranhar, mas com o desenrolar da trama vão perceber que estão diante do Almodóvar de sempre. As referências cinematográficas estão na produção. Almodóvar assumidamente usou influências de Alfred Hitchcock, Dario Argento, Luis Buñel e do horror “Os Olhos Sem Rosto” (1960), do francês Georges Franju e mesmo James Whale e sua produção, “A Noiva de Frankenstein” (no personagem de Robert, há uma paixão necrófila, muito parecida com o protagonista do romance de Mary Shelley). Embora o próprio cineasta tenha afirmado que “A Pele Que Habito” é sua primeira incursão pelo gênero suspense, há certa dificuldade de definir a produção em qualquer gênero pré-existente: terror, suspense, drama, romance. Na verdade o filme tem um pouco de tudo e tudo bem misturado.

Baseado no romance “Tarântula”, de Thierry Jonquet, “A Pele Que Habito” tem uma daquelas tramas sobre as quais não se deve falar em detalhes, sob o risco de estragar a experiência do espectador que gosta de ser surpreendido. Qualquer deslize pode resultar num spoiler. A produção se divide em duas tramas paralelas que aparentemente não tem ligação. Mas tudo se centra em Roberto Ledgard, o cirurgião plástico vivido por Antonio Banderas, que acaba de criar uma pele artificial. Suas pesquisas se tornaram perigosas no quesito da ética devido aos traumas em seu passado. Ledgard perdeu a mulher e a filha, a primeira em consequência de um acidente de carro, a segunda por traumas que se iniciaram com a morte da mãe e culminaram em uma tentativa de estupro. É inegável que Roberto é um homem perturbado e esconde mais segredos do que demonstra, sendo sempre amparado por sua governanta Marília, vivida por Marisa Paredes.

A verdade é que o roteiro, escrito pelo próprio Almodóvar, baseado no livro de Jonquet, começa de forma confusa. Não parece ter um objetivo exato, vai soltando informações na tela e cabe ao cinéfilo ir costurando estas informações para compreender o caminho, da mesma forma que o cirurgião vai costurando a pele de sua cobaia humana a que ele chama de Vera. Tudo é proposital e fará sentido no final, principalmente para quem presta atenção nas pistas deixadas pelo cineasta.

Para explicar a confusão ao espectador o diretor utiliza o velho recurso de flashbacks, recheados de pistas e mensagens subliminares que são interessantes de serem observadas. Quando os flashbacks começam, todo o enredo leva o espectador a uma viagem de abuso sexual sadomasoquista em vários níveis, desde o físico ao sociopata, passando pelo psicológico. As violações almodovarianas nunca são comuns. Almodóvar volta a trabalhar com suas obsessões, seu voyeurismo, sua identidade bifurcada, a ambiguidade sexual e as falhas do passado. E por que não dizer? Com seu humor e o kitsch que lhe são tão caros. De que outra forma explicar o bandido fantasiado de tigre e com sotaque brasileiro?

O bandido fantasiado de tigre é a essência da estética kitsch almodovariana em “A Pele Que Habito”. O cineasta troca os cenários exuberantes e coloridos por ambientes dotados de certa frieza austera que, segundo ele, contrasta com a atmosfera e narrativa absurda que permeia todo o longa. Até mesmo o figurino de Vera, assinado por Jean Paul Gaultier – que também já ficou responsável por criar as roupas de outros filmes do diretor, como “Kika” e ”Má Educação” –, vem mais discreto, mas não menos expressivo: apenas uma segunda-pele bege, tipo macacão, bem ajustada ao corpo, que parece sufocar e esconder o que há por debaixo da superfície. E as cores de Almodóvar, alvo de estudos acadêmicos, são substituídas pelo tom azul que permeia todo o filme. Ele aparece em todas as suas formas e tons. Se o vermelho exprime paixão, fogo e é uma cor quente, como nos longas do diretor, o azul traz frieza, tristeza, o blue que os americanos chamam de melancolia.

E o elenco segue o tom frio da história. As interpretações são contidas, sem emoções exacerbadas, ou paixões avassaladoras. Sem trabalhar com Almodóvar desde “Ata-Me” (1990), Antonio Banderas reencontra o diretor que o colocou em evidência no mundo do cinema e encara um personagem que foge – e muito – dos papéis aos quais foi reduzido por Hollywood. O reencontro de Almodóvar com Antonio Banderas resultou no melhor desempenho do ator desde que abandonou a Espanha e se estabeleceu em Hollywood. A dor e desespero escondidos dentro de sua personalidade impassível são de admirar. Difícil não sentir pena do médico e mesmo não se identificar com sua dor. Não é bom que um cineasta confronte-nos com o nosso lado mais sombrio quando percebemos que sentimos simpatia pelo vilão? Banderas amadureceu.

Por outro lado, a grande Elena Anaya (de “Fale com Ela”) confirma que é uma das grandes atrizes de sua época. Seu minimalismo expressivo, a maneira que Almodóvar explora o seu olhar, seus olhos, é admirável. Além de sua beleza física, há que se destacar a forma com que ela usa o corpo no papel. A personagem Vera é a mais difícil de toda a história em suas nuanças de estranhamento de uma cobaia humana que a gente não sabe exatamente de onde vem, nem para onde vai. Depois de conhecermos sua história admiramos ainda mais a interpretação. Marisa Paredes dispensaria comentários. Com sua naturalidade absoluta, ela dá à Marília um destaque que na pele de outra atriz teria passado despercebido. Menos diva e mais mulher.

Uma recomendação a quem for ver o filme: vá ao cinema de mente aberta.

sábado, 10 de setembro de 2011

A teoria da involução








“Planeta dos Macacos: A Origem” chega às telas honrando a mitologia da série e exibindo atrativos para seduzir uma nova geração de seguidores


O cinéfilo maior de 40 que fica com um pé atrás com os filmes nos quais os protagonistas são os efeitos especiais de última geração pode até pensar duas vezes antes de resolver conferir o blockbuster “O Planeta dos Macacos — A Origem”, de Rupert Wyatt. Mas quando se lembrar da cena final de “O Planeta dos Macacos”, que Franklin J. Schaffner dirigiu em 1968 com Charlton Heston, certamente vai querer saber como e porque chegamos ao ponto em que a Estátua da Liberdade está enterrada na areia, ou Abe Lincoln virou “Ape” Lincoln. A chocante cena final comprova para o incrédulo protagonista, o astronauta George Taylor, que ele está na Terra dominada pelos primatas e não em um planeta misterioso, no qual a Teoria da Evolução teve outro desdobramento.

Em “O Planeta dos Ma¬cacos — A Origem” o diretor Ruppert Wyatt retoma a saga reinventando o argumento do quarto dos cinco filmes da cine série, “A Conquista do Planeta dos Macacos” (1972), que mostra o início da revolta comandada pelo chimpanzé Ceaser e o fim do reinado dos humanos sobre a Terra. Escrito por Amanda Silver e Rick Jaffa (sempre inspirados no livro de Pierre Boulle), o roteiro tem início ilustrando a captura da símia Olhos Brilhantes (numa referência a forma como a Dra. Zira chamava Taylor na obra original). A sequência já estabelece a relação de antagonismo/submissão entre humanos e macacos que dominará a narrativa. Depois o espectador é apresentado ao cientista Will Rodman (James Franco), que está prestes a desenvolver um vírus que poderá curar o mal de alzheimer — doença que afeta seu pai, o músico Charles (John Lithgow). Durante os testes com Olhos Brilhantes, porém, Will percebe que o tratamento aumenta incrivelmente a inteligência da cobaia, que passa esta característica ao filhote Ceaser antes de ser morta num incidente no laboratório. A fim de evitar que o chimpanzé seja sacrificado, o cientista adota-o, percebendo, com o tempo, que suas habilidades cognitivas continuam a crescer exponencialmente, até que um confronto com um vizinho tira o animal de suas mãos e leva Ceaser a abandonar a docilidade habitual.

É claro que uma das grandes responsáveis pelo sucesso do filme é a tecnologia, cujas possibilidades fazem cada expressão dos macacos digitais parecer real e impressionar o público. Com a famosa técnica de motion capture, Wyatt conseguiu escapar das armadilhas que derrubaram o tarimbado Tim Bur¬ton, autor, em 2001, de uma decepcionante refilmagem do seminal filme de Franklin J. Schaffner em que os atores vestem trajes de macacos. Graças aos efeitos especiais da Wetta Digital — a empresa neozelandesa fundada por Peter Jackson e utilizada em massa na trilogia “O Senhor dos Anéis” (2001-2003), “King Kong” (2005) e “Avatar” (2009) —, nunca antes personagens criados em computação gráfica tiveram tanta credibilidade. Aqui, apesar de Ceaser ser uma criação virtual, a base para sua existência são os movimentos do corpo de Andy Serkis, que foram capturados pela câmera e trabalhados em softwares de animação, dando uma verossimilhança inédita e surpreendente. O olhar de Ceaser expressa um descontentamento doloroso frente ao seu criador e ganha ares apocalípticos quando um lancinante e gutural não explode de sua boca. Destaque para a contrariedade de Ceaser ao usar a coleira, o medo que exibe ao ver-se sozinho num ambiente desconhecido ou o espanto que sente diante dos próprios impulsos de violência.

Antes de “O Planeta dos Macacos — A Origem”, um dos maiores obstáculos da Wetta Digital eram os olhos de suas criaturas digitais. Aqui, além de exibirem movimentos repletos de sutilezas e significados (novamente responsabilidade de Serkis e seus companheiros de elenco), os olhos dos símios exibem brilho e vitalidade fundamentais para convencer o público de que há um ser vivo por trás deles. Neste sentido vale ressaltar a decisão certeira dos realizadores de modificar a cor e aumentar o reflexo da íris dos macacos “infectados”, o que serve para diferenciá-los dos parentes normais e para torná-los mais... humanos (?).

Não é exagero dizer que o desempenho do macaco é melhor que o trabalho dos atores de carne e osso. As sequências em que Ceaser e seus companheiros símios estão sozinhos em cena, sem interferência humana, são as melhores do filme. A exceção fica por conta de John Lithgow que encarna com ternura Charles Rodman, pai de Will, que sofre diariamente com o mal de Alzheimer. A emocionante relação desenvolvida entre Ceaser e Charles, levada ao ápice na cena em que o animal o salva da fúria de um vizinho, é a prova incontestável do domínio dos dois intérpretes (o chimpazé Serkis e Lithgow) sobre seus papéis.

O roteiro é bastante focado nesta relação homem-animal. O macaco não é o vilão da história e sim o homem e seu complexo de Deus. Ceaser é apenas vítima de um mundo que não compreende. Ele vive no limiar entre o humano e o animal. Às vezes parece racional, sensível e brincalhão, mas também pode dar vazão aos seus instintos animais, principalmente quando vê “sua família” em perigo. O que ele não entende é porque as mesmas pessoas que lhe dão carinho também subjugam os da sua espécie. O ser humano (?) por sua vez não poderia ser mais bestial. Dodge (Tom Felton), que trata dos macacos dispara jatos de águas com uma mangueira, também em uma referência ao original de 1968, em que os macacos controlavam os humanos com jatos d´água. Outro humano de comportamento bestial é o vizinho do pai de Will, cuja ação acaba por mudar o rumo da história. É dele também a ação que dá gancho a uma possível e provável continuação da saga dos macacos.

É claro que os protagonistas humanos têm seu valor e formam o verdadeiro elo com a moralidade, embora use os animais como cobaia. Ele representa a necessidade que o homem tem de encontrar solução para todos os problemas simplesmente pelo medo que eles têm de sua própria vulnerabilidade, um medo que não é tão real para os macacos, que veem o mundo de uma forma mais básica e primitiva, ainda que sejam dotados de inteligência.

Curiosamente o filme chega às telas nacionais um mês depois de a Academia de Ciências Médicas da Grã-Bretanha ter publicado um pedido ao governo britânico para repensar as leis que regem as pesquisas médicas com animais. Entre as preocupações dos cientistas ingleses está a possível criação de animais com inteligência humana.

O professor Thomas Baldwin, um dos membros da academia, disse à BBC que o grupo teme “que se comece a introduzir um grande número de células cerebrais humanas no cérebro de primatas e que isso faça com os que os primatas adquiram algumas das capacidades que se consideram exclusivamente humanas, como a linguagem”. Apesar de ser uma preocupação em longo prazo, o professor acredita que já devemos começar a pensar em como regular estas pesquisas.

Uma das grandes premissas da cine série original era justamente o tema sobre a exploração de animais, seja para experimentos científicos ou medicinais, seja para exibição. No original, a Dra. Zira questionava o uso de humanos em experimentos. A primeira parte do filme é povoada de cenas de laboratório e discussões sobre os limites éticos do uso de animais em experiências científicas. Pena que o filme acabe relegando essa discussão a segundo plano, preferindo enfatizar os efeitos especiais que criam cenas espetaculosas de Ceasar comandando seus legionários rebelados. O clímax dos efeitos especiais está na batalha na Golden Gate. Táticas militares de ambos os lados, sacrifícios, mortes festejadas (do vilão, naturalmente), cavalos e pólvora para lá e para cá, aquela correria e o imune humano assistindo o inevitável. São sequências de ação brilhante que deixam o público torcendo pela vitória dos símios. Quem prestou atenção no roteiro vai lembrar de uma cena em que aparecem no filme notícias de uma missão tripulada à Marte e de que a nave se perdeu no espaço, uma brecha para uma continuação na qual os astronautas voltarão à Terra e encontrarão macacos inteligentes.

O respeito sutil de Wyatt para a filmografia original será notada pelos fãs da franquia. As cenas de metalinguagem são muitas. Vai de uma homenagem a Charlton Heston, que aparece em um filme antigo que está passando na TV, a Ceasar, ainda pequeno, brincando com uma estátua da liberdade. Outras são ainda mais sutis: O nome do personagem de Tom Felton é Dodge Landon, referência para Dodge (Jeff Burton) e Landon (Robert Gunner), colegas de Taylor em “Planeta dos Macacos”. A melhor referência para mim foi a frase “tire suas mãos de mim, seu macaco sujo”, da mesma maneira que foi falada no filme original, só que em outra situação. Gostei do filme e da homenagem. É verdade que é uma produção no melhor estilo dos blockbusters, mas felizmente repleto de agradáveis referências e com uma trama bem equilibrada e cheia de conteúdo para refletir.

sábado, 27 de agosto de 2011

Poesia, um bom filme para o final de semana





Poesia, filme que ganhou o prêmio de melhor roteiro no festival de Cannes de 2011. Dirigido por dirigido por Lee Chang-dong o filme impressiona por ser simples, mas tratar com grande complexidade as relações humanas. O longa-metragem conta a história de Soon-Mi (Yoon Hee-jeong), uma senhora de 65 anos, moradora do subúrbio de Seul, que tem de conciliar o trabalho e a criação de um neto adolescente e problemático, que foi deixado pela mãe. Para ganhar a vida, Soon-Mi trabalha como doméstica e cuidadora de um idoso doente. Repentinamente, ela decide se matricular em um curso de poesia e é desafiada a escrever e ter um novo olhar sobre a vida, enquanto enfrenta uma realidade dura e a notícia de que está com mal de Alzheimer.

Por que ver? Pela delicadeza com a qual a personagem enfrenta o choque de realidade. Ao mesmo tempo em que a avó começa a se envolver com o mundo poético e parece querer distância dos problemas, ela é surpreendida pela notícia de que seu neto, junto com outros alunos, é acusado de ter violentado uma garota na escola, precisa arrumar dinheiro para uma indenização e conseguir apoio da filha ausente. A protagonistaé uma das atrizes mais famosas da Coreia do Sul.


Adele canta o amor incondicional




“21”, de Adele, é marcado por canções inspiradas em desilusões amorosas que retratam todas as fases do término de um relacionamento

Impossível falar da cantora britânica Adele (Adele Laurie Blue Adkins) sem citar Amy Winehouse. Elas têm muito em comum, a começar pelo fato de terem feito sucesso antes dos 21 anos, passando pelo forte talento vocal e a influência da música negra americana de décadas atrás. Ainda a se destacar o fato das músicas de ambas serem basicamente inspiradas nas desventuras amorosas das artistas, que expressam, em tom confessional, diferentes graus de dor de cotovelo, revelando personalidades fortes e agitadas.

Dúvida? Que tal ouvir “21”, multiplatinado álbum que Adele lançou no início do ano. Se em “19”, lançado quando a cantora tinha 19, a poderosa voz de Adele era a grande estrela em meio a um instrumental minimalista, em “21” a maior arma da cantora divide harmoniosamente o espaço com a produção de Rick Rubin que já assinou produções de trabalhos de artistas de todos os gêneros, de Johnny Cash a Metallica, passando por Beastie Boys e Rage Against The Machine. Rubin dividiu a produção com Paul Epworth, que já fez remixes para artistas como Florence, The Machine e U2. A evolução musical foi importante para salientar o novo caminho trilhado pela cantora.

O que se vê em “21” é que a produção de Paul Epworth e do mago Rick Rubin fez bem às novas músicas de Adele, que parecem mais bem resolvidas do que em seu álbum de estreia, com a artista assumindo com mais segurança o seu lado pop. Parece estranho, mas Rick Rubin fez com Adele o mesmo que fez pelo Linkin Park. A banda, que estava perdida e procurando por uma nova sonoridade, encontrou aquilo que sempre quis ser sob a produção de Rick Rubin, e foi isso que aconteceu com Adele. A cantora encontrou seu rumo e finalmente consegue colocar para fora todo o seu talento.

“21” — o título, como o do álbum anterior, revela a idade — também evidencia que a cantora gosta, tanto quanto Amy, da soul music americana dos anos 1960. Mas é um disco que soa bem menos retrô do que o “Back to Black” que consagrou Amy. A música de Adele parece carregar muito menos o peso dos próprios dramas do que a de Amy, embora Adele cante suas desilusões amorosas e confesse que algumas canções foram escritas depois de algumas doses de álcool, na esteira do fim de um relacionamento com um homem mais velho.

Resultado: “21” é um disco quase conceitual sobre as agruras de crescer e sobre os dolorosos pés na bunda que fazem parte do processo. As canções são entremeadas por refrões cantaroláveis que expõem sentimentos de negação do término da relação (“Rumour has it”), inconformismo (“He won’t go”), supressão do superego (na bela “Don’t you remember” ), onde ela pede ao namorado que se lembre dela mais uma vez e em “I’ll be waiting”, onde, sem orgulho nenhum, pede ao namorado que a deixe ficar mais uma noite. Até mesmo “Lovesong”, cover do The Cure executada em um clima de banquinho e violão, se encaixa perfeitamente no tema do álbum. Adele canta com intensidade tanto as canções mais balançadas (“Rumour Has It” e “I’ll Be Waiting”) quanto as mais dolentes (“Turning Tables” e “Don’t You Remember”).

Além do soul marcante de seu primeiro trabalho, em “21” Adele é claramente influenciada pelo country dos Estados Unidos, país onde foi recebida de braços abertos. Exemplo claro dessa mistura de influências é “Rolling in the deep”, o primeiro — e ótimo — single do disco. Segundo a crítica da revista “Billboard”, “Rolling in the deep” dificilmente será superada como a melhor música de 2011. A canção conta com dezenas de releituras na internet, gravadas por ilustres desconhecidos e até por gente já consagrada no métiers, como o americano John Legend.

“19” era um álbum encantador, é verdade, mas só tem duas músicas realmente memoráveis, “Chasing Pavements” e “Hometown Glory”. Já sobre “21” pode se dizer mais do que isso. Impossível ouvir só uma vez “Rolling In The Deep” (que a artista define como uma música “dark bluesy gospel disco tune”), “Turning Tables”, “Don’t You Remember” e “Lovesong”, o cover do The Cure. “21” é um álbum sobre amor incondicional. As pessoas podem ficar para trás, assim como as histórias, mas as sensações e lembranças permanecem — nem que seja apenas no eco da voz de uma grande artista.