segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Mike Myers decreta a volta de Austin Powers



O agente secreto Austin Powers vai voltar! O ator Mike Myers, que criou e interpretou o personagem em três longas, assinou contrato para filmar a quarta aventura do espião. Ainda não se sabe qual é a trama, mas um roteiro antigo centralizava a história em Dr. Evil, o vilão interpretado também por Myers, e seu filho, Seth Green. Já que assinou contrato, é bem provável que o roteiro já esteja pronto, ou pelo menos o esboço dele. O diretor Jay Roach, que dirigiu todas as três aventuras, pode retornar.

O personagem Austin Powers foi criado por Mike Myers para homenagear o espião 007. Como seu colega de espionagem britânica, Austin enfrenta o perigo sem medo e exerce um fascínio sobre as mulheres. Os cartazes e muitas fotos de divulgação dos filmes lembram os das aventuras de James Bond. O primeiro filme, Austin Powers – Um Agente Nada Discreto, de 1997, saiu diretamente em vídeo. Lembro que o aluguei em uma “finada” locadora perto de minha casa. Como sou fã de James Bond, a paródia me parecia interessante.

Na primeira aventura, Austin Powers vivia nos anos 60, na Inglaterra, no auge da psicodelia. Ele consegue derrotar o terrível Dr. Evil e se oferece para ser congelado, caso o vilão retorne. Obviamente, ele retorna e Austin é descongelado 30 anos depois. Com sua roupa e gírias divertidas, o espião percebe que muita coisa mudou no mundo durante o período em que esteve congelado. Mike Myers conseguiu criar um personagem adorável e engraçado, e o primeiro filme é divertido na medida certa.

Mesmo saindo diretamente em vídeo no Brasil, o filme fez sucesso em outras partes do mundo e então veio a segunda aventura, com o título infame: Austin Powers – O Agente “Bond” Cama. Aí veio a consagração mundial. O longa estorou nas bilheterias e nas pistas de dança, já que Madonna cantava a animada música tema. Em O Agente “Bond” Cama, Austin Powers deveria impedir Dr. Evil, que planejava disparar um raio laser sobre a Terra. Mas o vilão havia roubado o “mojo” (espécie de hormônio sexual) do personagem, o enfraquecendo. O agente precisava então voltar ao passado para recuperá-la. Apesar do sucesso, esta segunda aventura já não tinha o frescor do primeiro longa.

Como o sucesso sempre leva a uma nova sequência, em 2002, chegou aos cinemas Austin Powers em O Homem do Membro de Ouro. Nesta nova aventura, Mike Myers tem a cantora Byoncé como interesse romântico e deve derrotar Goldmember. Mais uma vez, Dr. Evil se alia ao vilão para conquistar o mundo. Eles planejam sequestrar o pai de Austin Powers, interpretado por Michael Caine.

O terceiro não foi bem nas bilheterias. Isso explica porque só agora, quase 10 anos depois, é que Mike Myers decreta a volta do personagem.

Os vencedores de Gramado





Caio Blat e Lúcia Murat recebem Kikito pelo filme Uma Longa Viagem (Gabriela Di Bella/PressPhoto)




Achei interessante postar a lista dos vencedores do festival de Gramado. Como não conheço os filmes que estavam em competição, não há o que se comentar sobre a premiação.



Longa-metragem Nacional
Melhor filme em longa-metragem brasileiro: Uma Longa Viagem, de Lucia Murat
Melhor montagem: Leonardo Sette, por As Hiper Mulheres.
Melhor fotografia: Roberto Henkin, por O Carteiro.
Melhor roteiro: Gustavo Pizzi e Karine Teles, por Riscado.
Melhor atriz: Karine Teles por Riscado.
Melhor ator: Caio Blat, por Uma Longa Viagem.
Melhor diretor: Gustavo Pizzi, por Riscado.
Especial do júri: As Hiper Mulheres, de Leonardo Sette, Carlos Fausto e Takumã Kuikuro.

Longa-metragem Estrangeiro
Melhor fotografia: Serguei Saldivar Tanaka, por La lección de Pintura.
Melhor roteiro: Sebastián Hiriart, por A Tiro de Piedra.
Melhor atriz: Margarida Rosa de Francisco, por García.
Melhor ator: Gabino Rodríguez, por A Tiro de Piedra.
Melhor diretor: Gustavo Taretto, por Medianeiras, e Sebastián Hiriart, por A Tiro de Piedra.
Especial do júri: Las Malas Intenciones, de Rosario Garcia-Montero.
Melhor filme longa-metragem estrangeiro: Medianeiras, de Gustavo Taretto.

Curta 35mm e Digital
Melhor filme: Carreto, de Claudio Marques e Marilia Hughes e Haruo Ohara, de Rodrigo Grota
Melhor montagem: Mair Tavares e Tina Saphira, por Um Outro Ensaio.
Melhor fotografia: Jacques Dequeker, por Polaroid Circus.
Melhor roteiro: Rodrigo John, por Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo.
Melhor atriz: Dira Paes em Ribeirinhos do Asfalto.
Melhor ator: José Wilker em A Melhor Idade.
Especial do júri: Rivelino, de Marcos Fábio Katudjian.
Melhor diretor: Natara Ney por Um Outro Ensaio.
Melhor filme curta-metragem: Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, de Rodrigo John.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Melancolia exibe conflito existencial de proporções apocalípticas




Filme de Lars Von Trier é uma alegoria da inconformidade do homem com seu inescapável fim

“Melancolia”, filme em cartaz no Cine Lumiere, é apresentado como uma produção sobre o fim do mundo, tema recorrente do cinema mundial. O “mas” da questão é o fato de ser dirigido pelo dinamarquês Lars Von Trier. Isso faz toda a diferença. Claro que o filme tem efeitos especiais impactantes como a da colisão do planeta Melancolia com a Terra. Em sua essência, porém, o filme é um ensaio sobre a catastrófica condição do ser humano em entender sua própria finitude.
Quase obscurecido pela polêmica em torno do suposto nazismo de Lars Von Trier, que ele revelou na coletiva de imprensa do filme, quando de sua exibição no festival de Cannes do ano passado – o que provocou sua expulsão do evento –, Melancolia entra nos cinemas do Brasil em tempo recorde. O filme ainda vai estrear nos Estados Unidos em novembro e até mesmo na Europa só chegou a poucos países. Melhor para os cinéfilos brasileiros, que têm a chance de ver primeiro o excelente filme do diretor dinamarquês, que é um grande cineasta, independentemente de suas polêmicas declarações. E vale lembrar que o cineasta foi expulso de Cannes, mas a produção continuou na competição e acabou arrebatando o prêmio de melhor atriz, entregue a Kirsten Dunst, merecidamente. Não fosse o título de ”persona non grata” conquistado contra sua vontade, Von Trier teria provavelmente levado uma Palma de Ouro no festival francês.
Assim como em “Anticristo” (Antichrist, 2009), filme anterior do diretor, a sequência de abertura traz um prólogo impactante. Lars von Trier hipnotiza o espectador com cenas filmadas em câmera lentíssima, de estética visual de videoarte e trilha sonora feita de excertos do prelúdio da ópera “Tristão e Isolda”, de Wagner. Depois de mostrar a colisão de um planeta gigantesco contra a Terra, ao som de música ultrarromântica, o filme muda bruscamente de ritmo e o cineasta conta o que seriam os últimos dias do mundo através de duas irmãs, Justine e Claire, interpretadas pela americana Kirsten Dunst e pela francesa Charlotte Gainsbourg, vencedora em 2009 do prêmio de melhor atriz em Cannes por “Anticristo”.
Anunciado a princípio como uma versão para o cinema da peça As Criadas, de Jean Genet, Melancolia acabou mantendo da obra do escritor e dramaturgo francês apenas a estrutura calcada na relação de duas irmãs, o nome de uma das personagens (Claire) e o clima de tragédia iminente. Kirsten Dunst é Justine, uma publicitária que entra em crise no dia do casamento. A primeira cena é engraçada e mostra um motorista tentando manobrar uma limusine numa estrada estreita. Tudo é maravilhoso, mas Justine não consegue se entusiasmar. A cerimônia transforma-se numa comédia de erros com a noiva entrando em parafuso. A ilusão esmaece e o desastre se complementa com personagens problemáticos, típicos do universo de Von Trier – mãe niilista (Charlotte Rampling, sempre bem), pai ausente (John Hurt) e o chefe inescrupuloso da noiva (Stellan Skarsgård, pai de Alexander).
A festa de casamento é registrada por uma instável câmera no ombro, o que lembra outra produção dinamarquesa, “Festa de Família”, que Thomas Vinterberg (parceiro de Von Trier no manifesto Dogma 95) dirigiu em 1998. O clima de felicidade artificial, quase histérica, se dilui na medida em que a noiva vai mergulhando num estado de melancolia paralisante. “Quando tento caminhar, sinto um fio de lã, cinza e grosso, enrolado às minhas pernas”, ela confidencia.
A segunda parte da produção leva o nome da outra irmã, Claire. A ação se passa tempos depois do fracassado casamento no mesmo local onde aconteceu a festa: um luxuoso palacete à beira-mar. Ao lado do marido John (Kiefer Sutherland) e do filho, Claire espera a chegada de uma catatônica Justine – que nem consegue pegar um taxi sem a orientação da irmã - para juntos assistirem a passagem do planeta Melancolia, que está cada dia mais próximo da Terra. Justine serve como alter ego do cineasta. Vítima de uma depressão patológica, que o diretor já experimentou mais de uma vez, Justine não tem energia para caminhar, comer ou tomar banho e dá à Dunst a chance de brilhar como atriz.
Nesta segunda parte da produção, a ação se concentra na relação de Claire com a irmã, o marido e o filho. Melancolia, o planeta que no início era apenas uma estrela de brilho avermelhado, agora segue trajetória de colisão com a Terra. Claire teme, por ela e pelo filho, que as profecias pessimistas se concretizem e o fim do mundo esteja próximo. Seu marido, um astrônomo amador, garante que o planeta não está em rota de colisão com a Terra e tenta dissuadi-la ao colocar panos quentes na realidade. E acaba se revelando como um dos tipos hipócritas e covardes da obra de Trier. Claire, no entanto, não está tão segura disso, e se angustia cada vez mais com o possível desastre. Justine, ao contrário, vai saindo aos poucos da depressão profunda à medida que Melancolia está mais próximo. Diante da iminência da catástrofe, caberá à deprimida protagonista se revelar sábia e forte para lidar com a situação. É a única a perceber o inevitável: um dia todo mundo morre.
O mais instigante de Melancolia é a forma com que o cineasta revela as personalidades de suas protagonistas, que, segundo ele, podem ser vista com os dois lados da mesma pessoa. Na primeira parte do filme, dedicado à catatônica Justine, tudo é filmado em um tom amarelo quente. E quando coloca em cena o descontrole da aparentemente autoconfiante irmã mais velha, Von Trier usa o azul frio do que ele chama de a luz de Melancolia. Ela pode ser tanto o azul do ameaçador planeta como o da própria melancolia, já que blue, em inglês, significa tanto azul quanto triste.


Assalto ao Banco Central é uma grande roubada


A mais cinematográfica ação da história de assalto a banco do País ganha versão insignificante e sem emoção


Embora tenha construído minha carreira jornalística usando como matéria-prima o audiovisual, atuando por quase 30 anos como crítica de cinema, nunca gostei de novelas de TV. Admiro o padrão de qualidade global e acho que a TV tem uma linguagem muito especial e cativante, mas, acostumada a ver histórias que se desenrolam com começo, meio e fim em cerca de duas horas, nunca tive muita paciência para esperar o desenrolar das histórias dia após dias. Essa impaciência acabou fazendo com que eu implicasse um pouco com o cinema nacional que utiliza os atores de TV para protagonizarem suas histórias. Vendo os filmes nacionais (não todos, é claro), eu ficava sempre com a impressão de estar assistindo TV em uma tela grande.

Foi justamente essa impressão que tive assistindo “Assalto ao Banco Central”, dirigido por um dos mais bem-sucedidos diretores de televisão no Brasil, Marcos Paulo. Além de usar um elenco global, o diretor imprime características da TV à produção. E a primeira impressão que se tem é de estar assistindo um piloto de uma série policial de TV. O filme conta, com direito a elementos ficcionais, uma história real, que movimentou a cidade de Fortaleza em agosto de 2005. Numa ação por si só cinematográfica, bandidos levaram mais de R$ 160 milhões da filial cearense do Banco Central. Eles cavaram um túnel de 80 metros de extensão e 70 centímetros de largura para chegar ao caixa-forte do prédio. O circuito interno de TV não gravou nada. A edição mescla cenas da preparação com detalhes do que aconteceu depois, como a perseguição que sofreram por parte de um delegado da Polícia Federal e sua assistente, além da extorsão praticada por dois policiais corruptos.

Tinha tudo para ser um grande filme. A começar pelo currículo de seus realizadores e intérpretes. Renê Belmonte, o roteirista, por exemplo, é autor de várias comédias de sucesso (“Sexo, Amor e Traição”, “Se Eu Fosse Você 1 e 2”). Marcos Paulo dispensa comentários. Lima Duarte também, mas aqui merece. Primeiro Belmonte, que se arriscou ao afastar-se da realidade e optar pela criação de um enorme leque de personagens — influência, talvez da produção americana “Onze Homens e Um Segredo”. Resultado: não teve tempo de conferir personalidade a seus personagens, que acabaram sendo apresentados como meros esboços.

O chefe do bando é Barão (Milhem Cortaz, sempre um bom ator). Aqui ele aparece como um manda-chuva bem alinhado e com cara de mau. De origem rica, o bandido planeja e comanda a ação. Ele trabalha apenas como o cérebro do roubo e reúne os comparsas prometendo a cada um deles R$ 2 milhões. E como o roteirista mostra que ele é o cérebro da ação? Colocando para jogar xadrez sozinho. Muito pobre. Ao lado do Barão aparece Carla (Hermila Guedes, maravilhosa em “O Céu de Suely”), sua namorada, uma típica perua com ares de mulher fatal. Aqui ela parece uma atriz de novela da Globo. Mineiro (Eriberto Leão) é o bandido boa pinta que Barão procura para organizar o bando. Mineiro tem fama de trambiqueiro profissional e várias identidades. Difícil de acreditar, principalmente por conta do bom mocinho que o ator interpreta em “Insensato Coração”.

O destaque do elenco, se é que se pode chamar de destaque, é Tonico Pereira no papel de um engenheiro comunista, encarregado de supervisionar a construção do túnel a partir de uma empresa de fachada nas redondezas. Seu recrutamento é ideológico. Tonico rouba a cena sempre que aparece e o faz sendo o Tonico Pereira que a gente conhece e que o transformou em um dos melhores coadjuvante do cinema nacional.

Lima Duarte, um bom e respeitado ator, também é o Lima Duarte que a gente vê na novela das seis, das sete ou das oito. Ele tenta até ser engraçado interpretando um delegado da velha escola da polícia, mas acaba desperdiçando suas cenas porque parece estar atuando no piloto automático.

Giulia Gam, que na época das filmagens não escondia sua empolgação com o treinamento feito na Polícia Federal e com a consultoria da força policial nacional ao filme, deve ter se decepcionado. A começar pelo fato de sua relação amorosa com outra mulher, um tema que deveria ser melhor explorado, ter sido incluído de forma tão grosseira no filme. E a Vinícius de Oliveira, conhecido como o garotinho de “Central do Brasil”, coube o infame alívio cômico: ser um atrapalhado homossexual evangélico.

Não se pode culpar Marcos Paulo pela insignificância do filme. Afinal ele tem 30 anos de experiência na televisão, Marcos Paulo nunca tinha dirigido um filme antes. E deixa isso claro. Ele não deve ter assistindo nenhum filme de assalto a banco feito pelo cinema americano. Podia ter sido até “Trapaceiros”, de Woody Allen (em que o cineasta comanda um grupo de bandidos trapalhões que cavam um túnel para roubar um banco) ou quem sabe “Um Plano Perfeito”, estrelado por Clive Owen e Jodie Foster. Ele teria algumas dicas de como usar o humor em uma produção do gênero ou ainda como fazer um filme de ação e, ao mesmo tempo, explorar as características psicológicas dos personagens.

E a impressão que se tem ao ver “O Assalto do Banco Central” é de se estar diante de uma longa novela, infelizmente sem o padrão global de qualidade. Tudo deixa a desejar: o cenário, a trilha sonora e a narrativa não linear. E para piorar, “Assalto ao Banco Central” tem um final surrealista. O diretor não tinha, de fato, obrigação de ser fiel aos acontecimentos relacionados ao maior assalto da história do Brasil. Mas a sua versão, além de pobre, está longe de produzir bom entretenimento. O único mérito de “Assalto ao Banco Central” é despertar a curiosidade para o que, de fato, ocorreu. E para quem quiser matar essa curiosidade, a recomendação é o livro “Toupeira”, do ex-investigador da Polícia Civil de São Paulo, hoje advogado, Roger Franchini. A fonte para seus escritos são os autos do processo aberto em Fortaleza, os diferentes depoimentos e as informações que recolheu pessoalmente.

Entre a realidade e a ficção

O assalto ao Banco Central de Fortaleza é considerado o maior roubo a banco da história do Brasil. Os ladrões alugaram uma casa próxima à sede do BC na capital cearense e chegaram ao cofre por meio de um túnel. A estrutura contava com sistema de iluminação elétrica e até ventilação. Segundo a Polícia Federal, R$ 164,7 milhões foram roubados. Até hoje, foram recuperados cerca de R$ 50 milhões — R$ 30 milhões em bens. A primeira parte, 50 dias depois do crime, na casa de um dos suspeitos. A investigação levou à prisão de cerca de 120 pessoas, 37 envolvidas diretamente com o roubo. Um dos presos é Antonio Argeu, ex-prefeito de Boa Viagem, no interior cearense, acusado de financiar a execução do roubo com R$ 100 mil.

No filme, o espectador pode ver claramente que os ladrões embarcam em suas vans apenas algumas centenas de quilos de dinheiro, não toneladas. Entre as curiosidades da produção está o fato do túnel ser baixo, o que obriga os atores a se curvarem. No entanto, é alto o suficiente para que a câmera possa filmá-los. No filme os criminosos são apenas 13. Tirando os que apenas administram o processo ou cuidam de sua logística, é pouca gente para quase 80 metros de túnel. E finalmente a investigação é praticamente monopolizada pela Polícia Federal, concentrada praticamente nas mãos de dois investigadores: Chico Amorim (Lima Duarte) e Telma Monteiro (Giulia Gam).


sábado, 23 de julho de 2011

Droga é mesmo um jogo de azar _ Amy Winehouse is dead


Drugs é mesmo um jogo de azar. E para Amy Winehouse game is over. E ela perdeu feio. Apostou alto: a própria vida. RIP.

Amy Winehouse entrou no jogo apostando alto: a própria vida. E perdeu feio. Morreu deixando os fãs instigados pela certeza de que ela tinha uma grande trajetória pela frente. Em uma de suas mais famosas canções, a inglesa Amy Winehouse canta com sua voz única que o amor é um jogo de azar e as chances de se ganhar são mínimas. Os versos da canção poderiam ser trocados por “drug is a losing game”. Um jogo que Amy nunca deveria ter jogado e que, parafraseando a canção, fez um estrago irremediável em sua vida. O estrago teve o lance “lance final” (the final frame) na tarde do sábado, 23, quando a artista foi encontrada morta em seu apartamento de um bairro chique de Londres.

Desgastada pela banda (“played out by the band”), esquecendo as letras das músicas e completamente bêbada (ou drogada), Amy mal deve ter se dado conta do vexame pelo qual estava passando, tampouco percebido que a droga é realmente um jogo de azar muito mais azarado do que ela poderia aguentar (“more than I could stand”).

E certamente esteve longe de perceber que nunca teve um público que a apoiasse tanto e que a amasse tanto, a ponto de, no show em Belgrado, lembrá-la dos versos das canções, na esperança de que ela conseguisse levar seu show até o fim. Amy sempre teve imaginação e suas canções revelavam uma espécie de melancolia única. Só precisava ganhar a luta contra as drogas.

Se Amy era capaz de compor versos que atestam que o amor é um jogo de azar, deveria ser capaz também de perceber que a droga é declaradamente profunda (“self professed...profund”) e fazer esse encanto se quebrar (“tiil the chips were down”).

Pena que Amy estivesse bastante cega (“Though I’m rather blind”) e ter se resignado com seu destino drogado (“Love is a fate resigned”) e deixando que as lembranças denegrissem a sua mente (“Memories Mar my mind”), fazendo com que as drogas definissem seu destino (“a fate resigned”).

As expectativas não tinham de ser inúteis, tampouco ridicularizadas pelos deuses. Bastava abandonar o jogo. Afinal, desde o início ela sabia que a partida estava perdida. E para se achar, deveria, talvez, ter colocado em prática, versos de sua canção mais famosa, “Rehab” (reabilitação). Não aquela em que ela diz que tentaram mandá-la para a reabilitação e ela disse não, mas ( “I don’t ever want to drink again”) “Não quero beber nunca mais. Só preciso de um amigo” (“I Just, ooh, I Just need a friend”). Milhares de fãs deveriam ter bastado. Não bastou. Amy continuou no jogo e apostando alto. Apostou a própria vida. E perdeu feio.

A partida final do jogo, na tarde de sábado, 23, acabou fazendo com que Amy caísse naquele seleto e triste grupo dos artistas ícones de sua geração que morreram aos 27 anos — Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Jim Morrisson, Janis Joplin. O mundo a viu se acabar dia após dia e infelizmente não é nenhuma surpresa sua morte, depois de uma vida de tantos excessos, mas a tristeza de quem realmente é fã é inevitável.

Suas histórias pessoais sempre serviram de mote para promover sua música. Até mesmo sua gravadora usava seus problemas para vender discos e fechar shows. Só recentemente acabaram descobrindo que a superexposição era mais prejudicial que benéfica à carreira da cantora. Quando ela tinha 25 anos, foi alvo de uma reportagem da revista “Rolling Stones”, que expôs em suas páginas a vida desregrada da artista que vivia rodeada de usuários de drogas. Amy não escondeu seus vícios que se transformaram em prato cheio para a imprensa sensacionalista. Dois anos depois do lançamento do segundo disco, a cantora passou a ser um motivo de piada mais do que uma reconhecida cantora.

Entre uma passagem e outra por clínicas de reabilitação, Amy se arriscava no palco onde dava mais vexame do que cantava. No início do mês passado, quando estava em turnê pelo Leste Europeu, protagonizou um episódio desastroso em um show na Sérvia. Apenas murmurando as letras, visivelmente bêbada, cantou músicas fora do tom e abandonou o palco depois de ser vaiada e jogar um dos sapatos na plateia.

Os fãs da cantora passaram os últimos anos esperando que ela conseguisse sair das drogas pelo menos tempo suficiente para lançar outros discos tão bons como o álbum de estreia, “Frank”, lançado em outubro de 2003, produzido por Salaam Remi e o famosíssimo “Back to Black”. Frank tem influências do jazz e todas as canções foram escritas por Winehouse. O álbum foi bem recebido pela crítica e sua voz foi comparada à de Sarah Vaughan e Macy Gray. “Frank” foi indicado para o Mercury Music Prize 2004. E lançado apenas no Reino Unido. “Back to Black”, que recebeu seis indicações para o Grammy 2008, das quais venceu cinco: Canção do Ano, Gravação do Ano, Artista Revelação, Melhor Álbum Vocal Pop, Melhor Performance Vocal Pop Feminina. Também pudera. “Back do Black” foi produzido por Mark Ronson, que tem entre seus créditos a produção de Ol’ Dirty Bastard, Lilly Allen e Christina Aguilera. Ronson recrutou os músicos da banda The Dap-Kings, comandada por Gabriel Roth. O instrumentista colaborou para o sucesso de Amy Winehouse, tocando e atuando como engenheiro de som no CD, e a banda fez uma participação impecável ajudando a cantora a resgatar a magia da soul music, unindo ainda a linguagem do funk e hip hop.

Com o alicerce de uma produção caprichada, um repertório sem falsidade e música extraída das experiências, Amy Winehouse resgatou com o disco as profundezas o bom som, feito com sinceridade e bem trabalhado. Embora fosse uma angustiada e sofrida, ela cantava com a alma, com a amargura de sua alma.

Ainda não se sabe, mas tudo evidencia que Amy perdeu o jogo para as drogas, assim como os artistas citados no começo deste texto. Mas a história bem que poderia ser diferente. Afinal a gente conhece muito velhinho que se entregou às drogas e estão aí vivos e fortes. Que o diga Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, que segue contando histórias e excursionando com sua banda ; Iggy Pop e David Bowie, sem falar dos integrantes do Red Hot Chilli Peppers. E só para lembrar uma mulher, não tão talentosa quanto Amy, mas ainda assim famosa: Courtney Love. A viúva de Kurt Cobain e líder da banda Hole esteve internada diversas vezes por conta de seu vício em heroína e cocaína. Mesmo longe da cena musical nos últimos anos, ela conseguiu papel de destaque no cinema como no filme “O Povo Contra Larry Flynt”.

A própria Amy mostrou sinais de melhora no ano passado quando regravou “It’s My Party”, de Lesley Gore, para o álbum “Q Soul Bossa Nostra”, um tributo ao produtor Quincy Jones. Ainda no ano passado ela lançou seu próprio selo,
Lioness, que lançou a afilhada de Amy, Dionne Bromfield. E em março deste ano ela se juntou a Tony Bennett nos estúdios Abbey Road para gravar um standart do jazz dos anos 30, “Body and Soul”, para o próximo álbum de Bennet, “Duetos II”. Depois da morte de Amy, o cantor disse que a performance da artista na música é comovente e extraordinária.

O legado de Amy Winehouse é a renovação da soul music que a artista resgatou cantando suas dores de amores e dificuldades de se livrar do vício. E principalmente o fato da artista abrir caminho para um time de jovens vozes poderosas da Inglaterra como Adele, nomeada artista revelação em 2008 pelos críticos da BBC e ganhadora de dois Grammy Awards: Artista Revelação e Melhor Vocal Pop Feminino. Seu reconhecimento mundial veio com o álbum “21”, e sua canção “Rolling In The Deep” é tocada com fervor nos Estados Unidos e Reino Unido. Adele disputa com os Beatles no ranking de músicas mais vendidas na internet. Além do também britânico James Blake, 22 anos, que estreou em disco, em fevereiro deste ano, com elogios em sites e revistas do mundo todo; e a cantora Rox, 21 anos, que lançou o disco “Memoirs” e emplacou o single “My Baby Left Me” na trilha da novela global “Araguaia” além de ser bem recebida pelos britânicos, que incluíram a moça nas listas de promessas de 2010. Se não dá para chamar de “seguidoras”, podemos sim afirmar que sem o sucesso de Amy, essas cantoras, assim como Janelle Monaé, Estelle e Joss Stone teriam tido mais dificuldade para mostrar seu trabalho.

E pensando em epígrafe para a carreira e vida de Amy, impossível não pensar em suas próprias palavras. “I wish I could say ‘no regrets’ and no emotional debts, and as we kiss good-bye the sun sets. So we are history, the shadow covers me, the sky above a blaze that only lovers see... My tears dry on their own.” “Gostaria de poder dizer sem arrependimentos ou dívidas emocionais. E em nosso beijo de despedida ao por do sol, entramos para a história. A sombra me cobre. No céu, uma chama que só os amantes podem ver... e minhas lágrimas secam por conta própria.”


quinta-feira, 14 de julho de 2011

A época de ouro do cinema de Woody Allen




Confesso que relutei em ir assistir Meia noite em Paris, de Woody Allen. Será que valeria a pena rever mais um alter ego do cineasta inseguro, tímido, infeliz com suas escolhas pessoais e de trabalho, cheio de trejeitos e com aquele jeito “cuida de mim” que várias mulheres gostam? Fui. E me deliciei mais uma vez com a certeza de que não existe nada melhor do que uma história bem contada, mesmo quando a gente já a conhece.

Para começar, a produção se vale de um clichê da ficção científica – a viagem no tempo – que Allen usa para reverenciar o romantismo e a pulsão cultural da Paris dos anos 20. Inteligente, leve, encantador, delicioso de se assistir, o filme ainda mostra a capacidade do cineasta de mergulhar na nostalgia para tirar o positivo do presente.

No papel recorrente do próprio Allen, como seu alter ego, agora está Owen Wilson. Ele vive Gil, roteirista de Hollywood que visita Paris com a noiva, Inez (Rachel McAdams), e os sogros. Escritor frustrado preso a um trabalho que considera medíocre, Gil, a exemplo de outros intelectuais americanos, sonha com a Paris dos anos 20, quando a capital francesa era o paraíso de “todos” os artistas. E vê a Cidade Luz como o lugar ideal para sua criatividade desabrochar. Isso acontece quando ele é transportado para os anos 20 por um portal de contos de fadas; o badalar dos sinos de Notre Dame a meia noite. Ele acabara de passar por uma sessão de degustação de vinho, está meio bêbado e acha normal pegar carona em um carro antigo, que literalmente o leva a uma viagem no tempo.

Como a gente conhece as neuroses de Allen e sua maestria, os delírios do protagonista parecem perfeitamente naturais. Ele circula com desenvoltura entre dois núcleos, o real do século 21 e o fantástico dos fervidos anos 20. Em suas escapadas pelas noites de Paris ele é levado ao encontro de figuras como Cole Porter, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Gertrude Stein, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Pablo Picasso e T.S. Eliot, entre outros tantos nomes que ajudaram a escrever a história do século 20 na música, na literatura, nas artes plásticas e no cinema.

Nos anos 20 Gil não somente tem a chance de interagir com a escritora americana Gertrude Stein como o privilégio de tê-la avaliando seu trabalho, recebendo conselhos tão bons quanto os que Stein dava ao jovem Picasso, que, segundo ela, era bom, mas não tão bom quanto Matisse e estava longe de um Miró (nas palavras de Hemingway). Com Ernest Hemingway ele toma absinto e ouve os célebres e impulsivos discursos sobre a inveja que os escritores têm um dos outros. Quando Gil entrega o manuscrito de seu livro para Hemingway, pedindo para que este o leia, o autor de Adeus às Armas responde de forma hilária e genial: “Não vou ler. Se for ruim, vou detestar. Se for bom, vou ficar com inveja e detestarei ainda mais”.

É na casa de Stein que ele conhece uma bela francesa por quem se apaixona: Adriana (Marion Cottilard, Oscar de melhor atriz pelo filme Piaf), seguidora da estilista Coco Chanel e amante de Pablo Picasso, depois de passar pelas mãos de Braque e Modigliani. Como Gil, Adriana acha que nasceu na época errada e nutre obsessão pela Belle Époque, que considera a verdadeira era de ouro de Paris.

Outro grande momento do filme é a divertida conversa de Gil com o fotógrafo Man Ray, o cineasta Luis Buñuel e o pintor Salvador Dalí, figuras conhecidas do surrealismo. Aliás, a cena mais memorável de Meia noite em Paris fica por conta do encontro de Gil com Luis Buñuel em uma festa. Gil sugere que rode um filme sobre um grupo de burgueses que, após o jantar, não consegue abandonar a mansão e, aos poucos, vão perdendo o verniz de civilidade. O coitado só entenderia o conselho de Gil em 1962, quando usou o argumento para filmar o hoje clássico O Anjo Exterminador.

Acostumado a fazer filmes curtos, Allen acaba prejudicando Meia noite em Paris ao usar os personagens célebres dos anos 20 – T. S. Elliot, Cole Porter e mesmo Scott e Zelda Frtizgerard – como meros coadjuvantes. Na maioria das vezes eles entram em cena apenas para ilustrar uma piada rápida de Allen - como quando ele oferece um valium para uma Zelda Scott prestes a cometer suicídio. Allen explora mais a fundo a relação de Gil com Hemingway e Gertrude Stein. Nas conversas dos dois escritores fica a constatação de como a humanidade foi transformada pelo século 20: do falastrão, resolvido e confiante Ernest - na verdade, um beberrão- ao inseguro, frágil e problemático Gil. Hemingway, um ex-combatente de guerra, não entende por que Gil cultiva um constante medo da morte. Ou por que simplesmente não se autodenomina “o melhor escritor do mundo”, ao invés de ter vergonha até mesmo de mostrar seu livro para os outros. E de Stein recebe conselhos que vão nortear sua vida em 2010.

Depois, passeando pelo passado, de braços dados com Adriana Gil tem um insight. Todo mundo acha sua época ruim. Gil sonha com os anos 20, Adriana com a Belle Époque e Paul Gauguin queria ter vivido na era renascentista. Não seria melhor viver o presente? Que tal exaltar o passado, mas sem desqualificar o presente? Por que viver um passado que nunca se teve e esquecer o presente que está passando por nós? Allen mostra ao espectador, de forma carinhosa, as pequenas incoerências do ser humano, que não encontra a felicidade aqui, mas também não encontra lá. É preciso, sugere Allen, para que isso aconteça, dar-se conta de que passado e presente não são, necessariamente, excludentes. O passado nunca vai embora de todo. E no filme isso acontece com a personagem da vendedora de antiguidades com quem Paul finalmente descobre o encanto de caminhar pelas ruas de Paris sob a chuva. Com ela, Gil certamente poderá concluir que todas as épocas são de ouro em Paris.

Saí da sala de cinema com enorme vontade de rever The Moderns, de Alan Rudolph, e de reler Autobiografia de Alice B. Toklas, que curiosamente foi escrita não por Toklas, mas por sua companheira Gertrude Stein. Felizmente tenho os dois. O filme de Rudolph em uma antiga e ainda funcional fita em VHS (não, não me desfiz do antigo videocassete em plena era do blue ray) e o livro em uma edição de bolso lançada pela L&PM Pocket.

O livro Gertrude Stein é um dos mais preciosos documentos sobre os criadores da arte e da literatura moderna. Os elogios não são poucos frente ao cenário grandioso da obra – a Paris do início do século 20 – e à sala de visitas de Gertrude Stein, o lendário número 27 da Rue de Fleurus, onde reunia amigos como Picasso, Matisse, Hemingway, Jean Cocteau e Scott Fitzgerald, todos ainda jovens e desconhecidos, em informais encontros e frequentes festas. Seus convidados podiam também admirar uma das maiores coleções de arte do século passado, que incluía o retrato da anfitriã pintado por Picasso. Aliás, o retrato aparece na sala de Stein no filme de Allen.

Já o filme que Alan Rudolph realizou em 1988 se destaca pelo elenco maravilhoso que inclui Keith Carradine, Linda Fiorentino, Genevieve Bujold, Geraldine Chaplin, Shawn Wallace, Kevin O'Connor e John Lone . A ação do filme se passa justamente na Paris dos anos 20 e conta uma história que tem relevância para o século 21, com sua visão sobre a vida urbana, amoralidade, poder, política, sexo, cobiça, e da arte como mercadoria. Keith Carradine é Nick Hart, um aspirante a artista que falsifica um Matisse, um Cézanne, Modigliani e se envolve com a ex-mulher, vivida por Linda Fiorentino. Hart e seus colegas personagens são retratados como tendo uma conexão de periféricos com círculo interno de Gertrude Stein, um círculo que inclui Ernest Hemingway e tantos outros personagens do filme de Allen.

sábado, 7 de maio de 2011

O Homem de La Mancha


A Versátil, em parceria com a Metro-Goldwyn-Mayer, lança no Brasil em DVD o até hoje inédito O Homem de La Mancha, adaptação cinematográfica do célebre musical da Broadway baseado em Dom Quixote de La Mancha, o clássico de Miguel de Cervantes. O grande Peter O’Toole (de Lawrence da Arábia), como o cavaleiro delirante que combate moinhos de ventos, e Sophia Loren (de Duas Mulheres), no papel da desejada Dulcinéia, têm atuações espetaculares. A cena de O'Toole cantando The Impossible dream é impagável